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Meditações sobre evolução pedigrística(Milton Lodi)

Meditações sobre evolução pedigrística (Milton Lodi)

O hábito de ir aos sábados de manhã ver os animais nas cocheiras, com tempo suficiente para uma boa conversa sobre os últimos acontecimentos, e a ida semanal as corridas da Gávea, com um grupo maior, permite que uns instruam os outros com os seus estudos e considerações sobre o turfe de um modo geral. Com as corridas alimentando as conversas, frequentar o Hipódromo da Gávea é mais do que um prazer, é uma fonte de novos conhecimentos. De um modo geral, a ideia predominante era no sentido de que o turfe internacional tinha como base a pioneira criação inglesa de cavalos de corrida, seguida pelos franceses, e em padrão bem menor pelos italianos e pelos alemães. Quanto aos Estados Unidos, que praticam um turfe circense, não eram consideradas de boa ou mesmo de regular qualidade, e que vieram a crescer com maciças importações de animais ingleses, principalmente da criação Aga Khan, e em menor quantidade de animais franceses de procedência Boussac. De quando em quando surgiam corredores norte-americanos de grande destaque, mas eram considerados pelos europeus e pelo resto do mundo como simples acidentes naturais. Essa crença baseava-se, e ainda se baseia, no tripé que sustenta o turfe norte-americano, constituído por muito dinheiro + drogas + publicidade. Isso não deixa de ser verdade, mas aqueles que estudam os pedigrees dos bons ganhadores de provas nobres pelo mundo surpreenderam-se, ao se depararem com animais norte-americanos fazendo parte dos pedigrees de muitos notáveis nomes de expoentes mundiais, isso antes do século XX.

A seguir, considerações do criador e proprietário do Stud Correas.

Eu sempre tive para mim que o sucesso dos cavalos norte-americanos (Estados Unidos e Canadá que fazem um turfe conjunto) era decorrência direta do poderio econômico deles a partir da segunda guerra mundial em cujo encerramento a Europa estava em situação financeira deplorável e os americanos eram os “reis do mundo”.

Imaginava que, nestas circunstancias, os americanos teriam, então, comprado o que de melhor a Europa produzira e que, a partir desse fato, eles teriam começado o seu domínio quase absoluto.

Olhando, porém, com mais cuidado é fácil perceber que a criação norte-americana já era muito importante bastante antes da segunda guerra mundial.

Vivíamos à época no turfe brasileiro admirando a qualidade espetacular dos cavalos argentinos – na verdade dos melhores do mundo de então – e reverenciando – com toda justiça, aliás, as criações Tesio, Boussac e Aga Kahn.

Eram os ícones do turfe brasileiro. Pouco olhávamos para o tufe americano a não ser quando se noticiava a compra milionária de algum corredor de escol, como por exemplo, a compra de Ribot pelos irmãos do norte.

Não dávamos valor (eu, pelo menos, não dava) às conquistas dos craques americanos que corriam nos Estados Unidos e que os jornais do cinema, que sempre antecediam os filmes, nos mostravam Whirlaway, War Admiral ou, o mais brilhante de todos, o monstro Citation.

O tempo correu, o Plano Marshall salvou a Europa, Mac Arthur reergueu o Japão e o mundo retomou o seu caminho, com novos conceitos e inacreditável evolução tecnológica, que a todo instante cria e destrói as novas invenções e maravilhas.

No turfe os cavalos cresceram e se fortaleceram, os reprodutores passaram a valer fortunas anteriormente impensáveis e as novas técnicas permitiram que cavalos que cobriam cerca de 40 éguas por ano pudessem passar a ter mais de 300 crias por ano!

É um novo mundo onde, entretanto, os pedigrees pedem análises cuidadosas, as coberturas devem seguir conceitos já estratificados na busca do cavalo mais corredor, de melhor condição física e, por consequência, de maior valor.

E assim viemos de Nearco, Native Dancer, Ribot, Secretariat, Northern Dancer, Sadler’s Wells, Mr Prospertor, Danehill e Galileo, para citar os que mais se destacaram nas pistas ou na parte produtiva (muitos deles em ambas).

