VOLTA FECHADA – ESCORIAL » Jockey Club Brasileiro - Turfe

VOLTA FECHADA – ESCORIAL

bucarest     VOLTA FECHADA

                   ESCORIAL

 

 

A PEQUENA NOTÁVEL

 

Domingo passado, vimos as disputas dos GGPP Estado do Rio de Janeiro (G1) e  Henrique Possollo  (G1).  E isso me fez viajar no tempo, até 1958, quando uma potranca venceu as duas provas (o Estado do Rio de Janeiro era o Outono) com sete dias de diferença. Por que esta mágica, para mim, viagem? É o que vem a seguir, para quem tiver a paciência de ler.

            Bucarest (Birikil em Bumble Bee, por Bahram), criação do Haras Guanabara e propriedade do Stud Seabra, foi uma égua absolutamente brilhante e de uma geração feminina absolutamente incomparável disse (a mesma de Dulce, Garça e Turqueza, entre outras). Sua campanha foi admirável e algumas de suas vitórias memoráveis.

            Leviana (sempre correu com menos de 400 quilos), a neta do tríplice-coroado inglês Bahram (de Son Altesse Aga Khan), foi uma égua de grande versatilidade. Vencendo ou perdendo, sua alta classe a fez mostrar suas qualidades de corredora de exceção em uma gama de distâncias particularmente rica.

            Grande sprinter? Certamente o foi, não bastasse suas vitórias, entre outras, nas então provas equivalentes aos páreos internacionais de velocidade no Brasil (o quilômetro do Grande Prêmio Major Suckow, aqui no Rio, e os 1 mil e 200 metros da Prova República Argentina, no domingo do Grande Prêmio São Paulo, em Cidade Jardim.

Grande flyer? Mais do que certamente. Brilhantemente, foi bicampeã da milha do Grande Prêmio Onze de Julho, além de, acima de tudo, ter vencido, em feito notabilíssimo, em um espaço de uma semana, tanto as nossas One Thousand Guineas, Grande Prêmio Henrique Possollo, quanto as nossas Two Thousand Guineas, então Grande Prêmio Outono, um nome que era poesia só.

Igualmente, nos dois quilômetros, ela mostrou ser uma craque especial (ou um craque, tout simplement). Será que, para quem viu, não foi assim que ela se portou, após uma má e desclassificante largada, nos dois quilômetros do Grande Prêmio Prefeitura Municipal, então em 2 mil metros e na pista de grama, rigorosamente o nosso Prix Ganay, quando em grande aceleração por pouco não derrotou um craque como Vândalo?

Pois é. A música da nossa memória tem Bucarest como seu mozartiano allegro furioso. Por que? Fácil de responder. Apesar de ter servido de ponto de partida para notáveis conquistas da tríplice-coroa, tanto como Outono e Estado do Rio de Janeiro, entre outros, a saber as de Quiproquó, Escorial e African Boy e Itajara, por exemplo, as Two Thousand Guineas cariocas de minha vida são as que a pequena notável fantásticamente venceu.

Tudo me faz colocar o Outono de 1958 (curiosamente, 20 anos antes, de uma companheira sua de élévage, Emerald Hill, construir o Henrique Possollo de meu coração), entre os sommets da arte das courses que tive a oportunidade e o privilégio de ver.      

           Nele, pôde-se ter uma aula de estratégia e tática raras vezes exercida entre e presenciada por nós, em todos estes muitos anos de turfe. Verdadeiros mestres, como discípulos de Maquiavel, os irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra mostraram, mais uma vez, então, ser criadores e proprietários de absoluta exceção.

Todas as atenções teóricas estavam voltadas para o outro representante das cores preto e verde em listras verticais no grande clássico, Red Cap (Royal Forest em Red Biddy, por Tetratema). Este potro havia sido a grande esperança aos dois anos quando venceu em Cidade Jardim os 1 mil e 500 metros do Grande Prêmio Juliano Martins, o Grande Criterium paulista, agora Grande Prêmio Farwell (G1) Em seguida, com problemas, ficou longo tempo afastado das pistas só reaparecendo, em Cidade Jardim, uma semana antes do Outono para vencer com toda a autoridade. Além do mais, contava ele, aparentemente, com a preferência do jóquei oficial das cores preto e verde em listras verticais, Francisco Irigoyen.

