Falar de José Paulino Nogueira (na foto com Jocosa e Euvaldo Lodi), do Haras Bela Esperança, é falar de estudos, de observação, de conhecimentos, de técnicas. Ele era um homem rico, mas não dispunha de meios para enfrentar em quantidade as produções dos grandes haras da época. Era um homem educado, tímido, mas de temperamento complicado, colaborando para isso o tipo de vida que levava, normalmente sozinho em seu haras, só ocasionalmente recebendo uns poucos. Dormia a maior parte das manhãs, lia a Bíblia, almoçava, e passava os dias lendo as melhores revistas internacionais da época, à francesa Courses et Elevage e a inglesa The British RaceHorse. Ali encontrava o material que interessava para os seus estudos, os ganhadores das grandes provas européias. Em outras publicações, artigos, livros, complementavam o que seus conhecimentos necessitavam para construir no papel o pedigree que procurava, em seu plantel ou em eventuais compras. O primeiro passo era um pedigree equilibrado, constituído por machos ganhadores ou bem colocados nas principais provas inglesas e francesas, e seus eventuais entrelaçamentos com o sangue dos garanhões de que dispunha. Uma linha feminina clássica era fundamental. Dos machos exigia pelo menos uma ponta de classe, uma performance de destaque mostrando qualidade, isso no início da campanha, que tinha que ter sido curta, pois uma extensa implicaria em sucesso encarecedor e em desgastes físicos indetectáveis. É claro que uma campanha promissora com um bom pedigree supunha um físico de bom padrão, pois o verdadeiro sucesso está no tripé pedigree–performance–tipo físico.
Para comprar um garanhão, José Paulino Nogueira se utilizava dos préstimos profissionais de Walter Noble, um inglês que morava em um clube em Londres, que freqüentava normalmente as corridas, que tinha muita sensibilidade na análise das corridas. Como José Paulino fazia as suas encomendas com suas preferências pedigrísticas, restava ao inglês encontrar um potro promissor de bom tipo físico. Os garanhões vinham já adequados ao plantel, que era da ordem de 20 éguas. O número de éguas tinha que ser compatível com a área disponível para as pastagens, os animais em criação necessitam de espaço para andar, correr, se exercitar de acordo com suas vontades, não podem ser condicionados a áreas pequenas. Excesso de animais implica em espaços menores que os necessários.
A tarefa de Walter Noble não era fácil, pois tinha que complementar a linha traçada por José Paulino. Os sucessos de Tintoretto (Solario) e Seventh Wonder (Pharos) dizem tudo.
Além de bossa, de sensibilidade pessoal, José Paulino Nogueira conhecia a arte de criar bem, pois teve como mestre o Tesio sul–americano, o uruguaio Don Juan Amoroso, do Haras Casupá, o maior nome da época do turfe uruguaio. Evidentemente com variações, pois turfe não é matemática, não é ciência exata, basicamente garanhão bom, inglês, com performances ou tendências para o melhor desempenho na distância clássica de 2.000 a 2.400 metros, não um galopador, mas um dotado de aceleração, distância do Derby de Epsom, e as reprodutoras boas velocistas, de preferência uruguaias, argentinas ou brasileiras, sempre com uma linha baixa importante. O mesmo mestre uruguaio, assim como posteriormente o hindu Aly Khan, foram professores dos irmãos Nelson e Roberto Grimaldi Seabra.
Em suas idas ao Uruguai, José Paulino ficou amigo de Luciano Pomar. Anos mais tarde, José Paulino já vivera um curtíssimo casamento e já vivia sozinho no Bela Esperança, quando lhe surgiu Luciano, que tinha vindo em definitivo para o Brasil e pleiteava, orar como cabanero em um haras. Foi o homem de cavalos por muitos anos, e protagonista de um fato curioso e raro. Em uma manhã, foi ao Dr. Paulino e lhe disse que pela primeira vez uma ocorrência desagradável havia acontecido, ele não acordara de madrugada para fazer um parto, pois não escutara os insistentes chamados do vigia por ter dormido com o ouvido bom para baixo, no travesseiro, e o surdo naturalmente não o acordara. A égua havia dado cria sem problemas, mas o fato não iria mais se repetir, porque ele já tinha uma solução. Resolvera se casar, ficando a mulher como despertador, com incumbência de acordá–lo. Procurou no próprio haras, e entendeu que a filha do tratorista tinha as qualidades que queria. Com autorização do pai dela, todo fim de tarde lá ia o administrador e chefe Luciano Pomar namorar a moça, que era bem mais nova, na casa do tratorista. Foi um casamento de sucesso, ela era boa pessoa, tiveram uma filha, essa veio a se casar com um funcionário de uma multinacional, rapaz competente e que a cada dois anos mudava de domicílio, de cidade. Após um felicíssimo casamento, e a tranqüilidade de sempre que necessário ser acordado pela mulher, Luciano Pomar aposentou–se, e até o fim da vida viajava a cada dois anos, com a mulher, acompanhando as transferências da filha e do genro.
José Paulino tinha cismas, como por exemplo, só ia ver um potro que nascera, um dia depois do nascimento. Ia algumas vezes do haras em Campinas para o Jockey Club de São Paulo, em programas em que animais de sua criação correriam um grande prêmio. Quando de vitória, descia do carro, ia até a arquibancada social, abraçava os amigos e depois voltava ao carro, onde ouvira a vitória pelo rádio enquanto acompanhava de binóculo no estacionamento. Eventual derrota era uma volta imediata para o haras.
Essa escrita foi quebrada pelo meu pai, dono da Jocosa que ia correr o Grande Prêmio São Paulo. Na véspera o meu pai foi do Rio para dormir no Bela Esperança, e no domingo de manhã levou o Dr. Paulino com ele. Foram felizes, a vitória de Jocosa (na foto, eu montando nela) deu ao criador e ao proprietário, respectivamente o Dr, Paulino e o meu pai momento de grande euforia.
O Dr. Paulino era tio do criador José Bonifácio Coutinho Nogueira, que criava em um haras vizinho, o São Quirino. O Dr. Paulino não tinha filhos, era um homem solitário, e quando no fim da vida sentiu–se doente, negociou o haras com o sobrinho e foi morar em São Paulo, em um apartamento no bairro de Higienópolis, e teve a proteção financeira de José Bonifácio.
Atualmente, dois sobrinhos–netos de José Paulino são criadores de cavalos de corrida, Antonio Carlos Coutinho Nogueira (Haras São Quirino) e Sergio Luis Coutinho Nogueira (Haras Regina).
Na minha opinião, José Paulino Nogueira foi o melhor criador brasileiro em todos os tempos, o mais conhecedor da arte, o mais técnico, o número um.
