Recordações inesquecíveis 32, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Recordações inesquecíveis 32, por Milton Lodi

O meu pai morreu em um acidente automobilístico em 18 de janeiro de 1956. Quinze dias depois eu já havia negociado com a minha família, mãe e dois irmãos, a total propriedade do acervo turfístico deixado pelo meu pai, o haras de porteiras fechadas e o stud no Hipódromo da Gávea, naturalmente com a inclusão de todos os animais. Além de vários garanhões e cerca de quarenta e cinco reprodutoras. Havia os produtos em criação, e a cocheira na Gávea era composta por cerca de trinta e seis corredores. No Hipódromo “herdei”, o treinador Claudemiro Pereira, um homem alegre, sempre de bom humor, agradável, em completo contraste de quando era jóquei durante os páreos. O jóquei agressivo e muitas vezes maldoso virara um treinador competente e de ótimo gênio.
            Os cavalariços eram antigos e muito bons, liderados por um gaúcho pequeno e de cara ruim, sempre de boina e bombacha, e que era muito trabalhador, mas severo em demasia com os empregados, que comentavam que ele estava sempre armado com um facão dentro da bombacha. Mas tudo era suportável pelos bons tratos e amizade do treinador. O Stud seguiu o seu ritmo de vitórias, que foram melhoradas com a entrada nas pistas da potrada da letra “C”. As anteriores não tinham sido ruins, pelo contrário, mas sem um necessário brilho clássico. Mas na letra “C” vieram em bom número filhos do francês Flamboyant de Fresnay um Pharis em filha de Asterus, que na letra “B” só havia mandado um ou dois filhos. Foi então o inicio de uma brilhante caminhada. Após uns quatro anos, eu vi o segundo gerente desrespeitar o treinador de forma bruta, acintosa. Comecei a estudar as atitudes do segundo gerente, e encontrei várias falhas. Levei ao conhecimento do Claudemiro, e ele nada disse. Um fim de dia de trabalho, eu ainda estava no escritório no centro da cidade, quando me telefonou o caminhoneiro encarregado dos transportes. O Manuel Português, um homem da melhor qualidade e confiança, com o rosto sempre rosado, disse-me que havia chegado do haras com uma carga de potros, e o segundo gerente impediu que os potros ingressassem na cocheira, pois ele havia encerrado o expediente às 17 horas e já seriam 17 horas e 15 minutos. Como o Claudemiro não estava ele pediu-me para resolver o caso, para que os potros não passassem a noite no caminhão. Telefonei para a cocheira, atendeu o tal segundo gerente, eu perguntei pelo Claudemiro, ele me informou que estava na casa de uma namorada dele. Pedi o telefone de lá, ele me deu. Liguei, atendeu uma senhora, pedi para chamar o Claudemiro, que veio ao telefone. Informei o que estava ocorrendo, avisei que iria sair naquele momento para a cocheira, e que os potros já não estivessem todos alojados, eu iria mudar de treinador.
Quando lá cheguei, já estava tudo em ordem. Conversei longamente com o Claudemiro, fiz ver a ele que já havia passado a hora de mandar o segundo gerente embora, eu daria a ele todo o dinheiro necessário para a demissão. Mas duas semanas se passaram e não houve a providência. Num próximo sábado à tarde, nas corridas, um turfista que eu não conhecia veio dizer-me que naquela manhã todos haviam assistido horrorizados a uma monumental surra de pinguelim dada pelo tal segundo gerente em um potro meu, um preto pequeno, ainda em fase inicial de doma. Larguei as corridas, fui até a cocheira, e vi o potro preto pequeno marcado pela violência da agressão. Voltei ao Claudemiro, não solicitando, mas exigindo a demissão. Com o dinheiro à disposição, dei um mês para as necessárias providências, e até lá eu não iria à cocheira, só aos sábados iria ver todos os meus cavalos nos trabalhos matinais dos sábados. Cheguei a me oferecer para falar e demitir o péssimo empregado, mas o Claudemiro disse que ele iria tomar sozinho as providências. Passados os quatro sábados nenhuma providência havia sido tomada. Avisei que todos os cavalos iam sair, eu deixaria o grande grupo de cocheiras para ele, como forma de agradecimento pelos amigáveis e bons serviços prestados. Àquela altura, eu não tinha nenhum treinador à vista nem cocheiras para os meus quase quarenta corredores. À tarde nas corridas, troquei ideias com o meu grande amigo Paulo Dunshee de Abranches. Ele me disse que o treinador Expedito Coutinho, que eu até conhecia por ele ter sido anos antes um dos redeadores que trabalhavam diariamente os cavalos de meu pai, que tinha pouco adiante um grupo de cocheiras com mais de 40 boxes, ele só tinha um cavalo aos seus cuidados, de nome Lucky Prince, e todos os outros ocupantes eram de treinadores diversos. Fomos conversar com o Expedito, expliquei tudo, e caso ele se interessasse pela estadia experimental de um mês, que providenciasse a saída dos ocupantes, limpeza dos boxes, cama, ração, tudo o necessário para a chegada dos meus cavalos em uns poucos dias. Tudo deu certo, no mesmo dia acertei eventuais compromissos, tendo pago pessoalmente as contas do serrageiro, ferrador, farmácia, e mesmo as contas vincendas de ração, enfim, nada ficou para trás. Acertei as contas com o Claudemiro com dinheiro e os recibos pagos. Todos os meus cavalos foram acompanhados por seus cavalariços, e eu levei como segundo gerente o cavalariço que havia acompanhado a Elizabeth na Argentina, Geraldo Adelino de Assis. O Claudemiro ficou com o tal segundo gerente, e mais uns quatro cavalariços e menos de dez animais (naquela época, cada cavalariço cuidava de dois animais).
            O meu sucesso com o treinador Expedito Coutinho foi imediato, ele se adaptou muito bem ao Antonio Bolino, e diariamente cada um galopava metade do contingente, e no dia seguinte trocavam. Menos de dois meses depois, Expedito Coutinho e Antonio Bolino ganharam para mim, com o Giuliano, a primeira prova da tríplice-coroa, à época chamada de Grande Prêmio Outono.
            Passados esses muitos anos, pensando muito na então incompreensível atitude do Claudemiro, que era uma ótima pessoa e amigo, cheguei à conclusão de que ele tinha muito medo do tal segundo gerente, que talvez até o tivesse ameaçado de morte com o facão que sempre estava na cintura por dentro da bombacha, segundo diziam os cavalariços. Eu não sei, mas é uma hipótese.
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