Quem acompanha as corridas durante os finais de semana no Hipódromo da Gávea e se depara com a pista, tanto a de grama quanto a de areia, sempre em perfeito estado, apta a grandes disputas e, principalmente, segura, no que se refere a integridade física de pilotos e animais, não sabe a complexidade que é um trabalho como este. Além de muitos funcionários envolvidos em atividades diárias que envolvem até análise da previsão do tempo nas mais variadas fontes, precisa-se de algo muito maior: amor. E uma dessas pessoas que dedica não só o seu tempo e a sua experiência na manutenção das pistas, mas também injeta uma grande quantidade deste sentimento que faz a roda da vida girar é Raimundo Nonato Barros, 67 anos, 34 deles dedicados ao Jockey Club Brasileiro, um dos responsáveis pela manutenção das pistas.
Este personagem chegou ao Jockey Club Brasileiro já com experiência em pistas de grama. Mas, mal sabia ele que ao pisar pela primeira vez no mais do que consagrado gramado “gaveano”, palavras proferidas por um antigo encarregado soaram como uma espécie de profecia:
– Assim que eu cheguei, pisei na pista de grama e um antigo encarregado me falou: “Poxa, você pisou na pista de grama e parece que ela gostou de você”. Eu respondi que também tinha gostado dela. Foi aí que ele me disse: “Então você vai ficar aqui mesmo, na manutenção de pista”. A partir daí, começamos a nos aperfeiçoar cada vez mais, procurando sempre o melhor para a pista no dia a dia.
Confira a entrevista completa de Raimundo Nonato:
CHEGADA AO JOCKEY CLUB BRASILEIRO
Minha chegada ao Jockey Club Brasileiro foi trabalhando na pista de grama. Eu sempre tive uma concentração muito
grande para este trabalho, já tinha experiência em outros lugares e gostava muito do que eu fazia. Mas não sabia que eu vinha para cá fazer exatamente isso. Eu tinha um chefe chamado Eduardo. Assim que eu cheguei, pisei na pista de grama e um antigo encarregado me falou: “Poxa, você pisou na pista de grama e parece que ela gostou de você”. Eu respondi que também tinha gostado dela. Foi aí que ele me disse: “Então você vai ficar aqui mesmo, na manutenção de pista”. A partir daí, começamos a nos aperfeiçoar cada vez mais, procurando sempre a o melhor no dia a dia.
FUNÇÃO NO DIA A DIA
Cuido das falhas, coloco areia em outros locais, observo o nivelamento da pista, a umidade dela, a qualidade dela. O penetrômetro é batido diariamente. Tudo para termos uma noção de como será o final de semana. Por exemplo, uma semana sem chuva, a gente usa a rega e vamos controlando a quantidade de água que pode entrar na pista. São de 3 a 4 milímetros por dia. Isso é monitorado diariamente. Às vezes não conseguimos colocar a pista de forma ideal em relação à umidade dela, pois ocorre uma série de fatores para esse caso, como chuva forte, entre outras coisas. Por isso ficamos sempre ligados no tempo para sabermos se vai chover, se não vai. Previsão do tempo estamos sempre ligados, em várias fontes. Se chover, a gente tem de aliviar a mão, coloca menos água. É um trabalho difícil, mas em conjunto e o índice de erro quase nulo, pois não deixamos nada passar.
AUMENTO DA QUALIDADE DAS PISTAS
Tivemos uma grande mudança na pista de grama entre outubro de 2008 e março de 2009. Eu fiz parte dos dois períodos. Tecnicamente a outra não existia, não tinha qualidade, estava condenada por todos já. Essa já é muito superior em todos os sentidos. A outra não tinha constância, o trabalho era inseguro para quem corria. Outro fator que fez com que esta pista ganhasse em qualidade foi o escoamento da água. Antes era para o lado externo e agora é para o lado interno. Esta pista é fantástica, mas requer muitos cuidados para que ela fique desta forma. Se as pessoas acham que choveu em um dia e no outro a pista está apta a receber corridas e isso é uma coisa que ocorre naturalmente estão muito enganadas. Estamos 24 horas de olho em tudo dela, principalmente o dreno. Ou seja, o dreno tem de ser monitorado a todo momento, inclusive nos dias sem chuvas. É uma luta diária, pois tudo pode acontecer.
TRABALHO NOS DIAS DE CORRIDA
Temos especificamente funcionários que trabalham em dias de corridas. São melhores treinados, como se fosse um plantão. Essa pessoa vem, faz todo o processo de rega de pistas, tratores, revisão de todos os pontos. Isso tudo começa bem cedo para que na hora das corridas esteja tudo no mais perfeito estado. Passamos as condições da pista para o coordenador Marcos Aurélio. A partir daí está liberado para correr.
APRENDIZADO TODOS OS DIAS
Comecei praticamente do zero aqui dentro, não sabia nada mesmo. Eu tinha experiência, mas depois de tudo que tinha
aqui, aquilo me valeu muito pouco. Isso aqui é uma escola, é um aprendizado diário. Até hoje você aprende com funcionários, colegas, encarregados. Pegamos, certa vez, uma lagarta que estava fulminante na grama. E o bicho só atacava à noite. Quando chegávamos de manhã, a planta estava toda comida, a raíz toda quebrada. Descobrimos que por volta das 20 e 21, ela vinha para a pista. Após essa descoberta, conseguimos eliminar a praga. Aprendemos como o bicho se comportava para poder acabar com ele. Isso é um aprendizado.
GP QUE MAIS MARCOU A CARREIRA
Todos os GPs são ótimos, participei de muitos deles. Só de GP Brasil, tenho 34 no meu currículo. Mas o que me marcou mesmo foi o Longines Grande Prêmio Latinoamericano. Tivemos aqui diversos proprietários, jóqueis, treinadores de outros países e todos ficaram encantados com a pista, chegavam a se deitar nela. Chamavam de tapete. Ouvimos e isso nos marcou bastante. Perguntavam como era feito a manutenção para ficar daquela maneira. Graças a Deus ficamos felizes.
EQUIPE DE TRABALHO
É uma satisfação muito grande estar contribuindo, cuidar de um patrimônio do Brasil e do mundo. Trabalhar aqui é se sentir importante. A nossa equipe nos faz assim também. Posso citar o Paulo Nania, que é um cara nota 10. Essa mudança da pista veio muito dele também. É uma pessoa que gosta do que faz e eu aprendo muito com ele. Se dedica muito. Somos muito unidos e fizemos um conjunto maravilhoso. Tenho certeza de que o Jockey deve muito ao conhecimento desse cara. Ele criou uma equipe muito boa. Conquistamos a confiança dele, ele não faz nada sem consultar a gente. Sempre com naturalidade, ouve a nossa opinião e o sucesso é esse, todos trabalham da melhor forma. Trabalhar aqui no Jockey Club Brasileiro é assim.
Por Emerson Silva e Sylvio Rondinelli Fotos: Sylvio Rondinelli
