Curiosidades 3 (Milton Lodi)
A – Na época de ouro do turfe paulista, o campo do GP São Paulo era numeroso, e o prado lotado. Entre os concorrentes a uma honrosa colocação estava Balarico, montado por Antonio Ricardo, um ótimo jóquei e pai e professor do nosso campeão Ricardinho. No páreo, entre os competidores com aspirações menores, estava Albeniz, montado por Antonio Bolino. Balarico corria no bolo intermediário, e na sua trilha era acompanhado de perto por Albeniz. À medida que o páreo se desenrolava, a cada espaço que surgia, Antonio Ricardo metia Balarico, procurando sempre brechas que permitissem um bom posicionamento na entrada da reta final. E a cada movimento de Balarico, Albeniz o acompanhava de perto. De repente, na segunda metade da reta oposta, Balarico se perdeu quando suas patas anteriores alcançaram um competidor que lhe vinha logo à frente. Balarico perdeu o equilíbrio, e caiu. Albeniz que vinha a seguir, tropeçou em Balarico e também foi ao chão. Páreo cheio, em um grave acidente, Balarico, Antonio Ricardo e Albeniz com Antonio Bolino, todos estirados na pista. O atendimento foi rápido, e milagrosamente os cavalos nada tiveram de grave, mas os dois jóqueis, queixando-se de muitas dores, foram levados de ambulância para o hospital conveniado. Visitas proibidas até a manhã seguinte. Por volta das nove horas da noite eu fui ao hospital, disse que era um médico do Rio de Janeiro, e tinha ido para ver os dois jóqueis, que eram radicados na Gávea. No quarto, com luz de penumbra, estavam duas camas separadas por um abajur, e conversei por meia hora com os dois jóqueis. Ricardo queixava-se de muitas dores pelo corpo todo, tudo doía, e o Bolino havia sido atendido em função, senão me falhe a memória, de duas costelas quebradas. No dia seguinte, os dois jóqueis foram liberados para voltar ao Rio. Os dois se davam muito bem, e após o almoço entraram no avião. Com cerca de 15 minutos de vôo, o avião teve que enfrentar uma terrível tempestade, pulava para cima, para baixo e para os lados, bagagens e pertences de mão caiam das prateleiras superiores e rolavam pelo corredor, alguns passageiros choravam e gritavam, um horror. De repente o Comandante resolveu voltar para São Paulo, e informou que o avião pousaria na pista e lá aguardaria a informação da melhoria do tempo, para poder fazer a viagem. Pouco tempo depois, talvez uns 10 minutos, o comandante avisou que todos deveriam atar os cintos, por precaução, mas as condições haviam melhorado. E enquanto o avião corria pela pista para alçar vôo, o Antonio Ricardo disse ao Bolino, “segura bem porque é agora, ontem foi só pra machucar, hoje é que é pra matar”. Mas a viagem transcorreu tranqüila, as dores do Ricardo logo passaram, e o Bolino só teve que aguardar o tempo necessário para a consolidação das duas fraturas nas costelas.
B – Luiz Rigoni, o melhor jóquei brasileiro de todos os tempos, foi do Tarumã para a Gávea como cavalariço. Era normal naquela época, em que não havia capacetes, coletes protetores nem mantas acolchoadas, muitos cavalariços serem os próprios galopadores dos animais aos seus cuidados. No geral, não havia como hoje redeadores, isto é, jóqueis sem matrícula para correr nos páreos, eram apenas coadjuvantes nos exercícios diários dos corredores. Rigoni logo se destacou, obteve a matrícula de jóquei para montar nos páreos dos programas, e daí por diante venceu as estatísticas seguidamente por muitos e muitos anos. Houve época que eram tantas as montarias que semanalmente lhe ofereciam que, mesmo após as escolhas dos que lhe interessavam, como ele era muito requisitado, não tinha tempo para galopar todos os cavalos que iria montar no fim de semana. Foi obrigado pelas circunstancias a contratar dois jóqueis conterrâneos, Adão Ribas e Olívio Macedo, que ganhavam para galopar diariamente animais que iriam ser montados pelo Rigoni. Adão Ribas também teve seus momentos de glória, e assim como Olívio Macedo, que montava muito leve, venceu muitos páreos na Gávea. Houve época em que Adão andava com um papagaio, ou periquito, não me lembro bem. Montava no cavalo que ia galopar com o seu papagaio ou periquito no ombro, e ao entrar na pista, deixava a ave empoleirada na cerca, e o pegava na volta.
