Um dia, o mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança, Campinas, SP) foi informado que um criador, da família Assumpção havia colocado a venda uma égua francesa, filha de Ksar. Esse Ksar, um brilhante filho de Bruleur e pai do extraordinário Tourbillon, de nome Lolita. Essa Lolita já havia dado uma boa potranca. Lolita, filha de Ksar, foi comprada por José Paulino Nogueira, especialmente, para o seu garanhão Tintoretto, um filho de Solario. No Bela Esperança nasceu uma lindíssima potranca alazã, fisicamente muito bem estruturada, bem feminina, cabeça pequena, uma beleza. Foi-lhe dado o nome de Garbosa, mas no Stud Book Brasileiro já havia outra égua com o mesmo nome, por isso ela foi registrada como Garbosa II.
Assim ela começou a sua campanha nas pistas, mas logo depois veio uma nova determinação do Stud Book proibindo o artifício numérico. O proprietário, que havia arrendado a potranca do criador acrescentou Bruleur, nome do bisavô materno, ao nome da potranca. E, ela, como Garbosa Bruleur, mostrou-se a melhor fêmea da época, brilhantíssima, líder da ala feminina e responsável, com a sua espetacular vitória no Grande Prêmio São Paulo, pela quebra de invencibilidade de Helíaco, o melhor macho de sua época, que veio a ser bi campeão do Grande Prêmio Brasil.
Após a sua maravilhosa campanha, Garbosa Bruleur foi devolvida ao seu criador. Chegou cansada, exaurida, esgotada por uma severíssima campanha nas pistas. Após dar seguidamente quatro fêmeas que não tiveram maior expressão, nasceu Race Horse, um filho de Seventh Wonder, bom corredor de páreos de padrão Handicap. Na letra “S”, outra vez com o mesmo garanhão, Garbosa Bruleur deu Sísamo, ganhador clássico. Então coberta por Pharas, Garbosa Bruleur foi comprada pelo Haras São Quirino, e nasceu, em lugar da letra “T”, um macho alazão, batizado como Garbolleto, que entre outras importantes provas, venceu o Derby.
No ano seguinte, novamente com Pharas, deu Hansita, ganhadora do Diana. Daí em diante, a produção de Garbosa Bruleur caiu em declínio, já velha, o Haras São Quirino a deu de presente ao Haras Bela Esperança, para que ela viesse a morrer nas mesmas terras em que havia nascido.
O quarto produto de Garbosa Bruleur, o da letra “Q”, foi por José Paulino Nogueira, arrendado ao mesmo ex-proprietário de Garbosa Bruleur, José Buarque de Macedo, que trocou o seu nome para Lourinha, um dos apelidos da Garbosa. Era uma filha de Eboo, de físico leve, um tanto nervosa, e que foi uma ganhadora não especial.
No ano de 1956, após a morte do meu pai, José Paulino Nogueira perguntou-me, se eu faria algum negócio com um dos então meus reprodutores, o italiano Minotauro, que eu entendia já ter cumprido a sua missão no Ipiranga. Eu ofereci Minotauro a José Paulino de presente, eu ainda ficaria com cinco garanhões, Minotauro não me faria falta. O Dr. Paulino não concordou, de presente ele não aceitava. Fiz ver a ele que o turfe apesar do importante aspecto financeiro, não é um balcão de negócios, e no fraterno relacionamento com o grande criador cabia perfeitamente à cessão do cavalo. E se, o grande criador não aceitava o Minotauro de presente, que ele levasse o cavalo e dele desfrutasse sem mais me devolvê-lo, mantendo a propriedade em meu nome, mas em um empréstimo sem volta.
O Dr. Paulino não aceitou, e me disse que estava para receber de volta a égua Lourinha, filha da Garbosa Bruleur. Ele me propôs a permuta. É claro que eu aceitei. Minotauro, após dois anos no Bela Esperança, foi vendido para o Haras Recreio, dos irmãos Cunha Bueno, e cumpriu um bom papel nos Haras Ipiranga, Bela Esperança e Recreio.
No Ipiranga, Lourinha teve muitos filhos, todos ganhadores, uns mais e outros menos. Coberta pelo alemão Takt produziu Nallie, com um excelente pedigree, mas de campanha apenas regular. O saudoso amigo e criador Hernani Azevedo Silva acabou me comprando Nallie, para seu Haras São Luiz, ela levou na barriga um potro de Kurrupako, de nome Tálio, que ganhou a Taça de Prata. Com King Buck, Nallie produziu Abilene, que foi boa égua, que foi comprada pelo Santa Maria, de Araras.
Coberta por Vacilante, Abilene deu Sweet Alice, ótima ganhadora clássica e também ótima mãe clássica, e que, por sua vez, com o excelente Jules deu Nina Sabella que não correu, mas era imã de ótimos ganhadores clássicos. E essa, Nina Sabela coberta por Public Purse deu Aerosol, ganhador do Grande Prêmio Brasil de 2013.
Aerosol desde o seu inicio nas pistas, mostrou muita qualidade, conduzido magistralmente pelo habilidoso Altair Domingos, e preparado pelo excelente Julio Cezar Sampaio, obteve sensacional vitória.
As grandes éguas, as realmente estrelas, podem até demorar um pouco a se reapresentarem, mas de repente reaparecem. Garbosa Bruleur deu Aerosol como sexta mãe. Empeñosa, Emoción, Jocosa e muitas outras, de quando em quando se mostram presentes, manifestam qualidades especiais em provas muito importantes.
Parece até que ressurgem para que não nos esqueçamos delas, para que reavivemos as nossas boas lembranças.
