Barroso e Juvenal – por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Barroso e Juvenal – por Milton Lodi

 

JUVENAL MACHADO DA SILVA

É uma tarefa muito difícil, quase impossível, compararem-se com precisão as qualidades dos cavalos e mesmo dos profissionais do turfe que atuaram em épocas diferentes, distantes. Além disso, o turfe brasileiro não tem memória, não há registros oficiais, e o jeito é se fazer valer da própria memória ou de amigos que como nós tem vivência através dos anos, ou ainda de uma publicação antiga. Isso me veio à mente quando no JCB fui gentilmente abordado por um turfista para mim desconhecido, que me perguntou quem havia sido melhor, o Juvenal ou o Barroso.

Embora tivessem montado em épocas diferentes, o Juvenal com sua atividade profissional principalmente na Gávea e o Barrosinho primeiro na Gávea e depois em São Paulo. O Juvenal foi quase um gênio, em várias atuações espetaculares esbanjando classe e em alguns momentos chegando mesmo a surpreender mesmo aqueles que o tinham como um jóquei de incríveis percursos. Era um homem de hábitos simples, lutava contra a balança, gostava de um bom churrasco e de um chopp gelado, e para montar em alguns páreos, para segurar o peso, passava fome e sede nas vésperas dos dias de corrida, e, com tudo isso e um joelho com uma lesão que o importunava, era um verdadeiro astro nas pistas. Na opinião da grande maioria dos turistas que viram Juvenal e suas façanhas no lombo dos cavalos, ele foi o melhor de sua época, e, em função das diferentes épocas em que montaram, admitem ter sido ele até melhor do que lendário Luiz Rigoni.

 Juvenal Machado da Silva era um amigo de todos, corria limpo, preocupava-se com os aprendizes, inteligente, esperto, era sempre um dos competidores a ser batido. Gostava muito de futebol, era um torcedor tão fanático que diziam ter ele, mais de uma vez, ir para o galope de apresentação levando escondido um rádio de pilha, para, até a partida do páreo, manter-se a par do que estava acontecendo com o Flamengo. Eu pessoalmente não acredito, mas muita gente diz que é verdade. Como ele lutava contra a balança, passou a irregularmente não colocar o obrigatório colete protetor. Todos os jóqueis sabiam disso, e naquela época, o tal colete fazia parte da pesagem (esse peso hoje em dia não é considerado). Em uma tarde de sábado, um comissário de corridas do JCSP telefonou a propósito de uma informação qualquer, e em conversa disse que o Juvenal iria montar lá no dia seguinte, e lá ele seria severamente punido se ele se apresentasse sem o colete. No final da tarde, eu chamei o Juvenal na sala da Comissão de Corridas, e enquanto tomávamos um café, contei a ele do telefonema. Ele ficou zangado, ele era amigo de todos, quem teria dedurá-lo? Eu disse a ele que muita gente sabia do fato, seria impossível descobrir, e que ele usasse o colete protetor em todos os páreos. No dia seguinte, no fim das corridas, o mesmo comissário paulista me telefonou, o Juvenal não havia cometido nenhuma irregularidade, a denúncia ficaria por conta dos habituais boateiros. Se alguém quiser saber detalhes da genialidade de Juvenal Machado da Silva, deve procurar o experiente e técnico jóquei Carlos Lavor, já com cerca de 35 anos em lombos de cavalos de corrida, e pergunte a ele quem foi Juvenal, o seu grande ídolo.Quanto ao Albenzio Barroso, ele recebeu sua matrícula de jóquei em 1960, das mãos do então comissário de corridas no extinto Jockey Club Guanabara, o saudoso proprietário Paulo Dunshee de Abranches.

Albenzio Barroso e dona Margarida de Lara,Bem pequeno, forte, esperto, Barroso teve um ótimo início na Gávea, sempre ganhando. Eu me lembro um dia, no Hipódromo de Cidade Jardim, para onde eu havia levado todos os meus cavalos por divergências com a ditatorial diretoria do clube que permitia injustas facilidades para uns e negava direitos a outros. Uma das pessoas que me ajudaram na colocação dos meus cavalos em Cidade Jardim, além de meu amigo e lá Diretor Antonio Luiz Ferraz, foi o saudoso Handicapeur Thomaz (“Seu” Thomazinho) Teixeira de Assumpção. Ele era um homem de grande vivência no turfe paulista, e era muito amigo e respeitado pelos criadores, proprietários e profissionais do turfe. O jóquei F.G.Siva, que havia ido da Gávea para São Paulo, era o líder das estatísticas de Cidade Jardim. Trabalhador, correto e montando bem, recebia boas montarias e era muito procurado e aplaudido. Com o amplo domínio naquela fase de F.G.Silva, alguns proprietários pediram a interveniência do “Seu” Thomazinho, para encontrar no JCB um jóquei que pudesse competir com sucesso com o líder F.G.Silva. Pois foi naquele dia em Cidade Jardim que o “Seu” Thomazinho me disse que havia sugerido a contratação de Albenzio Barroso, e ele logo me perguntou se dava para enfrentar o F.G.Silva com o Barroso. Eu ri, disse que embora o então líder fosse confiável e bom, não dava para compará-lo ao Barrosinho, que era de um padrão superior, e que, se ele realmente se transferisse do Rio para São Paulo, ele logo assumiria a liderança das estatísticas e de lá seria difícil tirá-lo. Eu me lembro da cara de espanto do “Seu” Thomazinho, ele não tinha ideia do potencial do novo jóquei. Barroso foi para Cidade Jardim, e ultrapassou todas as expectativas, venceu cerca de 20 estatísticas a fio, e foi um grande e merecido ídolo em São Paulo. Simpático, trabalhador, muita qualidade, Albenzio Barroso tomou conta das corridas de Cidade Jardim por muito tempo.

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