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Política e Administração, por Milton Lodi

Há uns tantos anos, recebi um telefonema de um sócio do Jockey Club do Rio Grande do Sul, que fazia parte do grupo diretivo. Ele queria saber a minha opinião a respeito da diretriz tomada por Vecchio e Felizzola, no sentido de não promover a instalação de um moderno Centro de Treinamento para a cavalhada do clube, distante do prado no máximo de uns 100 km. Em lugar disso, a opção seria uma nova vila hípica no próprio Cristal. No entender dele, o Centro de Treinamento seria um passo para a modernidade, e a diretriz adotada, apenas boa melhoria. Respondi que eu não estava habilitado a emitir opinião, já que não conhecia detalhes, mas que Vecchio e Felizzola tinham bom senso, estavam recuperando o JCRS e que teriam razões suficientes para a decisão tomada. Depois daquele telefonema, na primeira vez que encontrei o Presidente José Vecchio Filho a ele contei do telefonema e perguntei do assunto. Ele me disse que o Clube não tinha nenhuma área para, no limite de 100 km, construir o tal Centro de Treinamento, e que havia ainda dois inconvenientes importantes. Um seria a necessidade de endividar o JCRS para comprar uma área satisfatória e ainda implantar uma modelar vila hípica, e ainda que esse procedimento afastaria os proprietários do convívio com os seus cavalos, pois, em lugar de uma possível frequência até diária, haveria o obstáculo da distância. Na opinião do Vecchio, a frequência dos proprietários nas cocheiras era fundamental, mantendo e incentivando o natural interesse.

O resultado do acerto da orientação evidencía-se a cada dia. O clube não se endividou, está em dia com os seus compromissos, está em fase terminal de grandes obras nas pistas, está em fase inicial da implantação de uma nova e moderna vila hípica, para cerca de 1.000 cavalos, e mantendo os proprietários próximos dos cavalos.

Na prática, com o prado remodelado e as finanças equilibradas, e ainda com o próximo recebimento de duas torres comerciais, tudo indica um futuro risonho para o JCRS. Aliás, essa é a opinião da quase totalidade dos turfistas gaúchos, que após dois mandatos da parceria Vecchio-Felizzola, por impedimento estatutário, Vecchio está impedido de novamente se reeleger Presidente, passando então o primeiro posto para o seu parceiro Felizzola e indo para a Vice-Presidencia ou a Presidência do Conselho. O JCRS navega em mar tranquilo, com o timão em mãos adequadas e competentes. O que poderia ser criticado seria, como ocorre nos outros dois clubes importantes, é a baixíssima distribuição dos prêmios, por todos, inclusive pelos próprios dirigentes, entendidos como completamente defasados, ridículos até. Mas não adianta reclamar, essa é uma situação de fato, e como a administração do turfe gaúcho é por todos aplaudida, superando os naturais problemas do dia-a-dia, há apenas que haver paciência.

 

No Jockey Club de São Paulo, premido por ameaças de execuções inclusive por Entidades Governamentais, a linha administrativa teve que se encaminhar para soluções mais contundentes. Com o clube arrasado financeiramente por sucessivas diretorias incompetentes e inadequadas, com uma manutenção precária das vilas hípicas, com imóveis obsoletos e sem utilidades mas com custos de manutenção, com dívidas se acumulando e em processos judiciais, com os prêmios na metade do que seria necessário, e ainda sem dinheiro, a diretriz tomada foi o enfrentamento dos compromissos para manter o clube vivo, em funcionamento. Apenas como um exemplo, como a Chácara do Ferreira ocupa uma grande área e estava fechada havia mais de 30 anos, a Prefeitura de São Paulo resolveu desapropriá-la. Era o poder maior, do interesse geral, sobre o de um clube. É um direito legal. O JCSP teve que entregar a área, e aguarda o recebimento do valor da transação. A iniciativa partiu do órgão público, sem direito de negativa, e veio ao encontro do interesse do clube. A situação encontrada pela atual Diretoria, que após os primeiros três anos de mandato foi reeleita por aclamação, era de um Rei semi-nú sentado em um trono de ouro. Hoje o clube já reduziu a dívida encontrada em 80%, restando pois 20% a serem normalizadas. As dotações continuam baixíssimas, mas isso é uma questão de tempo. Assim, também aconteceu com o JCRS, à situação atual do JCSP é bem melhor do que no início do primeiro mandato.

 

No Jockey Club Brasileiro, a única dívida, aliás muito grande, referente a uma cobrança ilegal de ISS sobre as apostas, mas que está monitorada e sendo julgada pelo Supremo Tribunal Federal, e já conta com um parecer favorável. A rigor, só há dois problemas maiores. Um deles é representado pelo Mausoléu do Turfe, a antiga sede social no centro da cidade, que obsoleta, inativa e carente de uma solução, tiveram o seu destino altamente favorável obstaculado por uma pequena parte do quadro social, composta pelos habituais e tradicionais “reclamadores de plantão”. Essa pequena minoria, que almeja mandar no clube, se manifesta de modo equivocado. Em lugar de uma solicitação por escrito à Presidência, solicitando reuniões com os sócios a cada 3 ou 4 meses, para conhecimento e informações sobre a vida da Entidade, e/ou formar um grupo de cerca de 77 sócios e compor uma chapa para concorrer às eleições, de forma democrática, legal e estatutariamente candidatando-se à administração do clube, em lugar disso, asperamente critica a Diretoria, no que conta com o apoio de uma minoria dos sócios frequentadores do tal clubinho da lagoa, que são altamente beneficiados por um clube cuja existência maior é para promover corridas de cavalos. Os “reclamadores de plantão” e os altamente beneficiados frequentadores das áreas de lazer em nada ajudam o clube. O outro importante problema é representado pelos mesmos problemas dos outros dois clubes, isto é, os prêmios ridículos.

Não sou economista nem entendo de altas finanças, mas estar em dia com os compromissos e ter algum dinheiro em caixa não me parece representar equilíbrio. Em um clube que tem por finalidade maior a promoção de corridas de cavalos, o equilíbrio seria representado por um setor turfístico em boa situação, inclusive com prêmios compatíveis, e os outros setores nas melhores condições que fossem possíveis. Em um clube de corridas, com uma sede gigantesca paralisada pelos votos dos reclamadores habituais, com um clubinho com um excesso de vantagens, e com o problema dos prêmios ridículos, não vejo o almejado equilíbrio do clube Só no papel, não na prática de um clube de corridas.

 

Mas não há que desanimar, o JCRS está em sucessos progressivos, o JCSP já com 80% das dívidas para trás, e o JCB liderando o turfe brasileiro e tendo dado mesmo uma pálida mas efetiva prova de que está imbuído da necessidade de dobrar as dotações.

O problema maior é o reflexo da situação geral nacional turfístico. A cada ano menos potros nascem em nosso país. Os sucessivos leilões não estão dando conta de parte das muitas ofertas, e com queda nos preços. Em geral, em resumo, está faltando combustível na atividade, em outras palavras, está faltando dinheiro, os criadores maiores encontram dificuldades em renovar os seus plantéis, os criadores menores estão cada vez com mais medo de investir. Enquanto não chegarem mais recursos, há que encaminhar melhor os dinheiros para o setor do turfe. Melhorar o Código Nacional de Corridas, o Regulamento dos páreos de claiming, o do abominável “Added”, do plano de apostas, enfim, melhorar tudo que é possível enquanto o turfe não recebe o que merece e necessita.

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