Edmundo Pires de Oliveira foi um dos homens mais bondosos e amigos que eu conheci. Na vida diária ele era o dono, ou um dos donos de um importante laboratório, e sempre dava parte do seu tempo ao turfe. Era criador e proprietário, foi vice-presidente da Sociedade de Criadores e Proprietários de São Paulo, presidente da comissão de fomento do Jockey Club de São Paulo, e veio a morrer quando presidente da Comissão de Corridas. Sempre de bom humor, afetuoso com todos, obteve sucesso com seu Haras Morro Grande, que ficava como vários outros, nas terras do Posto de Fomento Agropecuário do Jockey Club de São Paulo. Entre as suas principais características bondade, amizade, bom senso, compreensão e companheirismo, ele era amigo muito chegado ao Mário Ribeiro Nunes Galvão, Haras Maringá, também situado no Posto de Monta. O nome Maringá foi uma combinação do nome do Mário. MA (de Mário), RI (de Ribeiro), N (de Nunes) e GA (de Galvão). Mário foi presidente da Sociedade de Criadores e Proprietários de São Paulo, de várias Comissões do JCSP e chegou a Presidente do JCSP.
Em sua vida profissional, Mário era um dos donos da Bardhal, empresa fabricante de óleo para automóveis, caminhões, tratores, aviões e até para tanques de guerra. O Maringá teve vários haras, isto é, trocou várias vezes de local. Começou em Itatiba/Atibaia, foi para o Posto de Campinas, depois para o Paraná e terminou em Cesário Lange. Quando no Posto, um pequeno mas muito arrumado haras, importou da Inglaterra, de sociedade com o Haras Morro Grande, um lindo alazão, de frente aberta e calçado alto das quatro, de nome Golden Swan. Em anterior recente época um grupo de paulistas havia importado um filho de Aureole (Ganhador do Derby de Epsom) e Secret Session, por Court Martial. O garanhão ficou sediado em São Paulo, e teve grande sucesso. Entre os muitos bons filhos de Millenium podem ser lembrados Earp (Haras Castelo) e Pallazzi (Haras Santa Maria de Araras). O tal Golden Swan não apresentava um bom padrão de corridas, mas era filho de Crepello na Secret Session, e o Edmundo e o Mário apostaram no pedigree e na exuberância da beleza do importado. Antes do início da primeira estação de monta, eu fui convidado pelos dois proprietários a ir ao Maringá conhecer o novo garanhão. Era na verdade um lindo cavalo. Os dois me disseram que iria haver uma sobra de coberturas, o Morro Grande e o Maringá não encheriam a carta de monta, e me ofereceram 1/3 do cavalo. Eu não pude recusar, apesar de eu ter no Ipiranga, que ficava a 25 km de distancia, uma grande sobra de coberturas, pois na época eu tinha 5 ou 6 garanhões. Comprei o meu terço, e resolvi não cobrir naquela primeira estação, eu não tinha pressa e gostaria de ver os produtos daquela primeira geração. Tanto o Morro Grande como o Maringá eram bem conhecidos e houve uma natural curiosidade.
Golden Swan passou a ser, naquele momento, um ponto de interesse e curiosidade, e acabou que eu dei de presente para alguns criadores, cinco se não me falhe a memória, para amigos. Terminada a estação de monta, o Edmundo e o Mário que eram também muito amigos, me disseram que eu não havia aproveitado do meu terço, havia cedido gratuitamente coberturas a amigos. Eles haviam me proposto à venda de 1/3 do cavalo por dois motivos principais, que foram: dar ao cavalo as maiores chances possíveis com o maior número de éguas, mas sem uma diversidade de procedências, o que ocasiona um esquema de filtragem veterinária que o Maringá não tinha, além do que o conhecido alto padrão das éguas do Ipiranga seria um ponto forte na promoção do cavalo. Em um clima que não podia ser mais cordial, fiz ver a eles que, contando com garanhões próprios e já conhecedor das qualidades individuais deles, não havia cabimento, antes de conhecer das qualidades do Golden Swan, substituir o certo pelo desconhecido. O agradável encontro terminou com a compra, pelo Morro Grande e pelo Maringá, do meu terço no cavalo, pelo mesmo valor da minha compra. Eu tive sorte, Golden Swan foi um estrondoso fracasso, não deu nada de algum valor.
Bem dizia o saudoso e incomparável Capitão Bela Wodianer, “comprar o bom, e não o irmão do bom”.
