Recordações inesquecíveis (23), por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Recordações inesquecíveis (23), por Milton Lodi

             Quando eu perdi meu pai, em janeiro de 1956, o Ipiranga ainda estava em fase final de implantação, eram mais de 40 éguas em reprodução, muitos potros, muitas despesas, e as contas indicavam prejuízos. Em princípio foi admitida uma venda, mas eu entendi que aquele grande sonho não podia ser abandonado. Um mês depois eu já havia negociado com a família, mãe e dois irmãos, e ficara com todo o acervo imobiliário rural, inclusive, todos os animais.  Selecionei cerca de um terço da potrada maior, as fêmeas que seriam o alicerce do Haras, e os machos que julguei mais pretensiosos, preparei uma relação detalhada de cerca de vinte e cinco produtos e parti para uma necessária venda.

            Os produtos eram filhos do italiano Destino (Pilade e Debra, por Cranach), do francês Fairy King (Vatellor e Reine des Fees, por Pharis), do francês Flamboyant de Fresnay (Pharis e Djézima, por Asterus), do Italiano Mandello (Ortello e Mannoza, por Manna), do nacional Manguari (King Salmon e Globera, por Sparus), e do italiano Minotauro (Ortello e Michela, por Cranach). Havia ainda, dois potros, filhos do inglês Eboo, duas coberturas feitas no Haras Bela Esperança.

            Enquanto o Ipiranga estava sendo montado, o meu pai se iniciara como criador no município de Osasco, pertinho da cidade de São Paulo, em um sítio de propriedade de José Paulino Nogueira, que estava desocupado aguardando um loteamento. Depois de três incipientes gerações, no Ipiranga nasceu a letra A, e naquele ano de 1956, os potros tinham a letra C. Preparei uma relação detalhada por ordem alfabética dos garanhões, primeiro os machos e depois as fêmeas, por ordem de nascimentos. Convidei meia dúzia de habituais compradores de potros, dentre eles Roberto Gabizo de Faria e Reynato Sodré Borges, todos do Rio, e fomos de manhã para voltar no fim da tarde, passando o dia no Haras em Jaguariúna, SP.

            Eu ia chamando os potros e potrancas pela ordem da relação, com cópias distribuídas a todos. Os empregados conheciam os potros pelos nomes das mães, e o desfile inicial ia calmo e tranqüilo, com tempo necessário para os visitantes examinarem os que lhes interessavam. Lá pelas tantas um empregado se enganou e trouxe antes do previsto, um potro alazão, filho de Flamboyant de Fresnay e Pan-América, por King Salmon. Mandei que ele voltasse, para depois retornar na ordem prevista. Foi quando o Dr. Reynato se levantou e disse que queria examinar aquele potro, naquele momento. Fez uma avaliação rigorosa e disse que, aquele potro era dele, era o que ele queria. Chamava-se Cochise. O potro voltou para a fila, o desfile continuou, e quando Cochise voltou, o Dr. Reynato foi até ele, mostrando a todos os detalhes que o havia despertado. Confirmou a compra, e pediu para o potro ir para o Rio no primeiro caminhão que transportaria o lote para o Hipódromo da Gávea.

          O Dr. Roberto ficou com os dois filhos do Eboo (Cântico, em filha de Sayani, e Cocar, em filha de Pharis), como sempre em sociedade com o seu fraterno amigo Francisco Paula Pinto. Mais alguns também foram vendidos, e quase todos os potros e potrancas voltaram a se exibir. Voltamos para o Rio ao anoitecer. Organizei uma sequência de transportes, dois caminhões por semana, primeiro levando os vendidos, depois os outros ainda a vender e, finalmente, os que iam correr para mim, em função da disponibilidade de boxes.             Avisei ao Dr. Reynato que em determinada manhã o Cochise chegaria no primeiro caminhão. Quando o Cochise chegou, no portão do meu grupo de cocheiras, aquele que hoje é do Stud TNT, lá já estava um empregado do Dr. Reynato, com um cabresto e uma corda, para levar o potro embora para o seu novo box. O caminhão-transporte vinha e ia duas vezes por semana.

Cerca de uma semana depois, recebi um recado do Dr. Reynato, ele não queria mais o potro, pois verificara que ele era monorquídeo, e pedia que fosse buscá-lo. Telefonei para ele, pedi que ficasse com o potro por mais uns dias, pois com a movimentação dos animais, eu estava com dificuldades de alojamentos. Mas uma semana depois o Dr. Reynato voltou a telefonar, insistia para irem buscar o Cochise. Não tive outra solução que não mandar o Cochise de volta para o Haras no primeiro caminhão disponível. Quando terminou, todos os vendidos entregues, chegava a vez de trazer aqueles com que eu ficaria, e resolvi não mais vender o Cochise, não só já estava satisfeito com as vendas, como também, a devolução poderia levantar dúvidas sobre a integridade física do potro.

Cochise voltou ao Hipódromo da Gávea no último caminhão. Ganhou mais de oito corridas, sempre ou quase sempre montado pelo extraordinário Antonio Bolino, que à época era o jóquei preferencial dos animais do Haras Ipiranga, em prestação de ótimos serviços por cerca de trinta e cinco anos. Cochise corria sempre bem colocado e, arrancava na reta, corria sempre com valentia, e se perdia chegava colocado. Os amigos mais chegados ao Dr. Reynato sabiam todos do que havia ocorrido, e costumavam mexer com ele a cada vitória do Cochise. Eu me lembro que, quando da última vitória do alazão na Gávea, quando ele tomou resolutamente a ponta, o Dr. Reynato virou de costas para a pista, e disse bem alto “Essa eu não vou assistir.”

Depois mandei o cavalo para continuar correndo no Tarumã, onde ele continuou correndo muito bem, tendo ganho muitas corridas. Acabei vendendo-o para a reprodução.

O Dr. Reynato era um homem de temperamento difícil, alternava momentos exaltado com outros de serena amizade, era um médico conceituado, e comigo sempre foi muito educado e gentil. Mas nunca mais tocou no nome do Cochise comigo.

Gostou da notícia? Compartilhe!

Pular para o conteúdo