Mulheres do Turfe: Talento, Coragem e Conquista, por Matheus Peres » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Mulheres do Turfe: Talento, Coragem e Conquista, por Matheus Peres

O turfe foi visto, durante muito tempo, como um território essencialmente masculino.
Arquibancadas cheias de homens, cocheiras comandadas por vozes graves, decisões tomadas em ambientes onde a presença feminina era exceção, quando não invisível. Mas essa realidade vem mudando de forma consistente, silenciosa e, acima de tudo, merecida. As mulheres conquistaram espaço no turfe não por concessão, mas por competência, coragem e paixão pelos cavalos.

Trabalhar no turfe é lidar diariamente com desafios físicos, emocionais e técnicos. Exige sensibilidade para compreender o animal, força para enfrentar uma rotina pesada, disciplina para horários ingratos e resiliência para suportar derrotas. E é justamente nesse ponto que muitas mulheres se destacam: na capacidade de unir técnica e sensibilidade, firmeza e cuidado, autoridade e empatia. Quem convive no dia a dia das cocheiras sabe que essa combinação faz diferença real no desempenho dos cavalos.

Hoje, elas estão presentes em praticamente todas as áreas da atividade: como joquetas, treinadoras, veterinárias, proprietárias, criadoras, apostadoras, jornalistas e dirigentes. Cada uma dessas funções carrega enormes responsabilidades, e em todas elas as mulheres vêm mostrando que lugar no turfe não se herda — se conquista. E elas conquistam todos os dias, com trabalho sério e resultados concretos.

Nas pistas, as joquetas desafiam não apenas adversários, mas preconceitos históricos. Montar um puro-sangue exige força, equilíbrio, leitura de prova e, sobretudo, coragem. As vitórias femininas têm um peso simbólico que vai além do espelho ou da fotografia no *winner circle*: representam a quebra de um paradigma. Cada chegada em primeiro lugar é um recado claro de que talento não tem gênero. Dentro desse contexto, no turfe brasileiro, Jeane Alves segue mostrando sua categoria e capacidade, liderando a estatística no Jockey Club de São Paulo e buscando, mais uma vez, um título de enorme relevância.

Nas cocheiras, treinadoras constroem relações profundas com os animais. O cuidado diário, a observação atenta de cada detalhe e a percepção de mudanças mínimas de comportamento ou condição física fazem toda a diferença.
 
Muitas vezes, é o olhar feminino que percebe primeiro quando algo não vai bem e age antes que o problema se torne maior. Esse vínculo direto com o cavalo, baseado em respeito e confiança, é uma das grandes forças da presença feminina no turfe.
 
A treinadora Fabiana Pessanha tem obtido resultados positivos no Hipódromo da Gávea, comprovando, mais uma vez, sua total competência para a função. Victoria Mota, após ótimos resultados como joqueta, segue buscando seu espaço no treinamento, deixando claro que mulheres merecem mais oportunidades também nessa área.

Poderíamos citar diversas outras figuras importantíssimas que fizeram — e ainda fazem — a história do turfe. Suzana Davis (foto), hoje responsável pela largada dos páreos no Hipódromo do Cristal, foi a primeira joqueta brasileira a competir, na década de 1970, abrindo portas para que outras mulheres pudessem ingressar na atividade.
 

Fora das pistas, mulheres também se destacam na gestão, na criação, na comunicação e na preservação da memória do esporte. São elas que administram studs, tomam decisões estratégicas, investem, escrevem, narram e defendem o turfe em um mundo cada vez mais exigente. Em um cenário que cobra profissionalismo e transparência, a atuação feminina tem sido fundamental para modernizar e fortalecer a atividade.

É importante dizer: o sucesso das mulheres no turfe não é uma moda nem um gesto simbólico. É fruto de garra, de jornadas longas, de portas fechadas que precisaram ser empurradas mais de uma vez. Muitas ouviram que “não era lugar para elas”. Muitas provaram, com resultados, que esse argumento nunca fez sentido.

Celebrar a importância das mulheres no turfe é reconhecer que o esporte só tem a ganhar quando se torna mais plural, mais justo e mais aberto ao talento, venha ele de onde vier. O futuro do turfe passa, inevitavelmente, por elas, que já fazem história e por outras que ainda estão começando, olhando a pista com brilho nos olhos e determinação no coração.

Porque, no fim das contas, o cavalo não reconhece rótulos.
 
Ele responde a quem o entende, o respeita e trabalha por ele.
 
E nisso, as mulheres do turfe têm mostrado, dia após dia, que sabem fazer como poucas.

por Matheus Peres– fotos: Sylvio Rondinelli; Arquivo Pessoal e Gazeta Zero Hora

N.R.: Matheus Peres é jornalista, tem toda uma vida ligada ao turfe – filho do treinador gaúcho, radicado no turfe carioca, Daniel Peres – e terá uma coluna semanal no site do Jockey Club Brasileiro.

 
 
 
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