Iniciação e mordedores, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Iniciação e mordedores, por Milton Lodi

Se não me falha a memória, Mahú era o nome dele. Era um cavalo mordedor, pior que um cachorro, estava sempre procurando morder alguém. Essa mania começou cedo, já montado de repente virava a cabeça para um lado para morder a perna do cavaleiro. Para tentar administrar o problema, já que todas as tentativas para coibir o problema, já que todas as tentativas para coibir o problema mostraram-se infrutíferas, foi providenciada uma “biqueira”, uma focinheira de ferro gradeada que impedia a boca do Mahú morder. Essa focinheira era colocada de forma que era acoplada na cabeça, permitindo sem problemas o uso do freio e das rédeas. A tal biqueira fazia parte da cabeçada. No seu box, Mahú sempre ficava de cabresto, de bucal, para possibilitar ao empregado pegá-lo com risco menor. Muitas vezes o empregado alcançava o cabresto com um gancho que ia à ponta de uma vara, para depois de “preso”, ser colocada a tal focinheira de ferro gradeada. Mahú fazia campanha em São Paulo, e um dia foi correr na Gávea. Todos os jóqueis e treinadores sabiam do mau caráter do Mahú, e antes da largada, já no partidor (que era de fitas, ainda não havia o partidor moderno), os competidores se movimentavam longe do alcance da fera. De repente, sem qualquer sinal de aviso, Mahú conseguiu derrubar o seu jóquei, que caiu com as rédeas e a cabeçada nas mãos. Mahú ficou solto com apenas o selim. Quando o jóquei se levantou, viu que Mahú ia em direção a ele, de orelhas murchas, o jóquei só teve de entrar rapidamente na ambulância, estacionada na raia. Mahú chegou perto da ambulância, viu todos os outros cavalos e jóqueis se afastando, e decidiu voltar a galope para o padoque. Lá chegando, ficou quieto, imóvel. Logo apareceram uns cavalariços, tentando pegar o cavalo com cabrestos de cordas longas. Foi quando apareceu o treinador Henrique de Souza, um veterano paranaense radicado havia muitos anos na Gávea, grande amigo de Luiz Rigoni, Olívio Macedo, Adão Ribas, Salomão Ferreira e outros jóqueis paranaenses radicados na Gávea. Quase sempre de terno branco, Henrique de Souza pediu calma, e dirigiu-se ao Mahú, que já estava com uma corda com cabresto no pescoço, atirada por um cavalariço. Henrique de Souza disse que o caso era de carinho, nada de violências. Com o cavalo quieto, ele colocou o cabresto na cabeça do Mahú, segurou na corda e perguntou quem era o cavalariço daquele cavalo. Foi quando Mahú, violentamente, deu-lhe uma mordida em uma das mãos, arrancando-lhe com uma dentada três dedos. Depois disso, Mahú voltou a usar permanentemente a biqueira de ferro gradeada, e Henrique de Souza a ter só dois dedos em uma das mãos. Henrique de Souza continuou treinando na Gávea por muitos anos, e de Mahú eu não tive mais noticias.

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Não foi só Henrique de Souza vítima de dentadas. O inesquecível Ernani de Freitas, o treinador como o maior número de vitórias em toda a história do turfe brasileiro, com mais de 3.400 vitórias (o segundo é Alcides Morales, com aproximadamente 2.950), também deu um dedo, por mordida do excelente Formasterus (foto).

A Baronesa Von Leithner importou para o seu haras o cavalo IDAHO. O cavalo passou uns dias em Cidades Jardim antes de seguir para o haras. Naqueles dias, mordeu violentamente o braço do cavalariço, machucando-o bastante. A Baronesa logo o vendeu pela melhor oferta, para um haras menor em São Carlos, interior paulista, inteligentemente livrando-se de um permanente pesadelo.

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Em outra época, foi levado para Bagé um cavalo argentino grande, forte que havia tido um série de ótimas performances na Europa, depois de ter sido tetra- coroado na Argentina. Chamava-se Telescópio,(foto) e segundo o que se dizia à época, Telescópio já havia arrancado dedos de três cavalariços.

Mas essa mania de morder é de uma minoria, muitas vezes de maus tratos no manejo e nas domas.Ainda em outra época, foram importados para o Brasil três filhos de Exclusive Native para a reprodução. Um deles o de tamanho menor foi um bom garanhão para o Haras Lorolú. Exile King deu muita coisa boa. O outro foi o grande pai e avô materno e paterno, Roi Normand. O terceiro, o Mahú, chamava-se Exclusive One, era do Haras Simpatia. Fui conhecê-lo em Bagé, quando de um intenso inverno. Lá soube que na véspera, de dentro do box, mas com a parte superior aberta, a janela, ele havia pegado um cavalariço, que passava, pelo ombro, e tentou puxá-lo para dentro do box. Como era um inverno rigoroso, o cavalariço estava bem agasalhado e com um paletó grosso, e foi em um ombro bem protegido que o ataque não deu resultado. Muita violência e muita força.

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