Aproveitamento das inscrições, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Aproveitamento das inscrições, por Milton Lodi

Há muitos e muitos anos que um máximo de aproveitamento das semanais inscrições é meta a ser alcançada. Nos hipódromos menores, pequenos, é normal um verdadeiro quebra cabeças, dada a variedade das idades e dos números de vitórias, além do natural fato de que para eles são levados corredores que até então não apresentaram um mínimo aceitável de condições de ganhar, outros até bons ganhadores mas em final de campanha nas pistas apresentam sensível queda de rendimento, outros, que foram descansar em um hipódromo cujo custo do trato é menor, e mais uma diversidade de condições individuais que chegam com as suas inscrições, às mãos dos Handicapeurs, em absoluta falta de condições para uma condição pelo menos razoável para formarem um páreo próximo do equilíbrio. Como o objetivo é organizar uma grande irregularidade, constitui-se em tarefa muito difícil de agradar a todos os interessados.

Durante muito tempo o Jockey Club São Vicente viveu nessas condições, e foi ai que surgiu um jornalista muito talentoso, e muito bem intencionado de nome Vicente Mola Neto. Dedicado, inteligente, dando-se muito bem com os profissionais, tirava proveito do que via e ouvia, e conseguia formar páreos com forcas aparentemente muito diferentes mas que na prática apresentavam resultados aceitáveis, dentro da aparente disparidade. Vicente Mola Neto foi um talento nesse complexo trabalho de misturar aparentes forças diferentes. No trabalho dele muitos se inspiraram, e de suas experiências muitos se aproveitaram. O Jockey Club de São Paulo, distante cerca de uma hora de carro do de São Vicente, apresentava um quadro completamente diferente. O setor das corridas, sob a orientação segura e competente do saudoso Thomaz (Seu Thomazinho) Teixeira de Assumpção Júnior, e o então seu assessor Arthur Francisco que após muitos anos acompanhando o trabalho de seu mestre, assumiu a posição de Handicapeur chefe do setor. Arthur Francisco tem hoje 70 anos de idade, dos quais 50 trabalhando no Jockey Club de São Paulo. Ele representa competência, honestidade, confiança e experiência, e a ele deve o Clube o fato de, desde algum tempo com poucos e diversificados animais, conseguir formar ainda dois programas semanais de corridas. No Jockey Club Brasileiro, a situação através dos anos muito se modificou. Até 1992, o então velho servidor chefe do setor estava desmoralizado, criticado pela grande maioria dos proprietários e profissionais. Em 1992 foram contratados os serviços do expert Marcos Ribas, que colocou o setor nos eixos, e chegou a 1996 com um resultado técnico irretocável. Em 1996, Marcos Ribas assumiu outros compromissos fora da área do turfe, e também a responsabilidade de projetar anualmente o calendário clássico. Foi então substituído por Bertrand Joachim Kauffmann, titular de uma empresa de prestação de serviços turfísticos. Apoiado na competência e trabalho do funcionário do JCB Ivamar de Figueiredo Alves, e por alguns anos as coisas fluíram. Mas a parte funcional da Comissão de Corridas do JCB sofreu dois difíceis momentos, um deles com a espontânea saída de Ivamar, e um inesperado e injustificável anti-profissionalismo de uns poucos funcionários do setor. Mas a crise ficou para trás, até que em 2010 o então líder de setor, Bertrand Joachim Kauffmann foi aos poucos arrefecendo o seu interesse e o seu trabalho, até abandonar de vez o seu posto.

Em 2010 havia entrado um novo elemento na Comissão de Corridas, Luiz Vicente de Pacheco Britto, turfista jovem que supria a sua pouca experiência com muito entusiasmo. Tinha muito que melhorar e melhorou mesmo, e mostrou-se altamente capacitado quando em 2015, após cerca de 5 anos na posição de Handicapeur, cuidou e preparou um trabalho já em execução no JCB referente a um novo tipo de chamadas. Quase todos os países do mundo turfístico convocam as inscrições de uma forma igual ou semelhante às dos principais países civilizados promotores de corridas de cavalos. Há também os que preferem as chamadas por handicaps, isto é, uma forma de juntar grupos de animais e procurar igualar as chances de ganhar através de uma distribuição de pesos. Essa forma, a dos handicaps, tem o problema da subjetividade, isto é, não só a absoluta honestidade do Handicapeur como um acerto em suas analises dos concorrentes em função da pista do páreo a ser corrido, à distância e principalmente as habilidades de cada competidor, além do seu momento atlético. É muito difícil conseguir-se um ótimo equilíbrio de chances entre os inscritos, de forma apenas subjetiva. Em função disso, o Chile pratica a muitos anos o que é chamado de “Handicap Automático”. O nome diz tudo, é um sistema de aplicações de pesos decorrentes das performances, acréscimo de peso a cada vitória, e diminuição dos pesos para os derrotados. De uma forma simples, com o correr do tempo os pesos vão se ajustando.

A programação habitual do JCB era feita pela chamada tradicional com um aproveitamento da ordem de 83% das inscrições, e o JCSP, com aproveitamento de cerca de 93%, isso como conseqüência da necessidade encontrada por Arthur Francisco em formar os páreos paulistas, inventando normas proibitivas de forfaits, como mistura de páreos de fêmeas com os machos, mistura da turma com outra superior, etc, uma série de medidas até não simpáticas mas necessárias ante o drama semanal para a formação dos programas. O Presidente do JCB determinou ao Handicapeur um contato direto com os técnicos chilenos. Houve encontros em Santiago, Buenos Aires e no Rio. Daí o Handicapeur modelou a chamada chilena à realidade brasileira. Com cerca de dois meses de prática, o tal “Handicap Automático” chileno virou PIT (Páreos por Índice Técnico). O presente texto serve como introdução para uma análise que vou apresentar em uma próxima oportunidade.

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