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Reflexos do Esporte dos Reis – Milton Lodi

No turfe, como em todas as atividades, há núcleos melhores, mais confiáveis, de bom padrão, e também há outros nem tanto. O que se faz do turfe uma atividade muito especial é o amor aos cavalos, a alegria das competições, as grandes incertezas, resultando em um esporte onde há que haver paixão, humildade, generosidade quando dos bons resultados e aceitação dos maus.

           A seguir, alguns casos dos quais participei, direta ou indiretamente, de momentos que qualificam a atividade.

           Quando o benemérito Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, o fundador do Haras Mondesir, comprou em 1944 aquele que era considerado o melhor garanhão do mundo, o inglês King Salmon(foto), criou-se uma enorme expectativa. Só um homem como o Dr. Peixoto poderia realizar tal façanha. Destemido, ele entendia que para uma grande melhoria não bastava comprar o que havia de melhor em relação ao calibre do turfe brasileiro, mas havia que trazer o melhor dos melhores, sem quaisquer referencias que não fossem atingir o máximo sem limitações. Ainda em 1944 King Salmon, alojado no Mondesir em Lorena, SP, recebeu um número pequeno de éguas, como início de uma trajetória que tinha meta altíssima.  Assim, em 1945 King Salmon produziu várias fêmeas, que formariam a base feminina do Haras, e dois machos. O benemérito Adhemar de Faria, amigo do Dr. Peixoto desde os tempos na Faculdade de Direito, turfman apaixonado, perguntou ao criador se poderia ir ver aquela primeira produção. É claro que o Dr. Peixoto concordou, e disse que a função primordial de King Salmon era produzir fêmeas, de modo que ele até admitia vender um dos machos, à escolha do eventual interessado, ficando o outro para defender sua blusa estrelada. Horse_King_Salmon-_2bigUns dias depois, o Dr. Adhemar foi conversar com o meu pai. Disse que os dois potros tinham a mesma pelagem, alazão, um tinha um tom meio avermelhado ou caramelado, tinha por mãe uma égua inglesa, era lindo e chama-se Marfim. O outro era também de porte médio, mais encorpado, orelhudo, de costelas largas que davam a impressão de ser um potro barrigudo sem ser, e tinha como mãe uma égua argentina já com 19 anos, mãe até então de 12 produtos, o melhorzinho podia ser taxado apenas de regular. O Dr. Adhemar disse que, apesar da evidencia da escolha ser do Marfim, ele havia gostado mais do orelhudo, filho da égua velha. Concluiu dizendo que o preço estabelecido era muito alto, 300 contos, e ele precisava de um sócio. Foi assim, sem ver, acreditando na sapiência turfística do Dr. Adhemar, que o meu pai ficou sócio do orelhudo, o Manguari. O resultado não poderia ter sido melhor. Manguari correu sempre na primeira turma, foi o primeiro líder de sua geração, cumpriu extensa campanha dos 2 aos 6 anos de idade, entre as suas mais importantes vitórias estavam à primeira (1.600 metros) e a segunda (Derby – 2.400 metros) provas da tríplice coroa e o record dos 2.000 metros na grama, que foi por ele mesmo igualado no ano seguinte. Terminou a campanha nas pistas com 16 vitórias e 8 colocações, sempre correndo contra os melhores. Terminada a campanha nas pistas, o meu pai disse ao Dr. Adhemar, dono de 1/3 do Manguari, que embora o cavalo estivesse só em seu nome e correndo com a sua farda, para efeito de estatísticas, o Manguari era dos dois, e que o Dr. Adhemar determinasse um valor para a parte dele, já que ele não pretendia criar. O Dr. Adhemar foi simples e direto. Ele não pretendia criar, ficava muito satisfeito com o destino do cavalo, que ele tivera o privilégio de dispor com total liberdade do Manguari mesmo tendo participação menor, a sociedade com o meu pai havia servido para aumentar a ótima amizade que eles tinham, e que ele não podia vender a parte dele no Manguari, a partir daquele momento aquele cavalo que havia dado tantas satisfações aos dois era só do meu pai, alegando que tudo que ele merecia em relação ao Manguari ele já tinha recebido.

O turfe é o Esporte dos Reis.

 

           Algum tempo depois da morte do meu pai, em 18 de janeiro de 1956, estava eu jantando no Haras Bela Esperança, com o meu padrinho de casamento José Paulino Nogueira, quando ele me perguntou se eu disporia do garanhão Minotauro. Ele gostaria de utilizá-lo em algumas éguas, para tentar cruzas que haviam dado no Ipiranga, por exemplo, da grande clássica internacional Derah(foto), filha do italiano em égua originária do Bela Esperança, uma filha de Seventh Wonder. Eu respondi que eu contava naquele momento com um número mais do que suficiente de reprodutores, o Minotauro já havia cumprido a sua missão no Ipiranga, e eu teria grande prazer se ele aceitasse o cavalo de presente. DERAHEle imediatamente disse que não, de presente não, mas o negócio estaria fechado se eu aceitasse uma égua virgem, da criação dele, que estava arrendada ao proprietário José Buarque de Macedo, e em vésperas de devolução. Eu respondi que ele poderia considerar o Minotauro dele, a minha intenção era satisfazer a vontade do grande criador, e qualquer que fosse a troca oferecida, a proposta já estava aceita, mas eu insistiria em que ele aceitasse o cavalo de presente. E respondeu que o negócio estava fechado. Naquele momento, logo após o jantar, assinei o documento de transferência do Ipiranga para o Bela Esperança. No dia seguinte, um caminhão foi buscar Minotauro. Quatro meses depois, o Dr. Paulino me avisou que a égua prometida estava a minha disposição no Hipódromo de Cidade Jardim. Era simplesmente uma filha da maravilhosa Garbosa Bruleur. Eu considero que não houve uma transação, mas na verdade uma troca de presentes.

