Segundo o hipólogo Sergio Barcellos, três países no mundo protegem em especial os seus turfes, criação e corridas. São eles, Japão, França e Uruguai. A França chega a premiar com dotações substanciais os criadores dos cavalos que, nascidos na França, obtenham vitórias em provas nobres ocorridas fora da França. É uma brilhante forma de incentivar, não só a criação, como também as exportações, no sentido de disseminar pelo mundo a qualidade dos animais franceses. O Uruguai, por seu lado, após um longo período em que esteve estagnado o seu turfe, com sete anos de paralisação das coridas, de uns tempos para cá dá demonstração de recuperação. Com o apoio financeiro do dinheiro das “maquininhas”, os incentivos já se refletiram na criação. Como exemplo, o Uruguai, país do tamanho aproximado do nosso Estado do Rio Grande do Sul, vê crescer a cada ano o número de nascimentos de cavalos de corrida. Hoje já na casa dos 2.100, enquanto que no Brasil há uma queda anual que já está na ordem de 2.800. Com o apoio e incentivo, os prêmios no Uruguai estão já de algum tempo superiores aos brasileiros, há melhoria geral, que se é obstaculada pela reserva de mercado, isto é, pela prática em complicar com atos inadequados e taxações o livre vai e vem de animais de outros países.
No turfe uruguaio, a qualidade dos animais é ruim, deixa muito a desejar, e em lugar de dar facilidades para que animais de qualidades maiores sigam para lá para, inclusive, melhorar a média, na prática ocorre o contrário, aparentemente, pelo interesse até dos próprios criadores uruguaios em exercer uma reserva de mercado. Recentemente, as dotações dos dois principais hipódromos, Maroñas e Las Piedras, foram substancialmente aumentadas, e em lugar delas atraírem a ida para lá de animais de boa qualidade para melhorar o padrão das corridas e da criação, são protegidas para os cavalos uruguaios, em evidente reserva de mercado, indo na contramão do Brasil.
No Brasil, as autoridades governamentais não dão a devida importância ao turfe, atividade que da de comer direta ou indiretamente, a bem mais de cem mil pessoas. O Governo não vem ao turfe, ele o recebe com simpatia, mas não há uma específica proteção. Apenas como um exemplo, a taxação na fonte, a pretexto de imposto de renda, de 15% (quinze por cento) é completamente absurda em uma atividade deficitária há muitos e muitos anos. E para que seja conseguida alguma coisa, há uma tradicional burocracia, exercida por funcionários, de um modo geral, despreparados e/ou desinteressados. Mas o turfe brasileiro segue em frente.
Essas considerações me levaram à lembrança de duas figuras exponenciais da alta política brasileira, o Presidente Getúlio Vargas e o Ministro Oswaldo Aranha. À época, sendo a capital da República no Rio era comum, importantes figuras de políticos frequentando as corridas. A entrada da nova geração no Hipódromo da Gávea só era permitida a partir do dia seguinte à realização do Grande Prêmio Brasil, e dois meses depois, havia uma exposição de potros, um concurso de beleza daqueles que pretendiam se iniciar nas pistas a partir de janeiro seguinte. São Paulo também tinha a sua exposição, e para a classificação dos melhores era anualmente requisitado os serviços de gente qualificada, vindo em anos alternados experts da Argentina, do Uruguai, da França e da Inglaterra. No Rio as proporções dos eventos eram menores, São Paulo era o Estado melhor produtor de potros, e o Rio não tinha expressão na criação, apesar de que criadores importantes como Seabra, Peixoto de Castro, Lodi, Linneo (não tenho certeza), Acetta, Aranha e mais alguns, prestigiavam o evento com juízes brasileiros mesmo.
No Rio eram selecionados os dez machos e as dez fêmeas entendidos como melhores, e em um sábado pela manhã, às 10 horas, chegava o Dr. Getúlio para assistir a escolha dos melhores cinco de cada grupo. Com o presidente que assistia no quiosque, junto à linha de chegada com o Ministro da Agricultura e mais alguns convidados, os animais desfilavam para a apreciação geral. Enquanto o juiz ou juízes iam anotando e decidindo os cinco primeiros de cada lote, pela ordem de classificação. O resultado só era dado ao público no intervalo entre dois páreos no domingo, durante as corridas.
