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Curiosidades 6(Milton Lodi)

Curiosidades 6 (Milton Lodi)

 

               Após o término da 2ª Guerra, 1939/1945, o meu pai foi à Itália como ia frequentemente a trabalho, e quando era domingo ia sempre aos dois principais Hipódromos italianos, La Campanelle em Roma e San Siro em Milão. Uma tarde, assistiu a um páreo em La Campanelle só de éguas. Com exceção de uma, todas corriam emboladas, um grupo compacto, e em último ia uma que não mostrava padrão suficiente para tentar descontar a diferença. Na última reta, o jóquei da última tirou-a para fora, para o meio da pista, e acabou vencendo a corrida. O meu pai se surpreendeu, aquela vencedora, em quase todo o percurso, não demonstrava condições nem vontade de correr, a vitória tinha sido surpreendente. Consultando o programa, o meu pai viu que o nome da ganhadora era Pigra, que quer dizer Preguiçosa, e ao lado do nome dela havia um número, um valor. Foi informado que aquele era o preço de eventual venda, pois o páreo era do tipo a reclamar, um claiming, que poderia ser praticado até uns tantos minutos após a corrida. O meu pai foi à Comissão de Corridas, e manifestou o seu desejo de comprar a tal Pigra, a Preguiçosa. O proprietário foi chamado à Comissão, para assinar o documento de transferência e receber o valor da transação. Mas o proprietário não concordou, disse que naquela época, fim de guerra, não havia quem quisesse comprar cavalos de corrida, e então era usual a fixação de um preço menor para a corrida. Por aquele valor ele não vendia a égua.

A Comissão de Corridas disse, se ele não transferisse a égua naquele momento pelo preço fixado, imediatamente estaria cancelada a sua matrícula de proprietário. Houve naturalmente um momento de constrangimento. Foi quando o meu pai, sempre bondoso e conciliador, perguntou ao proprietário por quanto então ele venderia a égua. Ele disse o valor, e recebeu como resposta do meu pai que então estava tudo bem, ele pagaria o preço alvitrado pelo proprietário. Pigra veio para o Brasil, e durante algum tempo, penso que por volta de um ano, correu não só no Hipódromo da Gávea como também no de Petrópolis, que teve curta duração. Ganhou umas poucas corridas, senão me falha a memória, e foi para o Haras Ipiranga, que estava se iniciando. Pigra teve inicialmente um ou dois filhos sem maiores expressões, até que em 1953 deu uma boa filha, Cantarelle, pelo francês Fairy King, um lindíssimo filho de Vatelor. Ao contrário de Pigra, que tinha uma aparência comum, de porte médio e pouca densidade física, Cantarelle era maior, mais vistosa, com mais vivacidade, e mostrou um padrão bem melhor que o da mãe. Quando Cantarelle começou a correr, infelizmente o meu pai já havia falecido. Encerrada a curta campanha nas pistas, levei-a para o Ipiranga e ela foi dada ao então garanhão Manguarí, cavalo com inúmeras vitórias clássicas inclusive o Derby carioca. Manguarí tinha um tipo físico muito diferente do da Cantarelle, ele era forte, compacto, de costelas largas, grande capacidade torácica, e orelhudo. Nasceu um potro alazão como o pai, bom tamanho, muito saudável e forte, ao qual eu dei o nome de Interlagos, que foi vendido em leilão de potros em Cidade Jardim, e arrematado pelo proprietário Max Perlman. Interlagos foi um bom corredor, não respeitava quando lhe atribuíam pesos mais altos. Se não me engano, terminou a sua campanha nas pistas com mais de 10 vitórias, inclusive uma prova de grupo. Tinha grande espírito de luta, brigava muito. Max Perlman comprou o então Haras 28 de Outubro, e lá iniciou-se como criador, o seu haras hoje está com seu filho Michael Perlman, com o nome de Interlagos. A mãe de Cantarelli vendi para Adolfo Schmalz um criador de Santa Catarina.

O curioso dessa história da Pigra foi que meu pai a comprou pelo nome e pela sua falta de vontade de correr como preguiçosa, só mostrando qualidades na última reta. Chegado ao Brasil, por curiosidade eu, com menos de 20 anos de idade na época, fui verificar nos documentos da Pigra o seu histórico. Ela era nada mais nada menos que uma filha de Zucarello (Ortelo, à época o melhor garanhão da Itália) e Pretty Spark, uma filha do grande Fairway. Na Itália ela havia vencido 10 páreos e obtido 17 colocações. O mais curioso de tudo isso foi que quando o meu pai efetuou a compra desconhecia por completo o pedigree, número de vitórias e quaisquer outras informações sobre a Pigra, ele a comprou principalmente porque ele achou que ela era realmente uma Pigra, uma preguiçosa, que só corria na última reta.

 

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