O criador paulista Hernani Azevedo Silva, já dizia que ser criador era estar montado em um leão, havia que fazê-lo andar, pois se ele parasse, o criador seria comido. Isso queria dizer que bem ou mal as coisas tinham que seguir de algum jeito, pois parar seria a realização dos prejuízos. Esse sábio raciocínio, de vez em quando, vem à tona. Com o turfe Brasileiro, já há muito tempo, dando um geral prejuízo, tanto a criadores como a proprietários, muitas vezes pergunta-se o porquê de ainda ter gente que continua no setor. Penso que a explicação está no raciocínio do Hernani, e também pela atraente competitividade do esporte, pela paixão de participar de uma atividade tão sedutora, que quando de eventuais vitórias há um misto de vaidade, de orgulho, de prazer, pela satisfação do predomínio.
Na realidade, falta dinheiro novo na atividade, novos apostadores, novos criadores, novos proprietários, gente nova com dinheiro para enriquecer a atividade. Mas as contingências externas ao turfe também não são adequadas. Veja-se por exemplo os casos como da anemia infecciosa equina, doença que mata animais, e que o Ministério da Agricultura não cuida devidamente. Já houve casos muito importantes com potros com recém dois anos de idade, que estavam aguardando a época de serem leiloados, foram submetidos aos habituais exames laboratoriais, e um deles deu positivo. O Ministério foi informado, compareceu ao local, e sacrificou o potro. E só. Cumpriu a sua obrigação de matar,e foi embora. Coube ao criador, surpreendido com a presença da mortífera doença em um dos seus potros, providenciar as próprias custas e iniciativa, exames dos matungos que habitualmente circulavam pelas proximidades, tendo em um deles sido comprovado AIE. O Ministério voltou, sacrificou, e novamente foi embora, entendendo ter cumprido a sua missão. Quer dizer, o Ministério não cuida do problema, só mata.
Há muitos anos, em uma reunião em Brasília, o assunto Mormo foi abordado. Houve concordância geral no sentido de uma enérgica ação para erradicar a doença, que pelo menos à época originava-se nos canaviais de Pernambuco, com os cavalos que trabalhavam no setor representando o maior foco da mortal doença. Naquela reunião lembrou-se que o Ministério havia determinado que barreiras sanitárias controlassem a entrada e principalmente a saída de cavalos daquela região. Foi quando um dos participantes da tal reunião disse que ele havia participado de uma daquelas citadas barreiras sanitárias, e quando um caminhão carregado de cavalos ia saindo, foi parado para a verificação de documentos e atestados de sanidade. Foi quando um dos homens do caminhão se apresentou, com um revolver na mão, e disse que aqueles cavalos eram dele, iam participar de uma vaquejada, ele vivia de alugar os seus cavalos para as competições de fins de semana, aquilo era o ganha-pão dele, e que o caminhão iria passar de qualquer maneira. O caminhão passou sem a verificação da existência dos tais documentos exigidos, e o informante declarou que havia pedido transferência daquele setor de barreira sanitária para um local administrativo, em Brasília. O Ministério ainda informou que não dispunha de verba para enfrentar adequadamente o problema, e sugeriu que o Jockey Club Brasileiro custeasse a necessária operação. O problema do Ministério era empurrar para um clube de corridas do Rio de Janeiro um problema dele, do Ministério, com um foco principal em Pernambuco. O problema ficou por isso mesmo, e de lá para cá surgiram uns poucos casos isolados de Mormo em vários Estados do Brasil, na verdade imediatamente sacrificados pelo Ministério, que assim entende estar resolvendo o problema. Recentemente, foram encontrados vários casos de Mormo em um quartel do Exército, isso faltando apenas um ano para as Olimpíadas a serem realizadas no Estado do Rio de Janeiro em 2016. Como, em função de provas de hipismo, há alguma frequência de saltadores da Sociedade Hípica Brasileira e do Exercito e vice-versa, o Ministério determinou o sacrifício dos animais doentes no Exercito, e interditou a entrada e saída da Hípica, até que todos os animais lá alojados sejam alvos de exames. O Ministério segue matando e transferindo o problema para os outros.
Não é só o Mormo que não é cuidado pelo Ministério , é voz corrente que a AIE (Anemia Infecciosa Eqüina), tem enorme incidência sobre os cavalos pantaneiros, naturalmente na área do Pantanal. O cavalo pantaneiro não é representante de uma raça, é apenas um sobrevivente. Será que o Ministério está aguardando que os cavalos pantaneiros morram naturalmente, e até lá sigam vetores da doença?