O ministro Oswaldo Aranha nem sempre estava presente, em função de seus compromissos no exterior, mas quando comparecia fazia observações ao presidente, do qual era íntimo amigo. Havia critérios básicos a serem respeitados. Por exemplo, potros e potrancas que se apresentassem com a nuca pelada, com crina, topete e rabo cortados à tesoura, eram sumariamente eliminados. Rabos, crinas e topetes podiam e deviam ser ripados, desbastados e diminuídos sem a ação de tesouras e, dessa forma, as apresentações eram de um modo geral muito naturais e bonitas.
Lembro-me de três casos curiosos a respeito. Em Cidade Jardim, o Capitão Bela Wodianer era sempre assistente dos juízes, e quase sempre ou sempre entendia mais que os experts convidados. Um dia, um juiz estrangeiro eliminou uma linda potranca alazã, contra a opinião do Capitão. Ele chamou o treinador, disse que a tal potranca estava classificada entre as dez finalistas, que ela deveria comparecer no dia seguinte para nova avaliação. No dia seguinte, em meio à enorme quantidade de potros e potrancas a serem revisados, o juiz estrangeiro deu à potranca o 5º lugar.
Entre os muitos juízes brasileiros convidados a classificarem a nova geração, dois marcaram época. Um deles pelo farto conhecimento, aquele que veio a ser o melhor Ministro da Agricultura de nosso país em todos os tempos, Luiz Fernando Cirne Lima. Em época em que muitos criadores não apresentavam os seus produtos à exposição, alegando que os melhores classificados nem sempre correspondiam às expectativas nas pistas, pelo menos metade dos classificados por Luiz Fernando chegavam com êxito à esfera clássica. Perguntado como se dera aquela transformação, o expert explicou que os juízes normalmente davam preferência aos potros mais adiantados, mais precoces, mais prontos. Mas ele preferia aqueles que, embora ainda em formação, mostram para ele que quando prontos seriam ou poderiam ser os melhores. Conhecimento e inteligência é isso.
O outro juiz que marcou a sua presença foi um veterinário, que servia na seção carioca do Stud Book Brasileiro, e era também veterinário no Jockey Club Brasileiro. Homem rigorosamente honesto, quadrado, o Dr. Zsigmond era respeitado por sua conduta ilibada. Um dia, como juiz único em exposição na Gávea, onde o evento não era prestigiado pelo próprio Jockey Club Brasileiro, ele deu o primeiro lugar pelo conjunto do lote a um haras fluminense, na verdade potrada bonita e que se apresentava muito gorda, e o segundo lugar para o lote grande favorito pela grande maioria. Perguntado o porquê daquela evidente injustiça, o pretenso disse que o Haras que ficara em segundo lugar era um habitual recebedor de prêmios em função da beleza e perfeição dos seus animais, mas ele era o 1º lugar para um Haras que nunca havia vencido nas Exposições, a título de incentivo. Quer dizer, ele havia determinado um resultado errado sabendo que ele estava errado. O mesmo veterinário prestava serviços profissionais a outro Haras na região de Teresópolis. Lá chegando um dia 30 de junho, viu um potro recém-nascido naquele dia. No dia seguinte, 1º de julho, registrou o nascimento daquele potro no dia 30 de junho, com isso fazendo o potro completar um ano de idade, quando tinha na verdade, um dia de nascido. É claro que perdeu o emprego, foi proibido de sequer chegar perto do Haras e/ou dos cavalos, sob a pena de levar um tiro. O veterinário era homem decente, confiável, mas tinha “cabeça de pedra”, cérebro impenetrável.
Para coibir detalhes como esse, quando Presidente da Associação Brasileira, Hernani Azevedo Silva determinou que, as habituais fiscalizações nos Haras fossem interrompidas no dia 20 de junho, dando margem a que a Natureza, que não é matemática, gerasse um potro com alguns dias de antecedência, nascer com até duas semanas de antecedência em nada influencia. É simples questão de bom senso.
