Luciano Pomar, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Luciano Pomar, por Milton Lodi

Conheci o Dr. José Paulino Nogueira, do Haras Bela Esperança, quando o meu pai, que era então só um proprietário, lá ia comprar potros.

O comprador preferencial, o Dr. José Buarque de Macedo, entendeu de encerrar as suas atividades turfísticas, e o meu pai ocupou aquela privilegiada posição de ser o primeiro comprador a anualmente lá ir escolher os produtos das novas gerações. Sempre que possível eu acompanhava o meu pai, e a figura solitária do Dr. Paulino, com a sua sabedoria, me fascinava. O grande criador morava em uma bela e confortável casa no haras. Homem de fina educação, o Dr. Paulino era um fidalgo, e as suas boas origens e um comportamento de alta sociabilidade encobriam um gênio forte, às vezes até violento. Certamente era um homem com amarguras, mas o amor aos cavalos e seus profundos conhecimentos da parte de criar cavalos, em parte decorrentes de seus conhecimentos amigáveis com Don Juan Amoroso, do uruguaio Haras Casupá, compunham uma figura humana diferente. No início de sua vida de criador, em suas idas ao Uruguai, conheceu um homem da melhor qualidade, da mesma faixa de idade, e se tornaram amigos, juntos frequentando a vida noturna de Montevidéu. Outros turfistas que foram aprender a arte de criar cavalos com a titular do Haras Casupá, entendido com o Tesio sul-americano, como por exemplo, os irmãos Nelson e Roberto Seabra. Mas, o tempo foi passando, a época já era outra, o amigo Luciano Pomar ficou pelo Uruguai, e José Paulino, instalado no seu lindo haras, vivia sozinho, sempre lendo as melhores publicações do turfe mundial, como a British Race Horse e a Courses & Elevage, José Paulino Nogueira orientou o meu pai na implantação do Haras Ipiranga, com a assessoria do Capitão Bela Wodianer, o melhor homem de cavalos que conheci. Húngaro de nascimento e assessor técnico da Comissão de Fomento de Jockey Club de São Paulo. Em Janeiro de 1956, já com o Ipiranga implantado e em início de produção, o meu pai morreu em acidente de automóvel.

Coube a mim continuar com o que ele havia tão brilhantemente iniciado, com uma linda propriedade, detalhes técnicos os mais avançados à época, e um bom lote de éguas, inclusive importadas das melhores procedências. Continuei a frequentar o Bela Esperança, já aquela altura tendo José Paulino Nogueira como meu padrinho de casamento. E foi naquela época que conheci Luciano Pomar, o tal amigo de muitos anos do Dr. Paulino. Com o passar dos anos, ele ficou em situação desconfortável, econômica e financeiramente falando, e após anos, foi de Montevidéu para São Paulo, precisamente no Haras Bela Esperança, disse que pretendia fixar-se no Brasil, na área da criação. O encontro terminou com a contratação de Luciano como chefe geral do Bela Esperança. Luciano era um homem equilibrado, sabia como se comportar, morava sozinho em uma das casas dos colonos, e nunca se aproveitando da íntima amizade com o seu então patrão. Luciano inclusive era o parteiro, ele conhecia muito bem a sua profissão. Á noite, quando uma égua dava sinais de dar cria, o vigia noturno batia na janela do quarto em que ele dormia, e lá ia o Luciano fazer o parto. Um dia, ele procurou o Dr. Paulino, para dizer que ele estava muito aborrecido com ele mesmo. Naquela noite, uma égua dera cria sozinha, sem a assistência dele. Como ele era completamente surdo de um ouvido, e tendo dormindo sobre o ouvido bom, não tinha atendido aos insistentes chamados do vigia noturno. O produto nascerá sem problemas, estava tudo bem, mas ele, com medo de que o incidente se repetisse, estudara uma solução, que logo colocou em prática. Foi falar com o turfista do haras, que tinha uma filha de evidente melhor padrão do que as outras moradoras no haras, e pediu ao empregado para namorar a filha. A diferença de idade era grande, mas era uma boa moça, que entendia da oportunidade de viver uma vida melhor. Em poucos meses Luciano estava casado, e a esposa encarregada de acorda-lo quando chamado pelo vigia noturno. Foi o único caso em minha vida que conheci uma mulher despertador.

O novo casal foi muito feliz, tiveram uma menina que só deu prazeres aos pais.

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