Rosely Rhomberg, a primeira mulher a se tornar aprendiz no Hipódromo da Gávea » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Rosely Rhomberg, a primeira mulher a se tornar aprendiz no Hipódromo da Gávea

ROSELI (28)A luta das mulheres pela igualdade de gêneros transcende gerações e gerações. Dentro do universo do turfe, aqui no Brasil, o nome de Rosely Rhomberg aparece como uma grande líder nesta luta em um esporte predominantemente de homens. A ex-aprendiz foi a primeira mulher a ingressar na Escola de Profissionais do Turfe, ainda na década de 1970. Um feito e tanto em um momento em que este pedido de igualdade de direitos estava tão intenso no Brasil e no mundo.

Em visita ao Jockey Club Brasileiro, esta mulher, hoje designer de interiores, contou ao site do JCB um pouco de sua história. Os preconceitos que sofreu, as pessoas que ajudaram em sua caminhada, os “pegas” nas raias com gênios do Esporte dos Reis e o tão sonhado troféu que carrega consigo até hoje: a carteirinha da EPT.

Confira este bate-papo: 

ROSELI (34)JCB: Como foi o início de sua história com cavalos? 

Rosely: Desde pequena eu sou louca por cavalos, meu pai me colocou em cima de um quando eu tinha 1 ano e só saí quando eu dormi nele. Minha mãe gostava de ir ao hipódromo e eu ia com ela para, isso já mais tarde. Não era frequente, mas cheguei a ir algumas vezes. Naquela época também, na região do ABC (São Paulo), onde eu morava, tinha muito mato. Tinha uns cavalos lá que era de um português e eu roubava esses cavalos para andar, levava até para casa, minha mãe ficava doida (risos).

JCB: Quando foi as montarias passaram a ficar mais sérias?

Rosely: Quando a nossa situação começou a melhorar um pouco. As minhas irmãs se tornaram comissárias de bordo, umaROSELI (23) delas começou a pagar uma escola, na hípica. Fiquei o ano de 1973 montando nessa escolinha em Santo Amaro. O meu professor lá já tinha sido jóquei, e vinha muito cavalo de corrida para o salto. Como eu era louca para montar e fazer o bicho correr, mas só tinha aula duas vezes por semana, o meu professor me chamou certa vez e pediu para montar os cavalos dos sócios, pois tinham muitos. Mas ele dizia que eu fazia o cavalo correr muito para saltar, eu cheguei a saltar 2,10 metros. Eu tinha 15 anos quando fiz isso, todos me achavam uma louca.

JCB: E o Jockey Club Brasileiro na sua vida?

Rosely: Em 1976 nós saímos de São Paulo para morar no Rio. Nós fomos morar na Ilha do Governador. Lá tinha uma padaria bem grande. Minha mãe sempre ia lá para comprar algumas coisas. Neste dia tinham dois homens conversando, um magrinho e um mais alto. Os dois falando sobre cavalos. Minha mãe escutou e foi lá perguntar se eles trabalhavam aqui no Jockey. Disse que tinha uma filha louca por cavalos e que queria muito trabalhar com isso. Um era o Antônio Acioly, que já faleceu, e o Pedro Fontoura. Muita coincidência, pois eles trabalhavam aqui e quiseram me ajudar. Ela pegou o endereço da cocheira dos dois e no outro dia eu já estava aqui na porta do Jockey.

JCB: Conte como foi o seu trabalho aqui antes de conseguir se tornar uma aprendiz?

ROSELI (20)Rosely: Cheguei para trabalhar com o Carlos Ribeiro, com o(Antônio) Acioly e o Washington Maluco…Eu cheguei a domar cavalos aqui no Jockey, peguei cavalos chucros para domar. Fazia de tudo, limpar cocheira, andar com os bichos, escovar entre outras coisas. Somente quando cheguei aqui dentro que vi que eu não poderia entrar na escolinha. Eu, naquele momento, disse que não iria desistir. Fui pega de surpresa, pois não imaginava que iria ter que enfrentar isso. Para mim, bastava ser boa para entrar.

JCB: Como foi o caminho que você percorreu até conquistar o seu sonho?

Rosely: Comecei a caminhar com eles, mas eu queria começar a correr com os cavalos. Ouvi muita coisa neste período. Tive de pegar uma autorização no Juizado de Menores para galopar, pois eu era menor de idade. Tinha que ter autorização para treinar. Tudo que eu ia fazer, tinha de pegar autorização, isso era um saco (risos). Um belo dia, eu tinha que levar um cavalo do relógio até o “Bombril”. E aí, no peito e na raça, entrei na raia e fiz o bicho correr. Que sensação maravilhosa. Foi aí que eu comecei a trabalhar os cavalos e aí não teve mais jeito de me segurar, viram que eu dava para a coisa e acabei sendo admitida na escolinha.

JCB: Mesmo na escolinha, você ainda encontrou muitas dificuldades. Quais foram? 

Rosely: Encontrei muitas dificuldades, a minha luta ainda não havia terminado. Eu finalmente havia conseguido entrar naROSELI (18) escolinha, mas não poderia ficar alojada, já começou por aí. Quem me ajudou muito na época foi o Haras Fazenda Mondesir, eles deixavam eu trabalhar os potros, pois eu tinha uma boa mão de rédea…Montei duas gerações para eles. Agradeço até hoje essa ajuda. Mesmo assim, me deram seis meses para conseguir 50 vitórias e me tornar joqueta. Muita coisa, principalmente para quem não tinha muita oportunidade tipo eu.

JCB: Qual a sua maior vitória? 

Rosely: A minha vitória, sem sombra de dúvidas, foi obter a minha carteirinha e ingressar na escola de aprendiz. Eu conquistei o direito de todas as brasileiras de ingressar na escolinha para montar. Essa foi a minha vitória. Hoje estão todas elas aí, treinando para um dia se tornar uma joqueta. Além disso, ter a oportunidade de montar ao lado de Gabriel Menezes, Goncinha (Gonçalino Feijó de Almeida), Jeferson Bafica, os irmãos Alves lá do sul, isso não tem preço. Me encaixotavam, aprontaram muita coisa comigo, mas sempre os admirei. 

ROSELI (33)JCB: O que você pode falar para estas meninas que estão hoje na EPT? 

Rosely: Continuem em busca do sonho. Eu lutei muito para abrir um espaço para as mulheres no turfe brasileiro por causa desse sonho. Sempre amei os cavalos de corrida. Tem que gostar e amar o que faz para evoluir. Que elas não deixem jamais nada atrapalhar este caminho que tende a ser menos difícil do que foi para mim.ROSELI (25)

JCB: Você já desistiu to turfe? 

O turfe é minha vida, é minha paixão, ainda não pendurei o meu chicote. Eu estava em casa um belo dia mexendo em algumas coisas e encontrei muitas lembranças da minha época de Jockey Club Brasileiro. Aquilo foi um aviso, pois foi a única coisa que iniciei e não terminei na minha vida. Então, não importa como você começa, mas como você termina e eu ainda não terminei. Estou estudando algumas propostas para páreo de amador. Estou pensando que ainda posso fazer parte disso tudo. Vocês ainda podem esperar (risos). 

Por Emerson Silva e Sylvio Rondinelli Fotos: Arquivo pessoal e Sylvio Rondinelli

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