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Curiosidades 7 (Milton Lodi)

   Curiosidades 7 (Milton Lodi)

 

                 Na minha primeira letra F dei o nome de Ferrari a um potro alto de pescoço meio invertido e de cabeça grande. Era extremamente manso e foi levado para o Hipódromo da Gávea junto com os outros para venda, no grupo de cocheiras, ele ocupava o 1º box, e sempre que notava algum movimento colocava o pescoço para o lado de fora para provocar carinhos em seu cabeção. Eu o via todos os dias de segunda à sábado. Apareceu um novo turfista, por todos desconhecido, de terno branco sem gravata de tez morena e profundas olheiras escuras, que depois me disseram que seria um cigano que manifestou desejo de comprar o Ferrari. Na hora, acertamos um preço para pagamento à vista. Ele ficou com o cavalo e tomou duas atitudes, quais sejam, manter o cavalo com o mesmo treinador e trocar o nome para Tuchaua. O potro mostrou-se muito bom corredor e, se não me falhe a memória, venceu logo umas 3 corridas. E depois disso sumiu o proprietário levando com ele o Tuchaua.

Muitos meses se passaram, um dia recebi um telefonema de São Paulo do handicapeur Seu “Tomazinho” (Tomaz Teixeira de Assumpção Junior), que na verdade era um “faz tudo” da Diretoria. Ele me perguntou quando eu iria para São Paulo, e quando o informei que seria na semana seguinte, ele logo marcou um encontro, dia e hora na entrada do prédio da administração do JCSP. Conforme combinado, fui para o encontro direto do aeroporto. O Seu “Tomazinho” me colocou dentro de um automóvel do clube com um motorista e mandou que seguíssemos para a Chácara do Ferreira onde, à época havia uma pequena pista para exercícios e galopes aproximadamente com 400 ou 500 metros. Àquela hora, no princípio da tarde, era muito grande o número de animais que passeavam para o exercício da tarde e o Seu “Tomazinho” me disse que um daqueles animais poderia ser o Tuchaua. Acontecia que cerca de uma semana antes, um cavalo muito ruim, um perdedor de nome Barbante havia vencido um páreo surpreendentemente por vários corpos, levantando suspeitas. Naquela época, há 50 ou 60 anos atrás, a forma de identificação era rudimentar, e de vez em quando surgiam tentativas de trocas de animais.

Quando da surpreendente vitória de Barbante, surgiu logo uma grande dúvida, e alguém disse que já teria visto o cavalo que ganhara correr muito bem no Hipódromo da Gávea e que poderia ser o Tuchaua, com as suas características de mansidão, pescoço semi invertido e cabeça grande. Ainda no automóvel, o Seu “Tomazinho” me perguntou se eu seria capaz de identificar o Tuchaua e eu respondi que sim, ele era muito característico. Saltamos do carro, e ficamos observando aquela grande quantidade de cavalos que passeava, até que, de repente eu vi o Tuchaua. Lá vinha ele manso acompanhando o seu cavalariço. Eu logo disse que aquele era o Tuchaua. Quando o cavalo passou em frente a nós eu pedi ao cavalariço para tirá-lo da fila e traze-lo até onde estávamos e logo que isso aconteceu, ele esticou o pescoço e ofereceu o cabeção para ser acariciado. Foi então que Seu “Tomazinho” contou que o tal Barbante tinha sido aprisionado pela Comissão de Corridas enquanto os fatos do tal Barbante era apurados, e aquele meu reconhecimento encerrava as dúvidas, o Tuchaua havia corrido e vencido no lugar do tal Barbante. No dia seguinte, a notícia da confirmação já se espalhara e quando eu me dirigia para o meu grupo de cocheiras fui abordado por um desconhecido que me disse ser um advogado do dono do Barbante e que duvidava da veracidade da minha declaração, de que o Tuchaua havia corrido no lugar do Barbante. Eu simplesmente respondi que eu nunca afirmara que o Tuchaua correra no lugar do Barbante, eu só afirmava que o cavalo que desfilava em meio a muitos era o Tuchaua. Casos como esse hoje em dia são impossíveis de acontecer, pois a modernidade trouxe formas e meios de identificações. Eu nunca mais vi o meu Ferrari, o Tuchaua um filho de Four Hills e Cassia, por Caracalla.

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