O natural correr dos anos vai diversificando os criadores, os proprietários e os profissionais do turfe. Os filhos não necessariamente parecem ou tem os mesmos gostos dos pais, os dinheiros vão trocando de mãos, treinadores e jóqueis eventualmente de origens e educação rudimentares conseguem formar os seus filhos em escolas superiores, a vida não caminha em linha reta, e assim do grupo de turfistas muitos seguem outras profissões e interesses e ainda outros passam a integrar o grupo dos amantes do turfe. Filhos de jóqueis costumam se empolgar com os sucessos de seus pais, e tentam seguir os mesmos passos. Tem que vencer muitos obstáculos, pois o talento, assim como a arte, é individual, normalmente não é transmitido de pai para filhos. Só para ilustrar como uma das grandes exceções, há o caso do ótimo Antonio Ricardo e do nosso campeão mundial Jorge Ricardo. Além do talento e aptidão, há outros problemas a enfrentar. Um deles é o peso, outro a altura, e a necessidade cada vez maior de melhores esclarecimentos e dedicação.
Não adianta ter vontade de seguir a profissão do pai, é preciso muito mais. Caso paralelo é o dos treinadores. Nessa profissão, além da necessária experiência que só vem com o tempo, além da técnica de treinar, nem sempre aprendida por pais que são na verdade conhecedores dos mistérios da profissão mas oriundas de outros fatores não transmitidos ou transmissíveis de pai para filho, tem os novos muitas vezes que aguardar muito tempo para merecer a confiança daqueles que pagam as contas, os proprietários. A dúvida, que vem antes da eventual confiança, aliada à falta de experiência, muitas vezes chega a interromper a caminhada de um novo treinador. Como exemplo de sucesso pode-se citar o caso do grande treinador Pedro Nickel, que com mais uns poucos, dentre eles Eduardo Gosik e Enir Feijó, manteve-se sempre entre os três melhores nas estatísticas de Cidade Jardim. Com a sua aposentadoria, ou grande diminuição das atividades, o filho Pedro Nickel Filho já despontou como um brilhante sucessor, tendo, apesar da pouca idade, atingido as lideranças nas estatísticas paranaenses, depois paulistas, e agora, sediado em Buenos Aires, já venceu até a segunda prova da tríplice coroa argentina. No setor dos proprietários, muitas alterações são comuns, pois a relação custos/benefícios é sacrificante, e um eventual período de vacas magras tira ou diminui o ímpeto de ter cavalos cada vez melhores e em maior quantidade. Mas eles são naturalmente substituídos pelos novos que entram, e entrarão sempre, pois o fascínio e a paixão pelo turfe estão sempre ou quase sempre presentes nos mais esclarecidos, mais inteligentes e/ou de sensibilidades especiais. Quanto aos criadores, o processo evolutivo, ou involutivo, é diferente.
Como fontes de produção, os criadores necessitam do dinheiro dos proprietários compradores, pois não só os custos de manutenção como também a necessidade de contínua renovação são dependentes de eventuais efêmeros sucessos em provas de expressivas dotações ou injeção extra de fortes percursos, o que a situação financeira dos clubes que há muito tempo o turfe brasileiro não oferece. Veja-se por exemplo o caso recente do ótimo garanhão alemão Manduro, que esteve no Brasil em “shuttle” por uma estação de monta, e que aqui deixou ótimos ganhadores, inclusive de importantes provas de Grupo I. Maduro voltou para a Europa, e lá continua a produzir muita classe e vitórias em importantes provas nobres. No primeiro semestre de 2015, um grupo de brasileiros tentou a compra definitiva de Manduro, e o preço era da ordem de 600 mil dólares. Mas o preço, muito convidativo para os padrões internacionais era bem alto para o brasileiro e apesar de todos os esforços essa compra não se efetivou. Mas nesse quadro difícil já desde algum tempo do turfe brasileiro, há um detalhe a ser considerado. Acredito que em São Paulo, no Paraná e no Rio Grande do Sul possa ocorrer o mesmo, mas no Rio três importantes famílias turfísticas mantém ligações com o turfe.
Vou citar o caso de três beneméritos. Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, o inesquecível fundador do Haras Mondesir, constitui-se na primeira geração turfística. O Dr. Peixoto só teve uma filha, Maria Candida (D.Nina), segunda geração. D.Nina teve 9 filhos, dos quais vários turfistas, dentre eles Zélia Peixoto de Castro Palhares, terceira geração, que casou-se com o também turfista Gilberto Solanés. O casal teve 4 filhos, quarta geração, um deles um bom jóquei amador Gilberto Solanés Júnior. Uma das três filhas de Beto Solanés, quinta geração, chama-se Maria Rita, campeã do páreo de joquetas mirins na Gávea, pôneis pilotados por meninas de 7 a 11 anos, em 200 metros. Maria Rita é tataraneta do Dr. Peixoto. Outro Grande benemérito foi Linneo de Paula Machado, fundador dos Haras São José e Expedictus, e primeiro presidente do Jockey Club Brasileiro e responsável pela implantação e construção do Hipódromo da Gávea, cujos haras produziram animais de alta categoria durante 100 anos. O Dr. Linneo representa a primeira geração. A segunda é representada pelo filho Linneo Eduardo, a terceira por Lineu de Paula Machado (Lineuzinho), também ótimo turfista e proprietário do Centro de Treinamento Itajara, um dos melhores e mais bonitos do Brasil. A quarta geração é representada por D. Celina, filha de Lineuzinho. A quinta geração, a dos tataranetos, vai por conta de duas meninas, gêmeas, filhas da D. Celina, que ainda de colo, foram no dia do Grande Premio Linneo de Paula Machado , no Hipódromo da Gávea, como tataranetas do grande benemérito. Mais um dos sócios fundadores do JCB, o empresário Adhemar de Faria, Diretor Secretário do JCB e substituto eventual do Dr. Linneo quando de suas eventuais ausências. Adhemar de Faria foi excelente diretor do JCB e primeira geração de turfistas. O seu filho Roberto Gabizo de Faria foi ótimo proprietário durante toda vida, representando a segunda geração. A terceira é representada por Cesar Weinschenck de Faria, que mantém a blusa do pai e que mantém a tradição. A quarta geração é Roberto da Rocha Miranda de Faria, e a quinta, a dos tataranetos meninos Jorge e Bento. Ainda bem que há uma continuação.