Tudo começou aí. Bucarest, vindo de vencer no domingo anterior o  citado Henrique Possollo, tinha Ubirajara Cunha (belo jóquei, o segundo de quase todas as grandes coudelarias), como piloto e aparecia como a pouliche de jeu de seu companheiro. Muitas críticas, inclusive, foram feitas aos irmãos Seabra por colocá-la no sacrifício e no triste papel de coadjuvante do neto de Tetratema, sobretudo por sua vitória anterior (também uma semana antes de seus One Thousand Guineas),  que se seguia à sua conquista do quilômetro do Grande Prêmio Cordeiro da Graça.  A armadilha foi admiravelmente armada e todos caíram nela.

Tanto Roberto quanto Nelson sabiam que Red Cap, muito possivelmente, já não era o mesmo e nem viria a ser o que dele se esperava. Ao contrário, de Bucarest esperavam o melhor. A possibilidade de vencer mais uma vez o Outono era dela e não do filho de Royal Forest. E assim deveria ser.E assim, magistralmente o foi. Como essas coisas me deixam saudoso e nostálgico! Não há mais coisas assim!

Um grande público enchia todas as tribunas de nosso hipódromo. E, na largada, o primeiro grande espanto, a primeira manifestação de surpresa, um Oooooh! coletivo, dos turfistas. Quem foi para a ponta? Bucarest? Não! Red Cap foi resolutamente mandado para construir o perfil da carreira, instigado por Francisco Irigoyen. Bucarest, lindamente recolhida por Ubirajara Cunha, era mantida no meio do pelotão, de altíssimo nível por sinal, em torno do sétimo lugar.

E os adversários? O que fazer? Deixar Red Cap fazer-se na ponta e depois não ser mais alcançado (e, olha, que ele o foi somente nos utltmos 200 metros e saindo do placar só nos metros finais – foi sétimo) Claro que não. Era ele o rival a ser derrotado. Bucarest jamais havia sido assim corrido (potranca brilhante, velocíssima, voluntariosa), donc….

Assim foi. Red Cap tornou-se o coelho atrás do qual todos partiram. Mas, na reta, após começar a cansar e ser alcançado tanto por um brilhante miler como Zum Zum Zum (Dernah e Tunis, por Blue Skies), criação do Haras Valente, propriedade do Stud Flora Mattos, como por um puro craque como Vândalo (já ostentando o título de derby-winner paulista de 1957), um Prosper e Roussette, por Bois Roussell, defensor das cores branco e estrelas azuis do Stud Zélia  Gonzaga Peixoto de Castro. Quando tudo parecia decidido, eis que surge, guardada para uma partida curtíssima e precisa por Ubirajara Cunha (em milimétrica e preciosa direção, seguindo à risca os ditames dos irmãos Seabra), uma inesperada Bucarest. Em grande aceleração final, para espanto geral, mas recebida com uma tempestade de aplausos, veio ela, en pleine piste, dominar seus rivais e obter um extraordinário triunfo, o seu maior e mais importante, sem a menor dúvida. A sua fantástica velocidade inicial foi transformada em uma fantástica velocidade final. Coisa de quem conhece!

Por isso, aquela agradável tarde outonal, banhada por um sol à la mésure, entrou para a nossa (e não somente para a minha) história. Da aula dos irmãos Seabra ao eletrizante final, a fantástica vitória desta fantástica Bucarest foi pura poesia, digna das palavras de um Murilo Mendes, mestre dos mestres, poeta maior e notável.

Podem ser coisas de altri tempi mas que jamais se apagarão. Custe o que custar. Meus possíveis leitores, turfe é isso. O resto? Como escreveu, Shakespeare, em “Hamlet”, o resto é silêncio.”

Por isso, a ela, a Bucarest, as minhas eternas admiração e paixão. Minhas mais novas homenagens.

 

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