A chegada de uma carreira, sendo ela importante ou não, sempre gera adrenalina para o público turfista que acompanha as corridas em seu dia a dia. E não é difícil de acontecer chegadas em que as posições dos animais não são possíveis serem definidas a olho nu. Muitos são os exemplos de situações deste tipo, como Talloires e El Sembrador, no GP Brasil de 1995, ou Super Power e Be Fair no Grande Prêmio Cruzeiro do Sul de 2000, só para citar. Quando há uma questão como esta, os “donos da verdade” entram em ação dentro do fotochart. E um deles, Sebastião Ramiro dos Santos Filho, 59 anos, mais de três décadas no Jockey Club Brasileiro de luta e muita, muita responsabilidade é mais um a contar a sua rica história.
Este grande personagem do Jockey começou a sua história na instituição em uma empresa terceirizada, ainda em 1980, quando venceu uma disputa contra 14 adversários para uma vaga de fotógrafo. O bom desempenho o fez ingressar quatro anos depois ao quadro de funcionário do JCB, de onde não saiu mais.
– Quando fui contratado, cheguei para trabalhar no fotochart. Eu trabalhava com outras duas pessoas. Um veio a falecer e o outro acabou se aposentando, assumi a função naquele momento sozinho. Trabalhei no fotochart até 2010. Foi quando passei para árbitro de chegada, o que não deixou de ser uma função de grande responsabilidade – disse.
Assim como um jóquei que, além de ter o sonho de brilhar no turfe para ajudar a família, tem paixão pela adrenalina gerada pela velocidade dos animais, Tião, como é carinhosamente chamado por todos, gosta desta responsabilidade e do frio na barriga gerado pelo seu trabalho. Com a função de observar as colocações de chegada, sempre com a ajuda do fotochart, Tião sabe como poucos trabalhar no limite e sem espaço para erros:
– Aqui não podemos errar, a nossa palavra aqui é a primeira. Passamos o resultado para a Comissão de Corridas, que analisa e dá o ok. A partir daí podemos colocar no placar, passamos para o CPD. A última palavra é da Comissão de Corridas, mas a primeira é a nossa.
Confira aqui a entrevista completa com Tião, árbitro de chegada do JCB:
CHEGADA NO JOCKEY
Minha história começou em 1980, quando fui convidado para disputar uma vaga de fotógrafo para o Grande Prêmio Brasil
daquele ano. Eram 14 para três vagas. Essa pessoa me chamou, gostou do meu trabalho e me mantive nesta função até 1984. Este ano foi quando eu passei para o quadro de funcionários do Jockey Club Brasileiro, até então eu era terceirizado. Foi exatamente no dia 8 de outubro de 84 que ingressei no quadro de funcionários aqui e não sai mais.
TRABALHO NO FOTOCHART
Cheguei aqui para trabalhar no fotochart. Eu trabalhava com mais dois rapazes. Um faleceu e o outro se aposentou, tive de assumir e ficar nesta função. Era uma grande responsabilidade, mas acho que cumpri bem. Lembro que 1995 tivemos o Grande Prêmio Brasil, aquele de 1 milhão de dólares. Essa prova eu tive uma grande responsabilidade de fazer a foto, entregar na Comissão de Corridas, para eles liberarem e colocar no placar. Foi uma chegada muito difícil Me orgulho muito, pois foi muita responsabilidade. Lembro de muita gente me elogiando, saí com aquela sensação de dever cumprido.
Em 2010, o photochart virou digital. A Mayra (Frederico), nossa gerente de turfe, me chamou e disse: “Você não vai mais trabalhar no fotochart, você agora é árbitro de chegada. Meu deus, saí de uma grande responsabilidade e fui fazer uma outra função tão importante quanto. Fiquei feliz com a mudança, pois sabia que também era de grande responsabilidade. Hoje eu sou o responsável por ver o resultado, passo para a comissão de corrida, eles me dão o “ok”. Passo para o Jorge, que coloca no placar. Eu passo o resultado para o CPD e depois para a balança na repesagem.
MOMENTO INESQUECÍVEL COMO ÁRBITRO
O páreo do Longines Grande Prêmio Latinoamericano (GI) neste ano, foi muito importante. Me senti novamente naquele tempo, quando eu ainda era do fotochart. Relembrei grandes momentos, pois foi uma grande competição e uma grande responsabilidade. Foi um sentimento parecido com o que ocorreu em 1995. É repetitivo, mas a função é muito importante, muito grande, não podemos errar, não tem perdão. E quando acaba, o sentimento de alívio é tremendo, ficamos felizes.
PAIXÃO PELOS COLEGAS DE TRABALHO
Eu fui vice-presidente da Associação dos Funcionários do Jockey. Foi uma época boa, pois eu pude ajudar muita gente.
Gosto de todos os meus colegas de trabalho e hoje em dia ainda ajudo alguns. São batalhadores e merecem ser ajudados. Isso aqui é minha família, passo mais tempo aqui do que na minha própria casa. Então é como família.
AMIZADE COM COMPANHEIRO DE FOTOCHART
O Jorge é um irmão, cara, mas um irmão mais novo, pois ele é muito mimado (risos). Nós brigamos e logo depois nos entendemos, pois irmãos são assim. Sempre na procura de desempenhar o melhor trabalho possível. Lá fora somos amigos demais também. Quando um está mal, o outro fica triste também. O trabalho sempre flui melhor quando estamos com alguém que gostamos. E o Jorge é um desses caras. Tenho sorte de trabalhar com ele.
SENTIMENTO PELO JOCKEY CLUB BRASILEIRO
O Jockey Club Brasileiro para mim é uma mãe, eu adoro isso tudo aqui. No dia em que eu me aposentar, não sei se conseguirei ficar longe disso tudo aqui. Sou muito feliz, é uma casa pra mim. Quando eu tenho alguns dias de folga eu passo dois dias e já quero voltar. Sempre me acostumei a vir em dias que eu não estava trabalhando. Na época do fotochart, eu chegava às 5 da manhã para consertar a máquina, para acompanhar os matinais. Não sai de mim tudo isso aqui. Sou parte da história do Jockey Club, isso não tem preço. Ficarei velhinho aqui dentro.
Por Emerson Silva e Sylvio Rondinelli Fotos: Sylvio Rondinelli

