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Lembranças, Histórias (Milton Lodi)

Lembranças, Histórias (Milton Lodi)

 

                 Um dos episódios mais curiosos que presenciei foi quando da ida a São Paulo do jóquei Jorge Velasquez. Muito simpático, com um fino bigodinho, casado com uma linda moça que tinha sido Miss Porto Rico e que era a mãe dos filhos do excelente jóquei, e que se faziam acompanhar pelo agente de Velasquez, um gordo norte-americano e sua não menos gorda mulher. Velasquez não trouxe com ele um chicote, pediu um emprestado. Foi um gesto premeditado, facilitando uma aproximação com os profissionais paulistas. Outro gesto simpático foi doar por antecipação para a entidade dos profissionais todos os prêmios em dinheiro a que viesse a fazer jus. Naquela época de ouro do turfe paulista, o Jockey Club de São Paulo promovia eventos turfísticos que enobreciam o turfe paulista. Como sempre acontece em eventos como esse, Velasquez recebeu sobras de montarias, pois as principais naturalmente já tinham os seus jóqueis comprometidos. Mesmo assim, Velasquez teve oportunidade de demonstrar a sua alta classe, chegando a ganhar um ou dois páreos. Naquela época, o Posto de Fomento Agro-Pecuário do Jockey Club de São Paulo, o Posto de Monta de Campinas, funcionava de forma brilhante, contando sempre com alguns garanhões importados. A Comissão de Fomento do JCSP entendeu de proporcionar ao Velasquez e seus acompanhantes uma visita ao Posto na terça-feira, inclusive para almoço. Foi uma agradabilíssima visita, o Velasquez gostou muito, mas fez uma pequena restrição à qualidade dos garanhões, que no entender dele não estaria à altura da magnitude do Posto e seus modernos padrões técnicos internacionais.

Ele me perguntou se havia no Brasil algum garanhão norte-americano de sucesso, e eu respondi que havia um, por exemplo, que era inclusive o líder das estatísticas, de nome Tumble Lark, de propriedade do Haras Rosa do Sul. O Velasquez sorriu, e me disse que ele havia montado nas pistas norte-americanas por algumas vezes um cavalo secundário, sem classe, um corredor de aptidões apenas comuns, que tinha o mesmo nome. Conversa daqui, conversa dali, chegou-se a conclusão que era o mesmo Tumble Lark-FOTO, nas pistas um modesto corredor sem classe e no haras um ótimo reprodutor de ganhadores de provas nobres. Tumble Lark foi comprado nos Estados Unidos para o Matias Machline pelo expert argentino Alessando Lingfield, na verdade um hipólogo. Para encerrar o assunto, o Velasquez disse que um Posto de Fomento daquela qualidade merecia um garanhão de ponta norte-americano.

                 Em outro momento, mas ainda na época de ouro do turfe paulista, foi convidado pelo JCSP o técnico e homem de confiança do então Presidente da Argentina Juan Perón, para uma palestra cujo tema era como escolher um potro a ser comprado nos anuais leilões. A Argentina tem tradicionalmente cerca de 3 vezes mais que o Brasil no número anual de produtos, hoje cerca de 7.500, e a escolha não é fácil. Lá há indicadores que tem que ser respeitados. Como mero exemplo, os grandes Haras, à época o Chapadmalal (depois divido em Comalal e Malal Hué), o Ojo de Água, o Argentino e mais uns tantos, tinham um lote grande de produtos, que eram apresentados em dois ou três lotes, em dias diferentes, pois senão teriam que ocupar sozinhos uma noite inteira, assim prejudicando os haras menores. Quem decidia da ordem da apresentação dos produtos era a organização Bullrich, que analisava os pedigrees, examinava todos os animais, e decidia a ordem de apresentação, sempre os mais pretensiosos e valiosos em ordem decrescentes. Isso já representava uma boa indicação, mas na prática os compradores mais fortes também levavam em conta decrescente de valores técnicos. Mas com a grande oferta havia que ser encontrado um potro são, bem aprumado, de físico equilibrado, e com pelo menos um mínimo indispensável de qualidade. Após cerca de duas horas de valiosas informações, o expert argentino terminou dizendo que, depois de eliminados os potros com detalhes proibitivos, com por exemplos pedigrees ruins ou não em produção pelo menos razoável em termos de classe e qualidade, e eliminados aqueles com defeitos físicos proibitivos, os interessados deviam tentar comprar aqueles que lhe fossem mais simpáticos, aqueles ou aquele que fizessem os seus corações baterem mais fortes, comprar os potros que lhes dessem maior prazer em tê-los para correr com as suas cores. Em síntese, o amigo de Juan Perón disse que, na falta de uma bola de cristal ou de uma pitonisa, era eliminar os indesejáveis e optar por aquele que mais lhe dissesse alguma coisa a mais.

                 Contam como se fosse verdade que Alessandro Lingfield foi examinar na França duas potrancas irmãs, naturalmente filhas do mesmo pai, para escolher uma para o Matias Machline. Eram caras, lindas e muito parecidas. Alessandro avisou ao Matias que elas eram muito parelhas, era muito difícil escolher. O Matias teria dado a ordem para escolher e logo comprar a preferida, que ficaria para fazer campanha nas pistas francesas. Alessandro escolheu, e fez o negócio. O resultado prático foi que a escolhida pelo expert não prestou, e a outra foi boa ganhadora clássica. Dizem que o Matias teria dito que pelo menos o episódio havia lhe ensinado que, em um caso desses, haviam que ser compradas as duas, pois então não haveria a possibilidade de erro.

                 São as incertezas do turfe que o fazem interessante, complexo, difícil, mas encantador.

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