Antes de fundar o seu Haras Ipiranga, o meu pai costumava comprar corredores, machos e fêmeas, procedentes da Argentina e do Uruguai, além naturalmente, de nacionais. Os importados lhe eram oferecidos, habitualmente, pelos importadores: Atílio Irulegui – o melhor de todos e o mais confiável, honesto e entendido-, Oswaldo Gomes Camiza – sempre de terno branco e fumando charuto – e Atílio Loss Tedesco.
Eu não sei de qual deles meu pai comprou o argentino Hechizo, um castanho avermelhado, calçado, cara branca e olhos de vaca. Ganhou muitas corridas na Gávea, depois já com mais idade foi para o extinto Jockey Club de Minas Gerais, onde ficou invicto, tendo vencido mais de quinze corridas. Mas ele protagonizou um episódio curioso. Fora da cocheira, trabalhando montado na pista, era manso, mas tinha dois detalhes a serem cuidados, quais sejam: no partidor não enfrentava normalmente a fita de largada (à época não havia partidores elétricos como hoje), tinha que ficar de costas e quando o juiz de partida avisava, Hechizo dava meia volta impetuosamente, e largava violentamente, não seria necessário dizer que ele ficava cerca de dois corpos atrás do grupo, pois como largava em movimento tinha que dar vantagem aos outros que estavam se alinhando. Outro detalhe é que ele era muito ansioso, andava muito do seu box.
Em um domingo, na Gávea, Hechizo, como grande favorito chegou em último, sem ação. Como ele andava na cocheira ficou entendido que ele correra “passado”, já entrara na pista cansado. Foi então decidida uma tentativa inovadora. Hechizo foi inscrito para correr no domingo seguinte, e ficou dentro do seu box, sem sair, de domingo após o último e o domingo quando saiu do seu box para correr. O resultado foi espetacular, fácil vitória por vários corpos, o que resultou em suspensão do treinador por três meses, por enorme diversidade de performances. O caso era simples, se ele trabalhava intensamente dentro do seu box, levá-lo para trabalhar na pista seria um exagero, a permanente movimentação de Hechizo era suficiente, mais trabalho só iria cansá-lo. Hechizo nos primeiros tempos, e Manguari mais para frente, foram os dois cavalos que mais o meu pai gostou. Só para que se tenha uma ideia, para não vender o Manguari quando ele encerrou a campanha nas pistas, o meu pai implantou o seu Haras.
Outro fato inesquecível ocorreu na década de 80, em Porto Alegre. Bravio, de criação dos Haras São José e Expedictus, um alazão grande, filho de Felício, era um bom corredor, e vendido, foi continuar a campanha no Rio Grande do Sul. Mostrou-se muito bom, e venceu muitas corridas. Em uma semana do G.P. Bento Gonçalves ele foi inscrito para correr em três provas clássicas, o páreo de velocidade em 1.200 metros, o da milha e mais um em 1.820 metros. Ele foi correr os três, no mesmo dia. O primeiro dos três páreos foi o de 1.200 metros, vencido facilmente por Bravio. No meio do programa foi a vez dos 1.600 metros, e mais uma vez Bravio venceu com autoridade. No último páreo, o de 1.820 metros, Bravio foi eleito favorito pela terceira vez, tal a confiança do público. Bravio dominou a outra corrida no meio da reta, o seu jóquei precipitou-se, fez correr antes da hora e, ainda, teria facilitado no final, e Bravio foi batido por uma cabeça.
Os jóqueis, mesmo os melhores, são muitas vezes traídos pelo excesso de confiança, deixam-se levar por exagerados otimismos. Em lugar de se dedicarem à cada corrida em ajudar o cavalo a obter a melhor performance, são vítimas de excessos dos próprios egos. Isso não acontece só no Brasil, não. Há muitos anos uma espetacular égua nos Estados Unidos, invicta em dezessete apresentações, todas obtidas em atropeladas finais curtas, foi para a sua décima oitava corrida, a da despedida, como grande favorita, montada por um jóquei norte-americano de grande prestígio local, de nome Smith. A égua foi mantida em último até os últimos 200 metros, e arrancou tardiamente, perdendo a invencibilidade em sua carreia de despedida, por cabeça. Após o páreo, Smith confessou que havia esperado demais, não deixara a égua correr e ganhar como de costume, ele havia jogado fora a invencibilidade da égua e o dinheiro dos apostadores. Em lugar de correr a égua exclusivamente para ganhar, ele se exibira, esperou mais do que era possível, para um final espetacular que não veio – pois não poderia vir, a sua vaidade e falta de sensibilidade tiraram da maravilhosa égua o título de invicta.
