Iniciam-se no mês de janeiro os seis meses de participações, nos programas oficiais, dos produtos de 2 anos de idade. Esses potros e potrancas tiveram nos antecedentes meses, de julho a dezembro de 2016, meses de preparo, da doma até os primeiros trabalhos fortes visando às primeiras inscrições. Nesses em principio seis meses após completarem 2 anos hípicos, eram, em tempos idos, uma época de sofrimentos e dores, pois começavam pela perda da liberdade nos campos de criação para os boxes nos grupos de cocheiras, em um indesejável mas necessário confinamento.
Essa obrigatória troca da liberdade para a prisão naturalmente mexe com os nervos dos potros, embora de um modo geral eles aceitem com mansidão a novidade. Eles estranham mais a alimentação, pois, como a raça equina tem estômagos pequenos em liberdade nos pastos eles passam uma grande quantidade do tempo comendo, mantendo sempre os estômagos abastecidos. Já na prisão, o habitual sistema de duas rações diárias, pressupõe espaçados períodos de estômagos vazios, quer dizer, com fome. Para evitar isso, capim e alfafa misturados são colocados periodicamente. A boa distribuição da ração procura impedir eventuais períodos de pequenas fomes.
Um dos melhores treinadores a cuidar disso é Venâncio Nahid, que mantém sempre nos boxes quantidade suficiente de verde, e de boa qualidade inclusive com a participação de feno, ficando nesse detalhe resolvido o problema da pequenez dos estômagos, além naturalmente das rações de grãos, dadas diariamente em 3 ou 4 vezes. A doma antigamente era de grande barbaridade, muitas vezes à base de intimidações e castigos. Hoje em dia e já de algum tempo, há um sistema geral à base de calmo amansamento, com práticas tranquilas e instrutivas, assim ensinando os potros a entender e atender os desejos dos amansadores. A prática antiga era de tal ordem brutal que o mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira, do Haras Bela Esperança, a chamava de “época do massacre”. A pressa dos antigos amansadores, que em menos de dois meses já entregavam os potros como já prontos, já domados, tinham como motivo principal receber o preço do amansamento o mais cedo possível. Muitos haras vendem os seus potros ainda xucros, que normalmente vão logo para apressados amansadores nos hipódromos.
Um dos haras de maior sucesso no que diz respeito à doma era o Haras Santa Ana do Rio Grande, em Bagé, que ao completarem os potros por volta de 1 ano e meio, os mandavam para as cercanias do Hipódromo do Cristal, na verdade um centro de doma e iniciação com todos os requintes de um bom inicio, com amplos piquetes para movimentação após os trabalhos, que basicamente ocorriam em um enorme picadeiro fechado e coberto, e com um tempo de doma e amansamento nunca menor que 3 meses, e então dóceis, montados, obedientes, os potros então prestes há completar 2 anos hípicos, já mansos em partidor fixo que era diariamente usado para ser lá parado e atravessado a passo, em verdadeiro preparo para a vida profissional nos hipódromos. O Santa Ana contava com o homem que conheci no setor, de nome Ronildo Oliveira dos Santos, que após a noite presos em boxes e terminados os seus serviços, após devidamente refrescados, eram soltos nos amplos piquetes para relaxarem as musculaturas antes de voltarem às cocheiras. Esse sistema misto de liberdade e prisão era preparatório para a posterior fase de prisão nos hipódromos, com os animais presos nos boxes por volta de 22 horas por dia e somente umas 2 horas fora deles. A cumplicidade entre o cavalo e o homem que dele cuida é fundamental, o cavalo normalmente entende e obedece ao seu cavalariço. Na raia, por não saber falar, ele procura mostrar quando há um problema, mas isso é entendido como rebeldia e tratado com chicote. Quando há cavalos rebeldes para entrar no partidor, em principio não é manha nem rebeldia, é um aviso de algum problema, que o cavalo não informa porque ele não fala. Cumpre a nós entender.
