O que procurar em um potro de leilão?, por Sergio Barcellos » Jockey Club Brasileiro - Turfe

O que procurar em um potro de leilão?, por Sergio Barcellos

Por ocasião do leilão anual de potros em Deauville, França, em agosto deste ano, a Arqana, companhia promotora do evento, entrevistou alguns dos principais criadores com animais inscritos para venda, entre eles o Ballylinch Stud (Irlanda), e os haras du Cadran, d’Ellon, d’Etreham, des Granges, La Motteray, du Logis St Germain, du Mâ, Mezeray, Petit Tellier, Quesnay, e de La Reboursiere et Montaigu, que estão entre os mais conhecidos da Europa, a maioria deles situada nas impecáveis pastagens da Normandia.

Entre as perguntas, a mais interessante parece ter sido “O que os compradores deveriam procurar em um potro de leilão?” Várias das respostas estão a seguir:

Atleticismo e uma atitude confiante diante da vida.”

Potros inéditos têm que se parecer com atletas e caminhar bem. Mais importante ainda, é saber se são calmos e com um comportamento equilibrado.”

Compradores deveriam, é claro, se deter na apreciação do modelo de animal, mas, sobretudo, deixar-se levar por seus sentimentos e simpatias pessoais.

Há três coisas que um comprador deveria analisar em um potro inédito: seu pedigree – sua forma de caminhar – e as proporções do modelo.

Sempre sugerimos aos nossos clientes que procurem um tipo de animal atlético, que caminhe bem, e tenha o que é fundamental: presença. Esses são os três fatores mais importantes quando se trata de escolher um yearling.

Compradores deveriam, primeiro, olhar o indivíduo, antes de abrir o catálogo de vendas. E, ao olhar um potro inédito, deveriam sempre se colocar a uma distância de, pelo menos, três passos dele.

Compradores devem procurar: consistência física, uma boa andadura, aparência atlética, e, claro, presença.”

Com se vê, são opiniões diferentes sobre a mesma realidade. Mas vindo de gente que já criou ganhadores de Derbys, Dianas e Arcos do Triunfo, entre outras provas de Grupo mundo a fora, todas elas têm um peso específico e certamente importante.

Uns recomendam, primeiro, olhar o indivíduo e só depois ir ao catálogo. Outros, ao contrário, sugerem só examinar o indivíduo se o catálogo lhes desperta atenção. É o velho embate sobre o que é mais importante entre origem e modelo. O fato é que neste permanente jogo de xadrez com a natureza, cada um tem seu método. E todos são válidos.

Há, porém, pontos de convergência no conjunto das opiniões, quais sejam: (i) o de que atletas em formação têm, por óbvio, que se parecer com atletas, (ii) caminhar bem, e (iii) serem ungidos com “presença.”

No primeiro caso, estamos falando de músculo e correção de aprumos. No segundo, de colocação certa das diagonais ao passo. Embora cavalos que andam corretamente sejam uma primeira boa indicação, isso não lhes garante galopar com a mesma eficiência. Por outras palavras, “good walkers” não são necessariamente “good movers.” Mas é certo que quem caminha mal, dificilmente galopa bem. Questão de capacidade de sincronizar movimentos a 60 quilômetros por hora, tendo ainda que carregar um homem balançando em seu dorso.

No terceiro caso, “presença”, isso é algo que tem muito mais a ver com espírito competitivo (definido por um dos entrevistados aí em cima como “atitude diante da vida”), do que com modelo físico. Uns raros cavalos, e aqui não importa seu peso e tamanho, têm “presença”, outros nem tanto. Mas “presença” em um potro inédito de corrida faz parte do intangível – no sentido de que infenso a qualquer racionalização. “Presença” sente-se, não simplesmente vê-se.  

Grandes “homens do cavalo”, aqueles que têm o dom de escolher certo na maioria dos casos, dão enorme valor à “presença”, principalmente em animais jovens. Ao ponto de   conseguir descartar outros parâmetros de comparação, quando ela está ausente, ou simplesmente não existe. E os exemplos são inúmeros.

