Todos os dias o pai acordava às 4 horas da madrugada, noite fechada, ia direto para o pastinho onde ficavam os cinco burros, e abria a porteira para que eles fossem para perto do pequeno galpão; dava uma olhada para ver se estava tudo em ordem, punha comida no cocho, que era um tronco de árvore oco deitado no chão, e voltava pra casa. Chamava a mulher e o filho, e um pouco depois estavam à mesa tomando café com broa de milho. Às cinco o pai e o menino atrelavam cada burro em sua carrocinha, sempre primeiro Pachola, o burro branco, cor de leite, depois os outros. Antes das seis horas, sempre liderados pelo Pachola, as cinco carrocinhas seguiam sozinhas, em calma fila, e chegavam à boca da mina de minério. O negócio do pai era, com suas cinco carrocinhas puxadas a burro, transportar o minério dali para junto à estrada de ferro. O filho cuidava do carregamento e o pai do descarregamento; o trajeto não era problema, pois os cinco burrinhos iam e voltavam, o dia inteiro, sozinhos; ninguém se surpreendia, era cena comum diária, aquelas cinco carrocinhas engatadas em burros, sempre um branco seguido por quatro castanhos. Ao anoitecer, os animais eram desatrelados e soltos no pastinho.
Passaram-se alguns anos, a empresa mineradora entendeu de modernizar o sistema de extração e transporte do minério, e acabou que o serviço dos burrinhos e suas carrocinhas passou a ser feito por carroções puxados por tratores.
O pai teve que trabalhar em outro ramo de negócios. Incumbiu o filho de cuidar de uma das tantas vacas leiteiras que ele comprou com as economias. O serviço consistia em ir cedo tocar as vacas para o local da ordenha, onde o pai aguardava. O problema inicial, de cercar as vacas para encaminhá-las à porteira, no escuro da noite, foi facilmente e desde logo resolvido pelo pai, que após bem observá-las escolheu Dengosa, e colocou-lhe no pescoço dependurada uma sineta. Ficou fácil para o menino, que mesmo sem enxergar sabia onde a Dengosa estava, e bastava passar-lhe uma corda e puxá-la até o curral, para onde ia acompanhada pelas outras.
Terminada a ordenha, as vacas era levadas de volta ao pasto da mesma forma que tinham vindo; os burrinhos iam puxando as suas carrocinhas até a cidade, para entregar os latões de leite aos habituais clientes; era trabalho simples, o menino ia na carrocinha de Pachola, seguida pelas outras, e terminado o serviço voltavam para o sítio, onde o pai passava o dia cuidando de pequenas plantações.
A vida seguiu por um bom tempo até que um dia o menino, àquela altura já um homem, sentiu-se só; com o passar dos anos, primeiro morrera a mãe, depois o pai, ele sozinho num sítio com seus velhos burrinhos e vacas. Na primeira oportunidade que surgiu, vendeu o sítio de porteira fechada, e foi embora pelo mundo sem olhar pra trás.
Para uma cidade como aquela, a inauguração de um hipódromo era coisa nunca sonhada; deu nova vida, veio gente de fora; proprietários, treinadores, jóqueis, cavalariços cuidando de cavalos que chegavam cercados de enorme curiosidade, verdadeiramente uma grande atração. Acabou-se a monotonia, vinha gente da redondeza e até de mais longe, pois em todos os domingos havia corridas, e passou a ser assunto para a cidade inteira; animação, mais dinheiro circulando, sucesso, progresso. Os meses foram se passando, e para manter o entusiasmo havia uma constante preocupação dos diretores do Clube com sorteios, festas e promoções de toda ordem.
Um dia chegou a cidade um circo, onde uma das atrações era uma apresentação sincronizada de cavalos persas, cada um com um penacho de cor diferente, e a movimentação era perfeita, harmônica, disciplinada, um verdadeiro bailado onde os seis protagonistas sabiam o que fazer com precisão. Era o número mais aplaudido. Foi daí que surgiu a ideia de um páreo no hipódromo, exclusivo para aqueles seis lindos cavalos.
