José Buarque de Macedo foi um dos maiores e melhores proprietários do turfe brasileiro. Ele não criava, costumava comprar sempre nas melhores fontes, e pagava caro pelos seus escolhidos. Com esse costume, até na Argentina obteve grande sucesso, com os grandes ganhadores clássicos e reprodutores Seductor e Sideral, além do extraordinário Filón, líder na Argentina e ganhador na Gávea do Grande Prêmio Brasil de 1945, quando em memorável luta Filón, com Irineo Leguisamo, no melhor estilo dos jóqueis de freio, venceu Secreto, de propriedade do Ministro Oswaldo Aranha e o grande proprietário Jorge Jabour, irmão mais velho e melhor turfista que João Jabour, que veio a ter uma grande coudelaria. O jóquei de Secreto era Oswaldo Ulloa, um dos melhores e mais vitoriosos representantes da escola chilena. Emparelhados, lutando, Ulloa na escola chilena, um bridão excepcional, e Leguisamo, o ícone dos jóqueis de freio, proporcionaram àqueles turfistas que lotavam todas as dependências do Hipódromo da Gávea, um espetáculo de técnica e emoção.
No Brasil José Buarque de Macedo teve muitos ótimos ganhadores clássicos, com destaque para Garbosa Bruleur. De criação do mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, em seu glorioso Haras Bela Esperança, Garbosa II, que teve o seu nome inicial trocado, adotou o nome definitivo de Garbosa Bruleur. Essa linha materna era francesa, e Lolita, uma filha do fantástico Ksar (pai dentre muitos outros do inesquecível Tourbillon) que fora importado por um dos criadores da família Assumpção. José Paulino comprou Lolita especificamente para ser coberta pelo grande inglês Tintoretto, um filho de Solario. Na opinião do extraordinário criador, era uma cruza perfeita. O sobrenome Bruleur foi lembrado por ser ele o pai de Ksar. Garbosa Bruleur era muito bonita, muito feminina, muita qualidade, coragem e espírito de luta. Líder absoluta de sua ala feminina veio a perder a sua invencibilidade para o então líder da ala masculina, o ótimo Helíaco. Mas Garbosa Bruleur, em um Grande Prêmio São Paulo, revidou, vencendo e tirando a então invencibilidade de Helíaco. Foi grande o número e a qualidade de sucessos de José Buarque de Macedo. Após comprar do Bela Esperança florões como Garbosa Bruleur, Hamdam, Jocosa, Jutlândia e vários outros animais de grande valor e exceção, após comprar produtos da letra “K” o grande proprietário entendeu de dar por encerradas as suas atividades turfísticas. O meu pai comprou do Dr. Buarque a Jocosa e a Jotlândia, entre as duas melhores fêmeas da geração, e o potro Kurdo, e a partir da letra “L” passou a ser o principal comprador dos animais do Bela Esperança. Foi sucesso desde o início.
Quando da letra “M” o meu pai foi ao Haras para escolher potros, e eu fui com ele. À época, o transporte de animais de Campinas onde ficava e fica o Bela Esperança, e o Rio de Janeiro, onde ficava o setor central do Stud de meu pai, era feito através de trem, que começava em bitola estreita, havia baldeação em São Paulo para bitola larga. As estradas eram péssimas, e o trem era a melhor solução. Em cada vagão cabiam seis animais, e o meu pai escolheu cinco. O Dr. Paulino, que a tudo facilitava e informava, mas que não indicava, fazia questão que o interessado escolhesse ao seu inteiro prazer, lembrou ao meu pai que ele iria levar menos um do que era possível, iria um lugar vago, que ele escolhesse um sexto potro. O meu pai concordou desde que o criador indicasse o sexto. Após relutar, o Dr. Paulino sugeriu que também fosse levado um pretinho então inexpressivo, filho de Eboo e Etincelante, uma British Empire. Eboo era um inglês de impressionante pedigree, à época o que havia de melhor no plano internacional. Eboo havia sido vendido para o Brasil em função do seu péssimo gênio, e o Dr. Paulino, um pedigrista por excelência, resolveu arriscar.
O tal pretinho desenvolveu-se muito bem, aos 2 anos em inicio dos trabalhos já mostrava-se superior aos outros. Morumbí era o nome dele, e apesar de um gênio complicado corria uma barbaridade. Foi à primeira prova da tríplice-coroa como uma das principais forças, mas negou-se a entrar no partidor apesar de todos os esforços de Luiz Rigoni. Acabou sendo retirado, e na prova o tordilho Quiproquó deu inicio à sua tríplice-coroa. Uma ou duas semanas depois, galopando na raia pequena da Gávea, Morumbí derrubou o seu redeador, pulou a cerca interna, e saiu disparado pelo pião do prado, e atirou-se no pequeno lago até hoje ainda existente. Morumbí iniciou-se em Cidade Jardim em 1952, tendo vencido o G.P. Ipiranga, primeira prova da tríplice-paulista. Foi para a Gávea, venceu em 1953 o G.P. Major Suckow, na areia, em época que os Grandes Prêmios passavam para a areia em função das chuvas. Para sair do tal lago, tiveram que empilhar sacos de serragem que lhe servisse de “escada” para ele sair. Foi mandado para a Sociedade Hípica Paulista para um adestrador, que conseguiu melhorar um pouco o seu controle. Finalmente, o meu pai o vendeu para a reprodução para o Haras São Bento, de Antonio Luiz Ferraz. Uns poucos anos depois, o meu pai já havia morrido, eu era amigo do Antonio Luiz, e passando em Valinhos, cidade perto de Campinas, resolvi entrar e dar um abraço no meu amigo. Como ele havia saída para São Paulo algumas horas antes, pedi que me mostrassem os primeiros filhos do Morumbí, a sua primeira geração. No grupo de boxes dos potros alguns faziam muito barulho, e o capataz me informou que eram os filhos do Morumbí dando até peitadas nas portas. Morumbí, qualidade excepcional e loucura idem, acabou sendo reprodutor na Remonta do Exército.
