Internacionalização – (Milton Lodi)
O grande criador uruguaio Don Juan Amoroso do Haras Casupá, foi de tal importância que era considerado o Tesio sul-americano. Ele era um expert em pedigrees, e preconizava a máxima possível mistura de sangues de procedências diferentes, e considerava que os sangues diferentes levavam com eles as condições ambientais de suas procedências. O prestigio de Don Juan Amoroso era tanto que criadores brasileiros de grande expressão como por exemplo José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança) e os irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra (Haras Guanabara) tinham ido ao Uruguai conversar com o Mestre do Haras Casupá. Um fato extraordinário veio, durante a 2ª Guerra Mundial, 1939/1945, chamar a atenção do mundo turfístico, como uma prova dos ensinamentos de Don Juan Amoroso. Em 1939, havia na Alemanha um ótimo garanhão, um filho de Prunus de nome Oleander, que mesmo como grande destaque nacional não podia cobrir a melhor égua de seu haras, por problemas de consangüinidade, e paralelamente na Itália ocorria fato semelhante, havia um garanhão filho de Teddy de nome Ortello que também não podia receber a melhor égua do seu haras por consangüinidade. Assim, em 1939, a inteligência, a cultura turfística e a sempre presente vontade da qualitativa melhoria resultou na ida das duas éguas para os outros países, isto é, em um primeiro ano de uma guerra mundial, com os transportes dos cavalos e éguas feitos por trens e/ou caminhões, a égua italiana foi para o cavalo alemão, e a égua alemã foi para o italiano. De volta as suas origens, as duas éguas, tiveram filhos machos em 1940.
Em 1943, o potro alemão filho do italiano Ortello venceu o Derby Alemão, e o potro italiano filho do alemão Oleander venceu o Derby Italiano. Esse fato não é decisivo mas veio reforçar a teoria do Tesio Sul Americano. O tal potro italiano filho de Oleander foi o precursor no Brasil dos atuais “shuttles”, pois os irmãos Seabra conseguiram trazer o campeão italiano, Orsenigo, para uma temporada brasileira por três anos.Não seria necessário lembrar que, dentre os seus ótimos filhos, Orsenigo deixou no Brasil filhos do quilate de Escorial, de Lohengrin, de Cáucaso e de Emocion, dentre outros. Anos mais tarde, havia um cavalo russo de nome Anibin, uma verdadeira flor de um pântano, um excelente corredor proveniente de uma criação desprestigiada e sem sucesso conhecido, pelo simples fato de à época ser um país hermético, fechado, sem normal convivência com o resto do mundo. Anilin correu por alguns anos na Europa e até participou a convite do Washington D.C Internacional, nos Estados Unidos, e deixou um nome muito respeitado no turfe mundial. Roberto Seabra fez de tudo para trazer Anilin em shuttle para o Brasil, mas tudo em vão, até carta para os principais mandatários do país foi tentada, mas Anilin foi para a reprodução na obscura criação russa, e lá sumiu. A idéia da internacionalização dos pedigrees virou moda entre os grandes criadores brasileiros, uruguaios e argentinos. Só para citar os nomes em evidencia maior, para o Haras Mondesir veio de Royal Dancer,
King Salmon, Sayani, Swallow Tail, Waldmeister, St. Chad e vários outros muito bons, deixando para segundo plano bons nacionais como por exemplo os tríplices coroados Timão, Zuido e Quiproquó.
Os Haras São José e Expedictus preferiam as linhas francesas, e a espinha dorsal daquela criação foi formada por Formasterus, Fort Napoleon e Felício, e muitos dos grandes corredores nacionais terminaram as suas vidas sem receber éguas, confinados em um verdadeiro depósito de garanhões no Haras de Botucatú, SP.
O Haras Guanabara iniciou-se com os ingleses Felicitation e Hunter´s Moon, que fugindo da 2ª grande guerra tinham sido levados para a Argentina. Outros garanhões europeus foram para o Guanabara, dentre eles Royal Forest, sempre no conceito de trazer sangues europeus para serem cruzados com boas éguas brasileiras, uruguaias e argentinas. Quando surgia um garanhão de alto gabarito internacional como o francês Coaraze, por exemplo, de propriedade do Jockey Club de São Paulo e sediado no Posto de Monta de Campinas, o Guanabara mandou a extraordinária argentina Empeñosa, produzindo um dos três melhores corredores nacionais de todos os tempos, Emerson (foto). O Guanabara tentou sair um pouco de garanhões ingleses, mas o alemão Nisos e o frances Cobalt não se mostraram à altura. Diminutas tentativas com garanhões nacionais, como com Radar por exemplo, foram fracassos.
O Faxina utilizou-se de garanhões franceses como Sandjar, um norte americano como Earldom, o inglês Congratulations e um nacional como Jolly Jocker, como simples exemplos, como amplo destaque para o francês. O Haras Santa Anitta deu mais oportunidades para os ingleses Normanton, bom garanhão, e Romney, que ficou a desejar mesmo tendo tido alguns bons produtos clássicos e sendo filho de Mahmoud, um ganhador do Derby de Epsom. O Haras Bela Esperança só se utilizava de garanhões ingleses, como por exemplo Seventh Wonder e Tintoretto, de curtíssimas campanhas nas pistas antes de terem tido oportunidades de apresentar todos os seus potenciais, por isso de baixo valor no âmbito internacional, mas que produziram um altíssimo padrão, habituais ganhadores das mais importantes provas clássicas brasileiras, e isso em função da esmerada técnica do grande mestre José Paulino Nogueira, com as suas estudadas cruzas. O Bela Esperança também trouxe o ótimo francês Pharas, que veio a produzir no Haras São Quirino Garboleto, que foi vendido no ventre da maravilhosa Garbosa Brulleur, antes naturalmente da venda do próprio Pharas para o São Luiz.
O Haras Ipiranga utilizou-se de garanhões de valor mediano no turfe internacional, garanhões italianos, franceses, um irlandês, um alemão e um nacional grande ganhador clássico. De todas as procedências vieram produtos ganhadores de importantes clássicos, como da linha italiana (Minotauro – Derah), francesa (Flamboyant de Fresnay – Gourmet), irlandesa (Kameran Khan – Itamaraty), alemã (Takt – Moustache) e brasileira (Manguarí – Happy). Mas nenhum dos garanhões do Ipiranga tinha alto valor no mercado internacional. Alguns haras de ótimo calor se satisfaziam com garanhões nacionais, como o Patente com Xaveco e o Malurica com Major´s Dilemma.
Hoje vamos ficar por aqui. Esse assunto dá para muitos livros.
