Em 1938, então com 8 anos de idade, assisti o meu primeiro Grande Prêmio Brasil, que foi vencido em raia muito encharcada pelo argentino Pêndulo, um alazão. Grama pesadíssima, tudo molhado, muitos apaixonados, inclusive eu, lotavam o Hipódromo da Gávea. Foi o meu primeiro passo no turfe, no qual permaneço até hoje. Comecei a frequentar as corridas dentro do possível, pois só podia ir com o meu pai, o que nem sempre acontecia. Entre 1940 e 1945, o meu pai começou a comprar potros e animais em treinamento. O primeiro potro foi Banco, um filho de Denbigh de criação do Haras Maranguape e Fiara uma potranca magrela de criação do Mondesir, que foram discretos, mas ganhadores.
Entre os animais já em carreira, compras em leilões e também em função de ofertas. Dileto, do Mondesir, Ponta Grossa (que no Paraná correra com o nome de Fio D’Água, Palinódia, de um velho turfista que em função da idade estava abandonando o turfe, e daí em diante vieram os três tradicionais importadores de corredores argentinos e uruguaios, os gaúchos Atílio Irulegui (um gentleman, um dos grandes conhecedores da época), Oswaldo Gomes Camisa (sempre de terno branco, gravatinha borboleta e um charuto), e Atílio Loss Tedesco (o menos atuante na Gávea, à época). O meu pai deu-se muito bem com as sucessivas compras de fêmeas argentinas, com Matemática (Cartaginés e Metáfora), Sunburnt, Presteza, Consultiva, Viúva Alegre, Tintilla, Sorbona, Gortiza, a ótima uruguaia Bakelita e muitas outras. Quando entre 1945 e 1950, o meu pai iniciou a implantação do Haras Ipiranga, algumas daquelas importadas já não estavam mais, mas outras chegariam a fazer parte do plantel, reforçado por boas corredoras nacionais, e éguas francesas e italianas. Em janeiro de 1956, tudo isso caiu em minhas mãos, assim como os garanhões italianos Destino, Mandello, Minotauro e Four Hills, os franceses Fairy King e Flamboyant de Fresnay, o irlandês Kameran Khan e o nacional Manguarí. Durante os primeiros cinco anos, os mais difíceis, o meu pai teve todos os méritos, e com a morte dele coube a mim administrar e usufruir dos investimentos, orientando-me sempre que possível do melhor homem de cavalos que conheci e trabalhou para a Comissão de Fomento do Jockey Club de São Paulo e para mim, o excepcional cavaleiro húngaro, herói de guerra, o Capitão Bela Wodianer. Ao longo dos mais de cinqüenta anos, coube a mim a maravilhosa incumbência de viver intensamente de uma atividade gloriosa, difícil e complexa, mas altamente satisfatória. Passar a vida no maravilhoso mundo dos cavalos de corrida, é um grande privilégio.
Hoje em dia, e já de algum tempo, os criadores enfrentam cada vez mais a concorrência das indústrias e de outras atividades, que vão buscar mão de obra nos haras, quase sempre oferecendo salários e vantagens que a criação de cavalos não pode enfrentar. Naturalmente, os melhores homens, os mais capazes vão aos poucos deixando a criação. É claro que estou me referindo aos haras que cada vez ficam mais próximos das cidades. São Paulo, por exemplo, é a maior vítima, Paraná também, mas menos e o Rio Grande do Sul leva a vantagem de serem as suas melhores terras as que mais distam de Porto Alegre. Mas nas décadas de 40, 50, 60, 70, 80 e ainda 90, podia-se criar no Estado de São Paulo com relativa tranquilidade, apesar de que, cada vez mais ao longo do tempo, muitos haras foram sendo assaltados e saqueados como, por exemplo, o Torrão de Ouro, o Guayçara, o Ipiranga, e vários outros.
Mas antes dessa fase, podia-se contar com gente qualificada e confiável. Os recursos técnicos eram outros, como também os conceitos quanto à arraçoamento, manejo, iniciação em picadeiros, etc. Havia muitos emprestados em que se podia confiar inteiramente. Entre meus muito bons, havia um homem pequeno, casado e com três filhos, que vivia para os cavalos a ele confiados. Tinha um ou dois ajudantes, era exímio em exercitar os potros no picadeiro, e soltos e sob apenas os comandos dados com palavras, fazia o que queria dos potros. Ele só saía do haras para comprar mantimentos na cidade mais próxima, Jaguariúna, que ficava pela estrada principal menos de 10km, mas Angelino Menegão, o “Seu” Angelin, ia de bicicleta, cortando caminho por pequenas estradas de terra. Ele ia e voltava para o haras, nunca tinha ido a Campinas, cidade grande distante 25km do haras.
O “Seu” Angelin gostava do que fazia, a muito ficava na sala de sua casa, no haras, ouvindo no rádio músicas caipiras. Eu só notei que ele estava envelhecendo quando cheguei em um fim de tarde no grupo de cocheiras que ele tomava conta. Os potros já tinham sido recolhidos, e notei que um box estava vazio, embora com a ração da noite no cocho. Perguntei ao “Seu” Angelin onde estava aquele potro que faltava, havia morrido ou acontecera alguma coisa? Ele simplesmente me disse que não sabia, quando foram buscar os potros no piquete aquele não estava. Pedi a ele que voltasse ao piquete, e procurasse um pouco. Não demorou e ele apareceu trazendo o tal potro puxado por uma corda no cabresto. Quando perguntei onde ele achara o potro, ele simplesmente sorriu e disse que encontrara o potro deitado, dormindo e longe dos outros, por isso não viera antes para o seu box. Foi ai que percebi que era necessário colocar um ajudante mais esperto para cuidar daquele humilde e mais do que confiável trabalhador, um homem que amava o que fazia, mas que estava envelhecendo. Que eu sabia a única vez que o “Seu” Angelin foi a Campinas foi levado por mim. Eu soubera que um circo estava se apresentando na cidade, e eu resolvi ir a um espetáculo noturno, e convidei o “Seu” Angelin e mais uns dois ou três empregados. Não sei se o espanto maior foi quanto ao tamanho da cidade ou em relação ao espetáculo em si, todas as vezes que eu de propósito tocava naquela noite, os olhos do “Seu” Angelin brilhavam e ele sorria. Quando o “Seu” Angelin parou de trabalhar, com o dinheiro recebido foi morar em uma vila contígua a Jaguariúna, mas não demonstrava prazer, sentia falta da quietude do haras, dos seus potros. De vez em quando dava longas caminhadas pela vila e por Jaguariúna, mas não se mostrava satisfeito.
O “Seu” Angelin morreu em 2013, a caminho dos 90 anos.
