A Dama de Preto, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

A Dama de Preto, por Milton Lodi

Desde menino ele tinha sido bom estudante, e fizera um curso superior com muita dedicação; instruído e batalhador, logo alcançara sucesso à base de seus conhecimentos e de um sempre elogiado poder de argumentação. Frequentando bons ambientes, criara um largo círculo de amigos, que como ele gostavam de bebericar à noite, sempre bem acompanhados. Tradicionalmente, à noite de 24 de dezembro havia uma ceia de Natal na sua casa de campo, quando ele prazerosamente recebia seus amigos e mulheres bonitas, cheirosas e bem vestidas. Era sempre uma festa alegre, com muita música e bebida. O sucesso era uma tônica em sua vida, e ele estava de bem com ela.

Uma noite, porém, após uma daquelas ceias de Natal tão concorridas e agradáveis, em vez do habitual sono tranquilo e sem sonhos, viera um pesadelo. Aparecera uma figura encapuzada, com rosto encoberto, envolta em pesado e esvoaçante manto negro, e trazendo à mão uma foice. Sem rodeios, a Dama de Preto logo disse que no ano seguinte, naquela mesma data, ela voltaria para levar o Boneco.

O homem acordou assustado, não costumava ter pesadelos, e de repente o aviso de uma desgraça. Tomou um calmante, procurou tirar o problema da cabeça, e voltou a dormir. A Dama de Preto não custou a reaparecer, e reiterou que exatamente dali um ano, viria buscar seu cavalo predileto, o único que dormia em cocheira, tratado como merecia. Boneco era lindo, manso, macio e fazia parte dos grandes prazeres da vida do seu dono. O homem tentou argumentar com aquela figura macabra, lembrando de sua vida limpa, de trabalho, de esforço, tudo que ele tinha era fruto de suor, que pelo menos ela levasse o outro cavalo do sítio, já velho e de condições físicas precárias, mas o Boneco não, era o melhor, o mais bonito, o mais cobiçado, o mais valioso, o que dava mais prazer. Esgotou todos os seus muitos argumentos dizendo que se era para levar um, tanto fazia, para ela um ou outro, mas para ele não.

A Dama de Preto, sempre com a foice à mão, pacientemente ouviu calada as palavras do brilhante advogado, e quando ele terminou, respondeu que consultara a sua agenda para o ano seguinte, e estava lá, ela estaria de plantão naquela data, e aquele serviço já havia sido determinado pelo Patrão. O homem estranhou, como de plantão? A Dama de Preto não trabalhava ininterruptamente todos os dias e noites, sem descanso? Ela então esclareceu que havia um rodízio, cada dia a Dama de Preto era praticada por um, que daquela maneira pagava um pouco dos seus pecados, até o dia que o Patrão entendesse que a provação já tinha sido suficiente, quando então sairia um do sacrificante rodízio e seria substituído por outro. Para ele, aquelas tarefas junto aos cavalos eram muito penosas, pois havia sido um turfista daqueles que gostavam de assistir todos os páreos de todos os programas, que adorava o burburinho das corridas, a incerteza dos resultados apesar da constante procura de informações e dos apaixonantes estudos das chances de cada um, que conhecia praticamente todos os cavalos que corriam, que participavam dos programas, na verdade, os cavalos tinham feito parte da vida dele, e era com grande tristeza que recebia ordens como aquela que motivara o seu surgimento no pesadelo. No caso específico dele, ainda havia muito trabalho a ser feito antes da eventual substituição, sua agenda mostrava turnos de serviços intensos. À noite de 24 de dezembro do ano seguinte ele estaria de plantão, e na função da Dama de Preto caberia promover o descanso eterno do Boneco. O homem tentou ainda argumentar, pediu para que ela procurasse sensibilizar o Patrão, quem sabe se na incomensurável bondade dele haveria um perdão, um lugar para uma troca, uma alteração da determinação? A figura da Dama de Preto começou a ser envolvida por uma densa cortina de fumaça, foi desaparecendo, e sua voz cavernosa não mais se fez ouvir.

O homem, no dia seguinte, riu do pesadelo, onde já se viu um sonho daqueles, a vida era na maior parte das vezes interrompida sem aviso, imagine as pessoas saberem com um ano de antecedência que ocorreria determinada morte? E logo esqueceu aquela má noite. Mas à noite no dia 24 de janeiro voltou a Dama de Preto em novo mau sonho, e repetiu o aviso. Mais argumentos, mais pedidos e apelos, que de nada adiantaram, a ordem do patrão havia sido mantida, pois havia que haver mortes para dar lugar a novas vidas, e as escolhas eram definitivas. E assim, mês a mês às noites de 24, tudo se repetia.

À noite de 24 de novembro, então faltando um mês, o homem se desesperou, havia onze meses, e em todas às vezes discutira e argumentara, havia até implorado, mas nada adiantara, ordem era ordem. No dia seguinte foi ver Boneco com o carinho habitual. Na verdade ele não era só mais bonito que o outro, como também o seu aspecto era muito melhor em função de especial trato, e ele se destacava. Num lampejo, veio uma ideia, chamou o empregado, que pasmo ouviu a ordem para que o Boneco fosse largado no pastinho junto à cocheira, sem ferraduras, sem comida, sem escova, nada, largado ao sol e à chuva, noite e dia, só comendo o pouco capim que pudesse encontrar, que ficasse sujo, magro e feio, de topete crina de rabo raspados. Ele trocaria de lugar com o outro, o velho, que passaria para a cocheira, seria ferrado, escovado duas vezes ao dia, a crina e o rabo penteados com esmero, os cascos engraxados, e entupido de ração para engordar até onde desse. E ao entardecer do dia 24 de dezembro, o homem foi lá conferir e ficou satisfeito com o que viu, o cavalo velho estava dentro do box, com bom aspecto, absolutamente não aparentava a idade que tinha, o pelo estava luzidio, os olhos atentos, uma beleza, e no pastinho ao lado o Boneco, perdera o viço, o brilho, emagrecera, estava irreconhecível. Satisfeito, certo do bom resultado, o homem foi se preparar para receber os seus convidados, que não tardariam. A festa foi animada, a música alegre, as mulheres bonitas, champagne, risos, felicidade, foi isso que a Dama de Preto viu da escuridão do jardim através dos vidros das janelas. Sentiu um pingo de inveja , quando vivo não tinha tido a oportunidade de participar de uma reunião tão requintada, alegre e feliz, mas o homem era bom, merecia, tinha uma linha de conduta voltada para o bem, o sucesso era consequência de seu trabalho. A Dama de Preto deixou-se ali por uns instantes, a ideia da troca alvitrada pelo homem era inteligente, não alteraria praticamente nada, seria apenas uma substituição, e o resultado traria tanta satisfação. Mas se o Patrão se zangasse, e lhe desse mais alguns séculos de plantões no rodízio? Não dava para arriscar.

Ordens eram ordens. Colocou a foice nos ombros, deu uma olhada pela janela, e encaminhou-se para cumprir sua missão. Chegou à cocheira, deparou-se com aquele cavalo gordo e bem tratado, olhou para o pastinho do lado, e viu o outro magro e cabisbaixo, e tomou uma decisão.

O Patrão não erra.

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