Acertados os detalhes com o pessoal do circo, providências tomadas e muita propaganda, o hipódromo embandeirado, no dia da corrida houve superlotação; não cabia mais ninguém, a cidade inteira queria assistir. Os seis cavalos desfilaram no galope de apresentação, montados por jóqueis profissionais, com mantas numeradas, tudo como nos outros páreos, mas o problema era que os seis eram praticamente iguais, difícil distinguir um dos outros, como escolher um para apostar? O momento da largada estava chegando, e as dúvidas persistiam, escolha difícil, quase impossível.
Um homem assistiu o galope de apresentação debruçado na cerca da pista, olhando fixamente para os seis competidores, examinando-os atentamente. Ele era uma figura popular, apesar de novo na cidade; era um cantor de tangos, que se apresentava no único cabaré da cidade, e que só deixava de sorrir quando estava cantando, impressionando pela voz potente, pela vasta cabeleira e pelo espesso bigode preto. Terminado o galope, o cantor foi até o dono cabaré, que como todos na cidade estava no hipódromo, e dele tomou adiantado vários salários, todos os que conseguiu, dados de bom grado, pois o que o empresário mais queria era ter a garantia da permanência em cartaz daquela atração que tanto dinheiro lhe proporcionava.
Como era grande o público e todo mundo queria participar, o jogo foi muito bom e equilibrado, mas todos perceberam que o cantor de tangos apostara fortemente em um dos cavalos, todo dinheiro que dispunha e sem convicção.
A promoção foi coroada de êxito, o movimento de apostas e o entusiasmo do público ultrapassaram as melhores expectativas, compensou em muito o esforço da diretoria do Clube, apesar do páreo não ter despertado emoção em seu desenrolar, pois os cavalos largaram, correram e chegaram sempre nas mesmas posições.
Quem mais gostou foi o cantor de tangos, que ganhou um bom dinheiro, a ponto de despertar a curiosidade e até suspeita; teria havido alguma fraude, o cantor teria armado algum golpe, o páreo teria sido roubado? As desconfianças e os rumores chegaram à diretoria do Clube, que sabendo da necessária indispensável credibilidade nas corridas, acionou o delegado. O feliz acertador foi chamado para prestar declarações.
No dia e hora determinados, o cantor apresentou-se despreocupado, e colocou-se à disposição para quaisquer esclarecimentos. Riu gostosamente quando soube do motivo pelo qual fora chamado, e pedindo licença, passou a contar a história, de um menino, de um burrinho branco chamado Pachola e de uma vaca malhada de nome dengosa. Ele era aquele menino, que agora ganhava a vida como aprendera a gostar, viajando de cidade em cidade, vivendo de cantar. Quando ele soube do tal páreo para os seis persas que juntos trabalhavam no picadeiro do circo, ele viu da certeza de ganhar um dinheiro muito fácil. Assim como no caso dos burrinhos, que foram ensinados e acostumados a sempre respeitar Pachola, como no das vacas era a Dengosa que mostrava o caminho e ia sempre à frente, nos trabalhos dos seis persas havia, como não podia deixar de ser, um cavalo-guia, um que servia de base, de orientação para os outros; em todas as evoluções no picadeiro havia sempre a liderança de um mesmo cavalo, o melhor e mais adestrado, e os outros, por melhor competência que tivessem, sempre o respeitavam, o seguiam. O único problema para quem conhecera bem o Pachola e a Dengosa, seus jeitos e atitudes, era descobrir qual dos persas era o líder; mas bastaria assistir a um espetáculo.
Em hipótese alguma, quantas fossem as voltas a serem dadas na pista, nenhum dos cavalos persas se atrevia a ultrapassar o seu líder.