O jóquei internacional Antonio Bolino só tinha dois problemas, quais sejam, era um fumante e de vez em quando tinha pedras nos rins. O cigarro abreviou a sua vida, e as pedras nos rins chegavam a deixá-lo de cama por alguns dias. Se não me falha a memória, foi em 1959 que iniciou a sua clássica campanha, uma das melhores potrancas nascidas no Ipiranga, chamada Faustina, chegou invicta e até então líder da ala feminina da sua geração. Quando foi inscrita para correr o Criterium de Potrancas (em São Paulo chama-se Seleção de Potrancas). Foi quando eu fui informado de que o Bolino tinha sido hospitalizado por problemas de pedras nos rins. Fui ao hospital, que ficava no bairro de Laranjeiras, onde encontrei Bolino que me disse que estava bem, e era só expelir as pedras que voltaria a estar em ordem.
Diariamente eu ia ao hospital, e na sexta-feira, com cinco dias acamado entendi que havia de ser escolhido um jóquei substituto para a Faustina, que era uma excelente corredora, mas de gênio complicado. Pedi ao Bolino para me indicar o jóquei substituto, e ele sugeriu José Portilho, um dos bons jóqueis de freio da época, bom cavaleiro e corajoso. Mas o Bolino fez a ressalva, se ele se livrasse das pedras ele queria montar a potranca, mesmo tendo ficado toda a semana de cama e com dores. O Portilho foi avisado e ficou à espera.
No sábado à tarde, nas corridas, o meu treinador Claudemiro Pereira me informou que naquela manhã de sábado o Bolino tinha ido para casa, livre do problema. Entrei em contato com ele, e disse que a Faustina era complicada, geniosa, e que era melhor deixar o Portilho montar. O Bolino disse que não, ele estava em perfeitas condições, ele conhecia a potranca, que era sempre montada por ele. No domingo, antes do páreo, eu pedi a ele para não facilitar, a égua era a melhor, tinha sobras e ele, naturalmente, estaria um pouco descontado, não podíamos arriscar, era correr perto ou mesmo na ponta e deixar a Faustina disparar na reta. Tudo acertado, a Faustina como sempre favorita. Foi dada a largada, e a Faustina em último e em último ficou até os 300 metros finais, com Bolino sempre quieto. De repente, por fora de todas levada desde a entrada da reta, pelo meio da raia Faustina arrancou violentamente, e sempre com o jóquei, passou de último para primeiro, vencendo ainda por mais de um corpo.
O público aplaudindo, todo mundo sorridente, menos eu, ou o Bolino tinha tido problemas em função do seu estado físico ou entendera de fazer outro tipo de percurso, sensacional, arriscado e contra tudo que havia sido combinado. Após a repesagem fui procurar explicações, e o jóquei internacional me disse que desde o pulo de partida a Faustina se negava a correr, ele pediu por ela e não houve resposta, usou do chicote e foi pior, ela não conhecia e não gostou do sabor do chicote, e até diminuiu o ritmo. O jeito foi ficar quieto, parado em cima e esperar. Na entrada da reta, ela foi tirada de trás dos outros e levada para campo livre. Nós últimos 300 metros, quando a Faustina arrancou por conta própria, não havia porque se mexer, a aceleração da potranca era muito forte, foi só esperar o disco de chegada. Eu não achei nenhuma graça no que acontecera, aguardei as corridas seguintes da Faustina, e ela nunca mais repetiu aquele percurso absurdo do Criterium de Potrancas. Continuou vencendo provas clássicas, enfrentou de igual para igual as éguas clássicas mais velhas, e no Haras entre outros filhos ganhadores, produziu Kalapalo, ganhador clássico.
Até hoje, eu não sei, mas tenho a impressão que, naquele Criterium de Potrancas, então pela primeira vez a clássica tordilha não foi suficientemente esperta na partida, em lugar de correr sempre na ponta ou junto com as ponteiras, não gostou de ficar atrás, e como era de temperamento complicado, não queria passar perto das outras competidoras, e só atropelou na reta, quando se viu longe das outras, afastada pelo meio da raia. A estratégia de levar a potranca para longe das outras deu certo. O Bolino me disse, textualmente, que a Faustina venceu sozinha aquele páreo, ele foi um coadjuvante que só teve o trabalho de levar a tordilha para longe das outras. Esses detalhes e interpretações são somente produto de raciocínios, e na prática, a Faustina mostrou-se uma égua de exceção, e o Bolino um jóquei inteligente e de extrema sensibilidade.
