Dizem que havia um homem muito bom, decente, trabalhador, que perdera todo o seu patrimônio em maus negócios, e resolvera se matar. Esperou a mulher e os filhos dormirem, e começou a beber para tomar coragem para o suicídio. Bebeu demais, dormiu, e sonhou com o Senhor, que lhe disse que ele era um homem bom, honesto, bom pai, e que por isso lhe seria dada a oportunidade de uma total recuperação financeira. Ele deveria no dia seguinte, que era um sábado, logo ao acordar, ir comprar jornal na banca da esquina, e que no seu exemplar, somente no seu, a página de turfe seria a de domingo, do dia seguinte, já com os resultados daquele sábado. Jogando em todos os páreos, já conhecedor dos resultados, o homem não só recuperaria tudo como ainda teria dinheiro suficiente para novos negócios.
Logo que acordou, com o sonho ainda na cabeça, o homem correu para a esquina, e lá estavam no seu jornal todos os resultados do programa que ia ser corrida à tarde. Arrecadou todo o dinheiro que conseguiu, e já no primeiro páreo jogou tudo; e assim fez daí em diante, recolhia e apostava tudo, e páreo a páreo ganhava mais. Os outros apostadores notaram que ele acertava sempre, e apareceu um careca, que logo se apresentou como um expert, e o aconselhou a parar de jogar, ou pelo menos tomar cuidado com seus palpites de principiante, apostar menos pois o risco de perder era grande. O homem seguiu apostando tudo páreo a páreo, e de quando em quando vinha o careca com seus conselhos. Quando ia ser corrido o último páreo, já era uma enorme quantia que ia ser apostada, no número 4; mas o careca discordou, era dinheiro a ser posto fora, pois o 7 era imperdível, muito melhor que a turma, ainda mais que o 4 não largava, era baldoso, se negava. O homem procurou de todas as formas se desvencilhar do careca, mas ele insistia, puxava pela camisa, não deixava o dinheirão ser apostado no 4; faltando meio minuto para o encerramento das apostas, desesperado, sob grande pressão, para se ver livre, o homem cedeu e apostou tudo no 7. Dada a partida, o 7 largou limpo e já foi tirando uma grande vantagem na frente, facilmente ia aumentando a diferença; enquanto isso, o 4 estava no partidor, parado, negava-se a partir. Quando o 4 finalmente largou, o 7 ia longe na frente; aos poucos o 4 foi diminuindo a diferença, na entrada da reta encostou no pelotão, que ia mais de 20 corpos atrás do número 7. Faltando cinquenta metros para a chegada, de repente, o 7 tropeçou e caiu, e o número 4, que passara para segundo, cruzou a linha de chegada na frente.
O homem enlouqueceu, nem com os resultados conhecidos antecipadamente ele acertara, jogara tudo fora, e o pior, não seguira a palavra do Senhor. Desesperado, saiu do prado para se atirar à frente de um ônibus, quando, num canto, atrás de uns eucaliptos, ele viu aquela figura que lhe parecera um sonho. Atirou-se aos seus pés, abraçou-lhe as pernas, e chorando implorou perdão; foi quando sentiu que uma lágrima caíra-lhe na testa; olhou para cima, e o Senhor, com as lágrimas a escorrer pelo rosto, e aos soluços, disse: “Não precisa explicar, Eu compreendo meu filho. Eu também encontrei o careca”.
É difícil acertar nas corridas.
