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Turfe, uma vida de paixão: Victoria Mota

São vinte e dois anos de idade, seis na rotina de atleta. Em uma conversa sincera, Victoria Mota nos apresenta uma versão da mulher de hoje em dia: Forte, corajosa, engajada e que ocupa o espaço que bem entende que deve ocupar.
 
A menina nascida e criada dentro das vilas do Hipódromo da Gávea, filha da ex-treinadora e hoje apresentadora da TV Turfe e coordenadora da EPT, Juliana Dias, e do jóquei Alex Mota, cresceu!
 
À época, com quinze anos, vendo o pai montar novamente, Victória começou a amadurecer a ideia de seguir os passos do dele. Aos dezesseis, idade permitida para ingresso na Escola de Profissionais do Turfe, o chamou para uma conversa e lhe disse que desejava montar profissionalmente. De imediato, um susto, porém Alex, não quis intervir negativamente no futuro profissional da filha e, depois de sinalizar todos os obstáculos que ela viria a enfrentar, deu o sinal positivo para que a filha seguisse adiante com sua vontade.
 
– Victoria, você está maluca?
 
A joqueta nos conta que foi assim que a mãe recebeu a notícia, expôs a sua opinião mas, visto que a menina já tinha a decisão tomada, resolveram todos que a jornada fosse o mais leve possível, e assim, resolveram seguir. Do ingresso na EPT até o dia da estreia como aprendiz, foram pouco mais de de 365 dias. Victoria se recorda de um período de muito trabalho e ensinamentos passados pelo professor da escola, que naquele período era o ex-jóquei Marcello Cardoso. 
 
“Marcello me segurou como aluna até o último furo, não queria que eu fizesse uma estreia precipitada. Teve um cuidado muito grande comigo. Embora meu pai fosse jóquei, ele nunca quis se meter no meu processo enquanto aluna. Ele até chegou a se afastar um pouco, para que as pessoas evitassem colocar uma pressão grande em cima de mim, justamente por eu ser filha de um bom piloto.”
 
A estreia, em agosto de 2016, foi em grande estilo, com vitória, montando um cavalo chamado Afetuoso (guardem bem esse nome!) que era treinado pelo avô, o treinador Odir Jorge M. Dias, o popular “Cai-Cai”. 
 
“Meu avô pegou o Afetuoso e preparou o cavalo para eu montar na minha estreia e ganhar. Quando saiu o programa de inscrições, ele foi até a comissão de corridas e fez o pedido para que o páreo fosse o primeiro daquele conjunto de reuniões, foi coisa de avô mesmo, ele queria que a neta ganhasse a primeira corrida da carreira dela para ele e não para um outro treinador. Justo!”
 
Victoria soube aproveitar bem a descarga de peso que os aprendizes tem direito e os meses seguintes foram de bom proveito nas raias, com mais vitórias e boas direções. A joqueta era bastante requisitada por diversos treinadores para trabalhar e montar seus cavalos e o sucesso era visível. Em seus últimos meses como aprendiz, recorda-se de ter tido a preferência de monta dos animais do Stud BL, de propriedade do presidente da comissão de corridas, e nessa mesma época, sua mãe se tornou a coordenadora da EPT. Um período que ela classifica como crítico, mas de muito ensinamento.
 
“Esse foi um período de muito aprendizado para mim. Primeiro porque tudo que acontecia na raia e envolvesse um cavalo meu, achavam que eu era protegida por montar os animais do Stud BL e por eu ser filha da Juliana, a coordenadora da escolinha de aprendizes. Tive que ter muita sabedoria para lidar com algumas coisas.
 
E um outro ponto que destaco, é que confesso que o sucesso subiu um pouco à cabeça, as ideias ficaram um pouco embaralhadas na minha mente, hoje consigo enxergar que eu estava voando um pouco mais alto do que eu deveria.O meu temperamento forte e o meu orgulho me atrapalharam um pouco, eu não soube lidar com algumas situações e principalmente com algumas pessoas” 
 
Jovem e inteligente, Victoria é super antenada aos recursos do mundo moderno. Bastante engajada nas redes sociais, usa a sua imagem para mostrar os bastidores do turfe, as curiosidades e explora bastante da interação com os seus 22 mil seguidores na tentativa de atrair novos frequentadores para o Hipódromo e até mesmo, quem sabe, encorajar mais meninas a se tornarem joquetas como ela. 
 
Outro assunto que não passa despercebido por ela, é a posição da Mulher no mundo atual. O ambiente do turfe é dominado pelos homens, para se ter uma ideia, no Hipódromo da Gávea, o maior do Brasil e onde Victória é baseada, ela é a única representante do sexo feminino montando os cavalos.
 
“Quando eu vejo o público que frequenta as tribunas, eu me assusto um pouco com o futuro do nosso esporte. São pessoas que estão ali há anos e embora muitos tenham paixão pelos cavalos e pelas corridas, sabe-se lá o porquê, a maioria não conseguiu transmitir esse sentimento para os filhos, os netos… O turfe aqui no Brasil precisa de renovação. Eu uso o meu Instagram para mostrar o meu dia a dia, as minhas vitórias e abro caixas de perguntas para responder questões ligadas ao nosso esporte de modo em geral. Sei que consigo atrair um pouquinho novas pessoas, muita gente tem vontade de conhecer o JCB, de assistir às corridas, mas não conhecem porque ainda falta algo que ultrapasse essa barreira dos muros do hipódromo. Eu tento fazer isso, romper essa barreira”
 
“E tão importante quanto a renovação do público, é a renovação de profissionais mulheres. A frase que mais me irrita é quando alguém diz que determinado cavalo não é para mim. É um machismo velado, que precisa acabar. Isso é uma questão de cultura, de educação, de respeito… vai muito além do cavalo ser manhoso ou não, entende? O mundo mudou e as pessoas precisam mudar junto, a mulher conquistou muita coisa e vem conquistando muito mais, o nosso lugar é onde a gente quiser estar, e o meu lugar é em cima de qualquer cavalo!
 
