Uma das mais difíceis artes no mundo do turfe é a de encontrar a melhor forma de obter o máximo rendimento de um cavalo. Nossos hipódromos estão cheio de treinadores antigos e novos, mas sensibilidade necessária não é atributo de todos. A falta de livros e revistas especializadas, no Brasil, obriga a uns poucos mais interessados a ler o que eventualmente vem publicado de fora. Um antigo livro do argentino Daniel Inchausti foi, e eu acredito que para muitos ainda o seja, a “bíblia” do treinador. Em tese e em resumo, o método-base consiste em, uma semana antes de um “trabalho” na distancia do páreo a ser corrido, uma partida (apronto) na antevéspera do páreo aproximadamente de metade da distancia da corrida, e galopes nos outros dias a grosso modo. A variação ficaria na intensidade dos trabalhos e galopes ao critério do treinador, sendo que na Argentina o treinamento normal é severo. Para se ter uma ideia do que dai pode ocorrer, quando a maioria dos treinadores é composta por ex-jóqueis , ex-cavalariços e por filhos de ex-treinadores, se novas luzes não vierem aparecer, novas ideias mais modernas não surgirem, na haverá progresso no setor. Mas já há novos profissionais com um princípio de experiência fora do país. Lembro-me quando o cavalo de um amigo, que estava inscrito para correr num domingo na Gávea, teve um contratempo qualquer que o impediu de ir à raia na terça e na quarta-feira, para não deixar de correr, e dentro do seu entendimento de que dois dias sem trabalho em pista impossibilitariam o resultado desejado, o treinador, “resolveu” o problema da seguinte forma: uma volta de galope na quinta-feira, um trabalho de distancia do páreo na sexta, um apronto no sábado, e levou o cavalo para correr no domingo. O pior disso é que ele entendeu que o fracasso tinha-se devido à falta de terça e quarta na raia, e não ao que foi feito nos outros dias subsequentes. Já houve quem dissesse que, em função do “ritual” de trabalhar distancias nos sábados e aprontar nos meios de semanas, se as semanas passassem a ter, por exemplo, nove dias e não sete muitos treinadores ficariam perdidos.
O sucesso dos treinadores está rigorosamente ligado às suas sensibilidades. Foi mandado para correr um páreo em São Paulo o cavalo Negroni, que estava domiciliado em Curitiba com o treinador Elídio Pierre Gusso (pai dos treinadores Edílio Pereira Gusso e Carlos Pereira Gusso, e sogro do também treinador Gervásio Pedro Fagundes). O cavalo foi para São Paulo, mas por motivo de força maior o páreo dele (todo o programa) foi transferido para três ou quatro dias depois, o treinador ainda estava em Curitiba, o cavalo já em São Paulo preparado para correr em determinado dia, o que fazer? A resposta ao telefonema dado ao treinador foi muito simples: “Não toquem no cavalo, ele já está pronto” (“tocar” quer dizer trabalhar distancia ou partida). Negroni apenas galopou normalmente nos dias seguintes, o treinador chegou na véspera, e no dia Negroni venceu facilmente. A isso se chama sensibilidade.
Um caso muito interessante aconteceu com o extraordinário treinador Expedito Coutinho, um verdadeiro treinador de cavalos de corridas. Ele cuidava de Nassau, cavalo de físico poderoso, que habitualmente na corrida não correspondia. Trabalhos de distancias fortes ou suaves, ou sem trabalhar a distancia, aprontos fortes ou suaves, ou sem aprontos, galopes diários ou não, todas as combinações possíveis de exercícios ou a falta deles eram inócuas, na hora da verdade Nassau não correspondia, apesar de ser um bom cavalo. Num sábado de manhã, dia em que ia correr à tarde, em semana de trabalho de distancia, apronto e galopes diários, Expedito mandou Nassau para dar uma volta de galope, como mais uma alternativa. Aconteceu o inesperado, por algum motivo, o redeador caiu e Nassau disparou na raia, a toda velocidade, dando a volta completa. De volta à cocheira, antes de telefonar para o proprietário e informar que ia retirar o cavalo do páreo, Expedito foi ver Nassau no box, e o encontrou em excelentes condições, esperto, alegre, vivo, informou-se com o cavalariço, que disse ter Nassau voltado da raia para a cocheira aos pinotes, impetuoso, feliz. Resultado: Expedito telefonou para o proprietário informando do ocorrido e que Nassau iria correr à tarde, Nassau venceu muito fácil, e nos dias de suas muitas vitórias posteriores sempre fazia um exercício forte na manhã.
O treinador José Silvestre de Souza, o Zé Maravilha, em São Paulo, teve caso semelhante com o cavalo Lazio, em função de sucessivas decepções, resolveu inovar com partidas fortes de 500 metros nas manhãs dos dias de corrida, de duas, Lazio passou para seis vitórias com rapidez.
Já com Hechizo, um argentino excitado e violento que o bom Claudemiro Pereira cuidava, foi diferente, como ele não correspondia, apesar de bem trabalhado, após chegar descolocado (em ultimo?) num domingo, ficou sem sair do box até o domingo seguinte, quando só saiu para ir correr. O resultado foi uma fácil vitória, e uma suspensão para o bom Claudemiro por diversidade de performances.

O treinador Abadio Cabrera, que foi de Mato Grosso para São Paulo onde está radicado há muitos anos, e que apresenta invejáveis resultados, mostrou sua sensibilidade quando da vitória de Immensity(foto) no Grande Premio Carlos Pellegrini. Na sexta-feira ele não galopou a égua, que estaria em seu entender pesada, muito mansa e sem vida, Cabrera determinou ao Bolino, no sábado de manhã, véspera da corrida, que fizesse 2.400 metros fortes com Immensity, sem exigir tudo, mas para tempo, fazendo correr. Cabrera teve que repetir a ordem mais de uma vez, pois o Bolino achava graça achando que era uma brincadeira. O trabalho foi feito conforme combinado, Immensity à tarde mostrava-se outra, no domingo de manhã treinador e jóquei tinham absoluta confiança na vitória, e à tarde veio à consagração, uma égua extraordinária, com um jóquei de alta técnica e um treinador de grande sensibilidade e recursos.
Os realmente bons treinadores são poucos, e na verdade são artistas.
