No próximo sábado será disputada a 108ª edição do Grande Prêmio Bento Gonçalves, a mais tradicional prova do turfe gaúcho, em 2.400 metros (AREIA). Ao contrário dos demais anos, quando a competição era marcada para o mês de novembro, mais precisamente no feriado do dia 15 (Proclamação da República), este ano será realizada no mês de outubro. E como em toda prova com tamanho prestígio e história, como não poderia deixar de ser, o Bento tem seus heróis que já escreveram o seu nome nesta importante competição. E um nome que está escrito em letras garrafais nas páginas da prova é Oraci Cardoso, 83 anos, 75 deles à serviço do turfe. Este ex-jóquei e ex-treinador é, nada mais nada menos, do que tetracampeão do páreo ápice gaúcho.
Coincidência ou não, na semana que antecede a prova, este senhor que dedicou grande parte da sua vida ao Esporte dos Reis, fez uma ilustre visita às dependências da Escola de Profissionais do Turfe. Ele contou ao site do JCB um pouco mais sobre a sua carreira, suas histórias e suas vitórias, dentro e fora da raia.
– Passei a disputar o Bento só quando passou para o Hipódromo do Cristal, já na década de 60. Ali disputei cinco e ganhei quatro. Até hoje sou o jóquei que mais venceu esta carreira. Tem outro que também conseguiu, mas ninguém mais do que eu – disse o ex-jóquei.
Oraci Cardoso conta que sua carreira começou na ainda na época do Hipódromo Moinhos de Vento, que era onde se realizava as carreiras do turfe no Rio Grande do Sul.
– Eu montava no Moinhos de Vento, era uma pista de 1.000 metros, que tinha uma reta de 200. Eram realizados páreos cheios, com 14, 15 cavalos. Às vezes entrava na reta em último, vinha de atropelada e ganhava o páreo (risos) – disse o ex-jóquei.
O tetracampeão do Bento, pai do também ex-jóquei Marcello Cardoso, bicampeão do Grande Prêmio Brasil, que hoje é coordenador da Escola de Profissionais do Turfe, revela que não teve muito trabalho para ensinar o então garoto franzino a montar e se tornar um craque na arte conduzir um PSI.
– O Marcello aprendeu rápido a ser jóquei, fui ser treinador lá na serra, onde hoje funciona o Haras Anderson. Ele começou a montar com 14 anos e passou um ano comigo lá em cima aprendendo, mas era um garoto que ouvia bem o que a gente dizia. Aprendeu muito bem – disse.
Confira a entrevista completa de Oraci Cardoso para o site do JCB:
COMEÇO DE CARREIRA
Comecei a montar no Rio Grande do Sul, em um local chamado Moinhos de Vento, nem era Cristal ainda. Desde oito anos eu montava cavalo, comecei com essa idade montando retas, Aliás, grande maioria dos jóqueis lá do Sul começam nas retas. Dali eu fui até os 18 anos montando na reta.Passei ao turfe depois, ainda no Hipódromo Moinhos de Vento e depois não parei mais.
HIPÓDROMO MOINHOS DE VENTO
Era uma pista de 1.000 metros no Moinho de Vento, corríamos páreos cheios, com 14, 15 cavalos. Às vezes chegávamos na reta final, 200 metros, em último e ganhava de atropelada (risos). Montei com Antônio Ricardo lá. Era muito bom jóquei, fantástico. Tive o privilégio de montar com ele lá e aqui no Rio de Janeiro. Com toda certeza foi um dos grandes jóqueis que encontrei por esse caminho do turfe.
PASSAGEM PARA O CRISTAL
Fiquei montando lá (Moinhos de Vento) até 1960, quando passou para Hipódromo do Cristal. Eu ainda não tinha vencido o Bento Gonçalves, lá a reta era grande e eu não estava acostumado. Ainda mais que tinham muitos jóqueis bons. Tanto que os jóqueis do Moinhos de Vento começaram a sumir, mas eu segui ganhando. A diferença era grande de um hipódromo para o outro. Um tinha uma reta de 200 metros, no Cristal era reta grande, de 600 metros.
CARREIRA NO RIO DE JANEIRO
Aos 33 anos vim para o Rio de janeiro passar uma temporada. Treinei um tempo para conhecer e acabei ficando. Aqui no Rio deu tudo tão certo que eu só não ganhei o GP Brasil, mas o restante, sim. O turfe de São Paulo era maior e o pessoal queria me levar para lá, mas sempre gostei daqui. Quem chega aqui no Rio para trabalhar não sai mais, qui é outra maneira de agir as pessoas, o carinho é tudo diferente. Fora que aqui montei com grandes craques como Rigoni, Bolino, Ricardo, Juvenal entre outros.
TREINADOR DO FILHO MARCELLO CARDOSO
O Marcello aprendeu rápido a ser jóquei, fui ser treinador lá na serra, onde hoje funciona o Haras Anderson. Ele começou a montar com 14 anos e passou um ano comigo lá aprendendo. A única coisa que demorou mesmo foi a primeira vitória dele. Foi uma dificuldade para ele ganhar. O Marcello me chamava sempre e dizia: “Hoje eu vou ganhar”. Mas demorou muito para esta vitória sair. O D.Guignoni dava muita montaria para ele e sempre falava também: “Hoje ganha!” Eu nem saía de casa mais (risos). Neste período, eu já estava cansado de subir e descer a serra, a família também já estava reclamando, já estava como treinador há muito tempo. Mas acabei comprando uma égua em um leilão e a preparei para o Marcello montar. Coloquei ela nos 1.000 metros na grama. Disse a ele: “Marcello, procure largar bem que você ganha”. Ele não largou muito bem, mas se recuperou e conseguiu a vitória. O interessante foi que aquela égua só correu uma única vez, estourou logo depois. Posso dizer que a primeira vitória do grande jóquei Marcello Cardoso foi eu que dei.
MÉTODOS COMO TREINADOR
Eu sempre valorizei o descanso do animal, não adianta colocar o bicho para correr essa quantidade de vezes seguidas que ele não vai render, principalmente os que ficam alojados no CT, pois participam de duas corridas. Para ir e voltar, sem contar com a própria. Eu sempre coloquei os meus cavalos para correr dois, três meses depois. Colocava e ganhava de novo. Meus métodos sempre foi em benefício ao animal. Hoje podemos dizer que quem tem um CT começa na frente. Tudo de melhor para o cavalo está no centro de treinamento, é vantagem para quem tem cavalos alojados lá.
RECADO AOS APRENDIZES
O que eles têm de entender é que não adianta ter talento, é preciso ter muita persistência e treinar bastante. Lembro uma vez que eu estava no primeiro páreo que o Juvenal participou. Eu estava bem atrás dele. Ele estava na posição certa, bem certinho conduzindo o cavalo. Ele não ganhou o páreo, mas a primeira coisa que falei para as pessoas quando tive oportunidade é que aquele menino ia longe. Ele tinha talento, pois sabia a posição certa e outras coisas. Mas era o primeiro a chegar na raia para trabalhar. Todos os grandes jóqueis que eu conheci faziam isso. Hoje o cara é até bom, mas quer chegar às 7h para trabalhar, não dá. Então o que esses meninos precisam saber é que tem de ter persistência e força de vontade.
Por Emerson Silva & Sylvio Rondinelli/ Fotos: Sylvio Rondinelli