O lendário Vincent O’Brien escreveu que suas escolhas de Nijinsky e The Minstrel se deveram ao fato do primeiro ter “a aparência das águias”, e o segundo, malgrado seu tamanho reduzido, ser “atento, e sólido como um sino de igreja.” Mas ele era Vincent O’Brien, o “Mago de Ballydoyle.”

Da mesma forma, Alec Head, hoje patriarca de uma longa dinastia do turfe europeu, comprou Lyphard para seus novos proprietários – e Lyphard, que não alcançou seu preço de reserva, era um poney quando “yearling” -, porque viu nele algo que ninguém mais viu. Claro, Alec Head é um dos maiores e mais conhecidos “homens do cavalo” do mundo. Como ninguém viu, aliás, o que estava por trás do pequeno gigante da Windfields Farm, quando E.P. Taylor o colocou em leilão com um preço de reserva de US$ 25,000.00, e não houve lance vencedor. O resto é a história de um certo Northern Dancer.

Ou o que Arthur “Bull” Hancock Jr, da Clairborne Farm, viu em Danzig, sprinter puro, ganhador de três provas comuns em 1.200 metros, de aprumos duvidosos, e tendo encerrado sua campanha porque quebrou (espatifou, no caso) o joelho, só ele conseguiu perceber. E, quem diria, Danzig é hoje o maior continuador da velocidade de seu clã, ademais de ponto de partida de fantásticos corredores e reprodutores de nossos dias.

Mas esta não é a história de apenas “homens do cavalo” internacionais. Ela tem suas ramificações e capítulos entre nós. Vários capítulos e inúmeros personagens. Um dia, perguntado por que resolveu deter-se em Courageuse, que, aliás, não estava à venda, Eurico Solanés, resumiu: “Foi ela acabar de sair do box, e eu decidir que não havia mais dúvida: era ela e mais ninguém!” Courageuse ganhou tudo (Diana e Derby, inclusive). Eurico Solanés era um “homem do cavalo.” Tinha o dom. E parece ter transmitido isso às duas novas gerações de sua estirpe, o filho e o neto.

Mas há outros personagens, claro. Dos que conheci nesta longa vida, Sebastião Ferreira (Haras Tibagi), grande criador e grande proprietário, com anos de ver cavalos de corrida em Chantilly (onde morou, inclusive), resolveu responder à mesma pergunta: “O que você procura em um potro de corrida, Xanxão?” Calmamente, resumiu: “Atitude, menino, atitude.” E prosseguiu: “Defeitos, qualquer um consegue ver. O que se deve procurar em um cavalo de corrida são as suas qualidades. E nenhuma delas, é maior que atitude.”

Talvez, de todas as respostas das entrevistas da Arqana, acima reproduzidas, uma das mais significativas tenha sido dada por quem disse que os compradores “deveriam deixar-se levar por seus sentimentos e simpatias pessoais.”  Há muito de verdade nisso. E há, porque cavalo de corrida não é apenas modelo, nem apenas tamanho, nem tampouco apenas origens, e sim o conjunto disso tudo, mais “vontade de vencer.” Sem “vontade de vencer”, leia-se, sem coração, não há cavalo de corrida digno deste nome.

Portanto, a escolha, principalmente de potros de leilão, também funciona, sim, quando o interessado, de posse de todas as informações sobre o produto, consente em deixar-se levar pelo seu sentimento individual a respeito.

Este é um direito, de cujo exercício nenhum comprador em potencial deveria abrir mão. O mesmo direito que cada ser humano tem de deixar fluir sua própria emoção. E poder dizer, ainda que diante de um indivíduo tecnicamente perfeito: “Ele é perfeito. Mas eu não gosto deste, gosto daquele.”

Porque no eterno “embaraço da escolha” – e são sempre muitos e normais os embaraços da escolha em leilões de potros -, lança-se, ou compra-se, aquilo de que se gosta. Ponto. Como nas artes plásticas, cavalo de corrida, de saída, tem que falar à alma e aos sentidos. E se não fala, desconfia-se.

Na escolha de cavalos de corrida, vale seguir sentimentos que não são exatamente deste mundo. É uma regra razoável. Parecida com aquela que fez Master Luke explodir a “Estrela da Morte”, ao seguir o único conselho possível, àquela altura, de seu mestre Jedi: “Follow your feelings, Luke!

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