Poucos esportes convivem de forma tão íntima com a superstição quanto o turfe. Embora seja uma atividade alicerçada em genética, preparo físico, estatística, técnica e leitura minuciosa de corrida, o universo das pistas sempre reservou espaço para rituais, crenças e pequenos gestos que desafiam a lógica, mas confortam quem vive dela.
Ao olhar do leigo, tudo isso pode soar como folclore. Para o habitué das cocheiras, das tribunas e das casas de aposta, porém, a superstição é quase um item de equipamento: não garante vitória, mas parece indispensável.
O cavalo é um atleta que não fala. Pode apresentar um cânter impecável e fracassar na corrida. Pode parecer apático no paddock e, minutos depois, voar na reta final. Some-se a isso variáveis externas como clima, estado da pista, largada e decisões tomadas em frações de segundo, e o resultado é um esporte em que a lógica, nem sempre, é soberana.
Onde a previsibilidade falha, a superstição surge como tentativa de controle emocional.
Jóqueis, por exemplo, costumam repetir a mesma luva, a mesma bota “da sorte”, carregar um amuleto ou algum objeto de proteção simbólica. Treinadores preferem assistir às corridas sempre do mesmo ponto da arquibancada ou algum outro local específico, como se mudar de lugar pudesse alterar o destino do páreo.
Entre todos, talvez os apostadores sejam os mais fiéis às crenças. Apostam sempre no mesmo guichê, usam a mesma caneta para anotações, jamais cancelam uma aposta já registrada. Escolhem números específicos, evitam determinadas combinações, confiam em cavalos cujos nomes evocam datas, cores ou acontecimentos especiais.
Para quem entende o turfe, a superstição raramente substitui a análise, mas quase sempre convive com ela. O profissional estuda tempos, balizas, ritmo e forma, mas preserva seus rituais porque eles ajudam a manter o foco, a confiança e o controle da ansiedade.
Nesse sentido, a superstição não é irracional, é psicológica. Ela não faz o cavalo correr mais, mas pode fazer o ser humano errar menos.
No fim das contas, o turfe é feito de números, mas também de histórias. E a superstição é uma forma de narrativa: cria continuidade, identidade e memória dentro de um esporte marcado pela incerteza.
Para o iniciante, compreender essas crenças é uma porta de entrada para o lado humano das corridas. Para o veterano, elas fazem parte do charme que mantém o turfe vivo, mesmo em tempos de tecnologia, dados avançados e análises cada vez mais sofisticadas.
Porque, no fundo, todos sabem: a corrida se ganha na pista, mas o coração corre junto. E, se for com a meia da sorte, melhor ainda.

Nas fotos, Venâncio Nahid em três momentos de glória, sempre com seu terno bege: GP São Paulo (Invictus – 2012 – Marília Lemos); GP Brasil (Barolo – 2015 – Gerson Martins) e GP Brasil (My Chèrie Amour – 2016 – Sylvio Rondinelli).
N.R.: Matheus Peres é jornalista, tem toda uma vida ligada ao turfe – filho do treinador gaúcho, radicado no turfe carioca, Daniel Peres – e terá uma coluna semanal no site do Jockey Club Brasileiro.