O turfe é o Esporte dos Reis.

 

          Em uma tarde de corridas no Hipódromo de Tarumã, quando de um Grande Premio Paraná, eu e Matias (Matias Machline do Haras Rosa do Sul). Ele havia recém comprado terras do então Presidente do Jockey Club do Paraná, com a intermediação do veterinário e amigo dos dois Alceu Ataíde. Matias tinha ido ao Tarumã para prestigiar o então Presidente, melhorando o habitual fraco movimento de apostas com o seu dinheiro. Colocaram junto ao Matias um confiável Diretor Goubert Dionísio, um homem agradável e muito bem educado. O Matias, do primeiro até o penúltimo páreo, dizia ao Goubert quais as suas apostas, que as vezes eram até conflitantes, mas o que o Matias queria era mesmo só ajudar. Corrido o penúltimo páreo, Matias disse ao Goubert que iria voltar para São Paulo em um avião que o aguardava, e pediu que o Goubert fosse verificar o resultado das suas apostas, todas feitas verbalmente e transmitidas em confiança pelo Goubert a um guichê especial. A resposta veio surpreendente. O Matias havia tido um bom lucro, havia acertado por simples palpites em alguns rateios grandes. Ao saber do resultado e do valor, o Matias simplesmente disse que ele encaminhasse aquele bom valor a uma instituição de caridade. Ele me ofereceu carona no avião, a agradeci porque havia ido de automóvel. E discretamente, além de ajudar o Clube com as suas apostas e a uma instituição de caridade, ele simplesmente voltou para São Paulo. Em outra oportunidade, em uma sexta-feira à tarde, eu passei pelo Stud Book Brasileiro em São Paulo para fazer um comunicado qualquer, e conversando um pouco com o então gerente de nome Newton, soube que na semana entrante deveria ser publicado em Diário Oficial as novas normas para importação, bem mais restritas que as vigentes. Perguntei por que não teria havido uma referente divulgação do assunto, e me foi respondido que havia sido para evitar palpites, opiniões, outras manifestações que iriam tumultuar e atrasar normas então consideradas necessárias. No dia seguinte, sábado nas corridas em Cidade Jardim, encontrei um Alceu Ataide eufórico, o Matias havia comprado na Argentina um bom haras e de porteiras fechadas, que incluíam 40 éguas reprodutoras, que viriam todas para o Rosa do Sul, em Atibaia. Eu contei ao Dr. Alceu a novidade que eu tomara conhecimento na véspera, e disse que dentre as 40 éguas recém-compradas certamente haveria pelo menos algumas que pelas novas regras não iriam poder entrar, o plantel teria cunho tradicional as modernas normas restritivas, e eu perguntei se a papelada das tais éguas já havia dado entrada no Stud Book. Ante a resposta negativa, havia que ser registrada no Stud Book um documento qualquer, devidamente datado daquela segunda-feira, informando pelo menos os nomes dos animais adquiridos na Argentina, e com o compromisso da apresentação dos referentes documentos de cada égua logo que chegassem da Argentina. O Dr. Alceu tomou as devidas providencias na segunda-feira mesmo. Na quinta-feira veio no Diário Oficial a nova restritiva regulamentação. Passados alguns dias, o Dr. Alceu me telefonou, tinha instruções do Matias para me mandar uma caixa de champanhe francesa. Eu agradeci, aquilo que seria um despropósito, que ele agradecesse ao Matias por mim mas que ele esquecesse essa caixa de champanhe. tumbleMas o Dr. Alceu disse que tinha instruções, não aceitar qualquer recusa, e mandar a tal caixa. Após muitas ponderações de parte a parte, ante a firme postura do Matias, eu disse ao Dr. Alceu que, para encerrar aquele episódio, nós entenderíamos o caso com uma troca de gentilezas, ele receberia de mim a tal preciosa informação e ele me cederia uma cobertura do seu ótimo garanhão Tumble Lark(foto). Ideia aceita na hora, uma égua minha de nome Poupete foi para o Rosa do Sul. Transporte, estadia, cobertura, tudo de graça. Nasceu um bom cavalo preto, muito bonito, que me deu muitas satisfações. Chamava-se Einstein.

O turfe é o Esporte dos Reis.

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