Uma das grandes injustiças com um jóquei, que eu presenciei, foi no ano de 1982. O Stud Montecatini, sediado em São Paulo, sempre tinha bons animais. Comprava potros preferencialmente do Haras São Luiz, de Hernanni Azevedo Silva. Os resultados clássicos se sucediam. Só para lembrar uns poucos, Clackson, Buvant e Denee foram nomes de grande prestígio. Àquela época, a Taça de Prata, idealizada por Antonio Luiz Ferraz quando Presidente da infelizmente hoje e de algum tempo extinta Sociedade de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida de São Paulo, a verdadeira Taça de Prata e não o arremedo de hoje, que é um outro evento, com outro regulamento, mas que se utiliza erradamente de um nome já consagrado, repito, a Taça de Prata tinha as suas provas seletivas em junho/julho, para que a final das fêmeas se realizasse na semana anterior ao G.P. Brasil e a dos machos na posterior.
Assim, naquela época o assunto turfístico era a Taça de Prata. O sucesso dela pode ser medido de várias maneiras. Uma delas era pelo número de inscrições nas provas seletivas. Houve um ano em que foram inscritos tantos candidatos que houve a necessidade de seis provas para as fêmeas e nove para os machos. Eu me lembro que daquela vez houve 96 inscrições para a seletiva só dos machos. Era uma promoção fantástica, com todos os detalhes muito bem estudados. Só como exemplo, a divisão dos competidores em cada páreo era feito por sorteio dirigido, a fim de que os teoricamente melhores não fossem injustamente alijados por confrontos antecipados.
Funcionava da seguinte forma. Primeiro determinava-se o número de páreos (no caso das 96 inscrições foram 10). Depois se sorteava os ganhadores de Grupo I, que eram colocados em páreos diferentes. Depois a mesma orientação para os de Grupo II, depois os de Grupo III, depois de Clássicos, depois os colocados nessas provas nobres, depois os de maior número de vitórias comuns até os perdedores e, finalmente, os inéditos. Assim, teoricamente, todos os 10 páreos tinham o mesmo padrão técnico, em média os valores de cada páreo espelhavam um equilíbrio. Não havia privilégios, quem não se classificasse nas seletivas estava sumariamente excluído da final, que sempre oferecia um enorme prêmio. No caso dos tais 10 páreos, classificavam-se os dois primeiros. E estávamos conversados, os resultados das seletivas eram o que valia.
Em um ano, quando a ótima Euphorie, líder de turma, mas que corria muito menos na areia, um forte temporal alagou as pistas de Cidade Jardim. Euphorie correu em raia absolutamente contrária às suas qualidades, na verdade um verdadeiro pântano na raia de areia. Euphorie, líder de turma, ganhou com tremendo esforço, quase perdeu, e só não o fez pela sua qualidade. E três semanas depois, em raia de grama leve, venceu a verdadeira Taça de Prata como grande favorita e com absoluta autoridade. E naquele ano de 1982, o Stud Montecatini tinha cinco potros em condições de se classificarem para a final.
Os cinco potros, naturalmente um em cada seletiva separadamente, outro cuidado do sorteio dirigido, seriam montados por um bom jóquei local, Geraldo Assis, qualidade e experiência não lhe faltavam. Geraldo Assis, como jóquei oficial do Stud Montecatini, iria montar no Grande Prêmio Brasil de 1982 o favorito Clackson. E aconteceu o que não estava previsto, nenhum dos cinco potros do Montecatini se classificou nas seletivas, e Geraldo Assis foi despedido. E o favorito antecipado do Grande Prêmio Brasil, Clackson, ficou sem jóquei. Por outro lado, Antonio Bolino estava montando para o Haras Rosa do Sul, que tinha um cavalo em preparativos para correr o G.P. Brasil. Mas o Bolino também montava preferencialmente para mim, e eu perguntei a ele afinal qual seria a escolha dele. Ele me disse que já havia se comprometido com o Rosa do Sul, que só decidiria se o tal cavalo ia ou não correr após o trabalho do sábado anterior ao Brasil. Eu disse ao Bolino que infelizmente eu não poderia esperar até lá, pois a minha segunda opção seria o Juvenal Machado da Silva, que tinha oferta de quatro montarias para aquele páreo e ele teria que dar resposta até a quarta-feira anterior ao tal páreo. Assim, Bolino ficou aguardando o trabalho final do cavalo do Rosa do Sul e o Juvenal aceitou a montaria do Gourmet.
No sábado, o cavalo do Rosa do Sul não trabalhou a contento, e ficou decidido que ele não seria inscrito. E o Bolino ficou a pé. Mas com a injustiça praticada com o Geraldo Assis, que não tivera nenhuma culpa nos fracassos dos cinco potros nas seletivas da Taça de Prata, a montaria do Clackson caiu no colo do Bolino. Em princípio, o páreo estaria entre o Clackson e o argentino New Dandy, naquele ano o melhor corredor nas pistas argentinas, e o Gourmet estaria em segundo plano. Mas em joqueada sensacional do habilidoso Juvenal Machado da Silva, Gourmet foi para a ponta enquanto Clackson e New Dandy corriam um pelo outro. Gourmet regulou o ritmo da corrida a seu gosto, e na reta, quando Clackson e New Dandy tentaram se aproximar, Gourmet mostrou reservas e venceu por boa margem. Aquele ano, 1982, positivamente não foi um bom ano para o ótimo Stud Montecatini, e Geraldo Assis safou-se de ser eventualmente considerado culpado de uma derrota honrosa, na verdade um bom 3º, mas que seria quase que certamente uma inadequada joqueada.