E o mais interessante é observar como esses craques, sem dúvida dos mais destacados dos últimos 70 anos e que certamente fariam parte de qualquer lista que destacasse os de maior representatividade turfística, foram influenciados, na sua quase totalidade, de forma maior ou menor, pela criação norte americana.

Entendo que a melhor forma de fazer essa análise é pelas linhas baixas deles, suas linhas ventrais, tradicionalmente as que fazem a grande diferença, na significativa maioria das vezes.

nearcoNEARCO(foto ao lado), sem dúvida o mais influente roçador por linha alta, tinha mãe italiana, filha de égua irlandesa que, por sua vez era antecedida sempre por éguas norte americanas até o ano de 1769.

NATIVE DANCER (foto abaixo), excepcional corredor norte americano e fantástico reprodutor, pai de pais e pai de éguas mães da maior qualidade, tem seu sangue reproduzido, na maioria das vezes, através do seu neto paterno Mr Prospector ou através da descendência de sua filha Natalma (que cruzada com um filho de Nearco deu o “rei do pedaço” que é o Northen Dancer). A linha baixa de Native Dancer é essencialmente norte-americana até 1926, como continuação de linha inglesa que é a base de todas as linhas.native dancer

MR PROSPECTOR, neto paterno de Native Dancer (via Raise a Native), tem as suas 4 primeiras mães de nacionalidade norte americana, sendo que sua 5ª mãe, francesa, foi importada para os EEUU em 1921. É também o resultado do cruzamento de Native Dancer, na linha 2 com Nearco, na linha 4.

NORTHERN DANCER (foto abaixo), o fantástico raçador do terço final do século 20, neto de Nearco e Native Dancer, como dito acima e base de quase toda a criação moderna, tem toda sua linha baixa norte americana até 1894, quando sucedeu a uma linha inglesa.Northern Dancer 1983

SADLER’S WELLS, filho de Northern Dancer e o grande reprodutor de fundo dessa linha paterna, tem uma linha baixa norte americana até 1951, linha essa que sucedeu a uma linha inglesa.

DANEHILL, o neto de Northern Dancer (via Danzig) e que representa a mesma linha paterna com mais velocidade, embora produza corredores de qualquer distancia, é de linha baixa norte americana desde 1894 e, como sempre, sucessora de uma linha inglesa.

GALILEO, o fenômeno dos nossos tempos, é um filho de Sadler’s Wells em égua americana (Urban Sea) filha de égua inglesa que sucede uma linha baixa alemã desde 1896.

Independente desses cavalos, base da criação mundial de elite, acho que merecem ser examinadas as linhas baixas de Secretariat e Ribot, dois ícones maiores da capacidade de correr dos cavalos de raça inglesa.

SECRETARIAT, norte americano, descente de linha baixa americana desde 1930, sucedendo uma linha inglesa anterior.

RIBOT(foto abaixo), por sua vez, era filho de égua italiana que descendia de linha inglesa desde 1710.ribot1

Esses dados a meu ver impõe que se olhe a criação norte americana com o respeito que ela merece desde o começo do século 20.

É claro que há outras origens a pesquisar como, por exemplo, quem fez a grandeza da criação argentina na 1ª metade do século 20; em que momento se dá o crescimento da criação japonesa e quais as suas bases; qual a importância da criação neozelandesa no desenvolvimento da criação australiana, de tão grande sucesso mundial; etc. E para quem se surpreender com a referência à Nova Zelândia nesse campo não se esqueça que o grande, senão o maior, reprodutor da Austrália e na Nova Zelândia no fim do século passado foi o neozelandês Zabeel, um filho do irlandês Sir Tristam (por sua vez filho de Sir Ivor) em égua francesa cuja segunda mãe era Derna, a mãe de Detroit (ganhadora do GP Arco do Triunfo e, por sua vez mãe de Carnegie, também ganhador do mesmo Arco do Triunfo). Linhas femininas da Nova Zelândia são constantes nos pedigrees clássicos australianos, independente de Zabeel, grande corredor e longevo e espetacular roçador também muito presente nesses pedigrees.

Mas isto é coisa a pesquisar.

 

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