Técnica de Venda, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Técnica de Venda, por Milton Lodi

Ninguém entendia como ou porque, mas a verdade era que aquele criador, que anualmente vendia toda a sua produção no próprio haras, em meio a concorridos churrascos, sempre obtinha resultados acima dos esperados. Se isso acontecesse em um ou outro ano, mesmo não merecendo, vá lá, mas não ano após ano, independentemente de sucesso ou não de seus potros nas pistas, seus preços ultrapassavam as expectativas gerais, conseguia preço médio mais alto do que deveria ser.

Os grandes haras, aqueles que recebiam os maiores investimentos, de sangues nobres ou mesmo de dinheiro, sofriam a oscilação normal do mercado de compra e venda, nem sempre obtendo uma contrapartida financeira compensatória aos custos, mas com aquele criador nada disso acontecia, na hora do leilão os compradores pareciam como que encantados, eram tomados de especial entusiasmo nas suas ofertas. Enquanto os potros se apresentavam, grandes e irrequietos, os lances se sucediam.

O mistério foi espicaçando a curiosidade de todos, principalmente, o interesse dos outros criadores, e a pedidos as agências promotoras de leilões estudaram o fenômeno, assistiram através os anos aquela anomalia, e não chegaram a nenhuma conclusão, pois os pedigrees não eram especiais, os potros também não, o churrasco não era diferente dos habituais, as bebidas eram honestas, o ambiente de apresentação desprovido de requintes, simpáticos como aquele vendedor havia muitos.

Os anos se passaram, os acontecimentos seguiram se repetindo, os potros sempre impressionando pelo porte e pela vivacidade, os preços acima, até que um dia o tal criador resolveu liquidar todo o seu plantel. Foi uma grande festa, um suculento churrasco, compareceram muitos amigos, turfistas, criadores e proprietários de um modo geral, e o que era hábito surpreendentemente não aconteceu, os animais não impressionaram bem os interessados, os preços ficaram aquém dos alvitrados, logo num leilão de liquidação, quando tradicionalmente há maior interesse dos compradores.

À noite, encerrada a festa, o velho criador tomava uma última bebidinha, esticado em uma rede na varanda da sede, rememorando os muitos leilões que promovera através dos anos, relembrando os detalhes daquele dia cansativo, sentindo um vazio que ficara após o arremate do último ofertado. Nas cocheiras só restavam uns poucos que não haviam sido levados pelos seus novos donos, junto às grelhas ainda quentes os empregados se banqueteavam com a muita carne que sobrara, alguém aparecera com uma viola e cantava modinhas caipiras.

Foi nesse ambiente e momento de paz que o neto, já rapazinho e que acompanhara o avô nos últimos anos, perguntou se a liquidação não viera cedo, as éguas do haras ainda estavam produzindo conforme esperado, os garanhões não eram velhos, os potros mantinham o padrão a cada ano, os compradores sempre compareciam, os preços se mantinham bons, não havia a perspectiva da necessidade ou do interesse em vender a propriedade, por que interromper uma atividade prazerosa, que ia bem, sem problemas?

O velho tomou mais um gole, olhou bem para o neto, e disse que já estava na hora dele compartilhar o seu segredo com alguém, e ninguém era mais indicado do que o próprio neto, bom companheiro.

Ele então contou que quando chegara o momento de oferecer a sua primeira fornada de potros, verificara de um desastre iminente, pois os seus produtos não eram tão grandes e perfeitos quanto os dos bons criadores, que com suas vivências sabiam como tentar corrigir o que não estava bem, como melhor criar, como procurar atingir padrão satisfatório, e os potros dele eram na verdade inferiores, certamente não iam conseguir preços bons. Havia que ser feita alguma coisa, mas como aumentar o tamanho dos potros e corrigir os defeitos de aprumos, já em cima de leilão? Pelo menos gordos os potros estavam, e isso era bom, pois através os tempos, os compradores de cavalos de corrida parecem açougueiros, gostam de cavalos grandes e pesados (um potro de 1,65 metros e 500 kg é vendido com mais facilidade do que outro, mesmo com melhor pedigree, que tinha 1,60 metros e pese 400 kg), mas era pouco.

Os potros dos outros criadores levavam vantagem, não só pela tradição de seus haras como pelo maior porte e perfeição de aprumos, e ainda mais, muitos já se apresentavam domados, com os respectivos custos e riscos já ultrapassados. O que fazer?

Na véspera do leilão, já ao escurecer, estava ele sentado nos degraus da varanda, procurando uma saída, aflito com a situação pré-catastrófica, sentindo-se só e perdido, quando sua atenção foi chamada por repetidos latidos que se aproximavam. Era um empregado que todos conheciam por Meio Quilo e que vinha acompanhado pelo seu vira-lata Buscapé, sempre barulhento e agitado, retornando do povoado onde fora fazer compras. E foi nesse momento que, como que atingida por um raio atirado pelas mãos do Senhor, na sua cabeça explodiu uma solução.

No dia seguinte, providencias tomadas, os visitantes recebidos com um simpático churrasco, o desfile e leilão dos potros foi um sucesso.

Enquanto Meio Quilo apresentava os potros, que junto dele ficavam maiores e mais possantes, o Buscapé perto mas amarrado em um moirão latia sem parar, correndo de um lado para o outro até o limite da corda que o prendia, procurando se soltar, e seu barulho e agitação incessantes, e as suas ameaças, irritavam e intimidavam os potros, de olhos arregalados e orelhas em riste, que por isso não paravam quietos, relinchavam, sapateavam, movimentavam-se, sem dar chance a maiores exames.

Através os anos, o Meio Quilo e o Buscapé resolveram o problema, mas agora o anão envelhecera, tinha reumatismo, as pernas não ajudavam, não tinha mais condições de segurar e conduzir os potros, e o vira-lata morrera, atropelado por um caminhão quando latia e corria na estrada.

Sem o Meio Quilo e o Buscapé, a solução tinha sido a liquidação.

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