Essa luta não é só minha, é da Josiane, da Jeane e de todas as outras que já passaram pelo turfe nacional. A Josiane, por exemplo, fez sucesso aqui na Gávea, mas depois teve que se mudar para SP em busca de mais oportunidades e reconhecimento. Ela foi minha referência quando comecei a montar, e de ídola, passou a ser minha amiga. Ela estava de volta aqui na Gávea junto com o seu marido, o Vagner Leal (que também é jóquei) e eu começando ainda, eu a via na raia batalhando todos os dias as oportunidades e que força ela tinha, a filha deles havia nascido há pouco tempo e ela trabalhando com suporte de telefone no braço para que se a mãe dela ligasse por qualquer motivo, ela pudesse saber o que estava acontecendo com a neném.
 
A Jeane ganhou estatística em São Paulo.  A gente tendo oportunidades, não deixa a desejar em nada, é possível termos as mesmas conquistas que os demais. Mas, voltando ao que falei antes, eu acredito na mudança, só que a longo prazo, pois envolve muitas coisas que ainda estão enraizadas na nossa cultura.”
 
Sobre sua vida profissional, Victoria confessa que o que a faz sentir mais orgulho é quando ouve alguém a comparando com seu pai. 
 
“Meu pai é o melhor jóquei que eu já vi montar, e não é porque é o meu pai não. Ele tem o dom mesmo de montar cavalos, eu fico de boca aberta quando eu vejo algumas direções que ele dá. É a minha maior referência dentro da pista, sem dúvida. O fato de ser filha do Alex Mota nunca me atrapalhou, a pressão por ser filha dele não existe porque ele nunca deixou que isso acontecesse comigo, mas as comparações às vezes são inevitáveis. E eu sinto um orgulho danado disso.”
 
Em sua ainda curta carreira, com pouco mais de duzentas e trinta vitórias, incluindo um Grupo II, alguns pontos são destacados por ela como um capítulo especial, tais como o convite que recebeu para disputar um torneio de joquetas na Suécia, uma queda nos trabalhos matinais que lhe rendeu uma cicatriz no ombro direito e o cavalo Afetuoso.  
 
Enquanto eu conversava com a Victoria, senti que esses três assuntos a fazem ter sentimentos diferentes, mas com o mesmo ponto em comum. 
 
Falar do torneio a faz vislumbrar um futuro melhor:
“O prestígio e o respeito que tive quando fui montar lá me encheram os olhos e são muitas mulheres montando, treinando, lidando com os cavalos no dia a dia. Lá eu tive a convicção de que eu posso chegar onde eu quiser. Pretendo ir para fora um dia e fazer minha carreira, mas tudo tem o seu tempo. Não quero ir e ser só mais uma, quero ir quando eu definitivamente me sentir pronta para isso, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Não tenho um prazo para isso, estou deixando as coisas acontecerem naturalmente, o dia que eu sentir que estou pronta, arrumo as malas e vou!”
 
 Falar da queda a faz ter certeza de que os acidentes fazem parte da profissão, mas que ela é capaz de enfrentar seus medos, ser forte e seguir fazendo o que escolheu para a sua vida:
 
“Na ambulância, a caminho do hospital, eu não sentia o meu braço. Minha única preocupação naquele momento, era se eu voltaria a montar e quando que isso iria acontecer. Eu não pensava em nada além disso. Eu tive duas fraturas na clavícula e acabou que tive que fazer cirurgia, assim que tirei os pontos e o medico liberou a fisioterapia, eu procurei o Bernardo, do Studio Trâmite, para iniciar logo o processo de recuperação e poder voltar o quanto antes.
 
O retorno não é fácil, fica um certo trauma. Eu cai durante os treinos matinais enquanto levava um animal nos boxes, quando foi dada a partida o cavalo se perdeu e eu fui ao chão. Quando me liberaram para poder trabalhar novamente, não tive receio algum em galopar os cavalos, mas eu fugia de levar cavalo no boxe novamente. Sabia que aquilo ali um dia teria que acabar e eu ser mais forte do que o medo. Quando esse dia chegou, eu fui. Encarei o boxe, olhei para o cavalo, e falei comigo mesma:
Vai Victoria! 
 
Eu sei de todos os riscos que a minha profissão envolve, mas é isso, faz parte. Eu escolhi isso e eu amo o que faço”
 
E falar do Afetuoso é falar de amor:
 
“Minha história com o Afetuoso começa muito antes de eu começar a montar. O meu avô treinava esse cavalo e ele ficava alojado num boxe que era próximo a área onde a gente tinha a máquina de lavar roupas, toda vez que eu ia lá levar as roupas, ele tentava me morder. Um dia ele foi embora da nossa cocheira e eu nem vi, enfim… passou um tempo, eu já na escolinha, e quando estava prestes a fazer minha estreia, meu avô liga para o dono do cavalo e diz para trazê-lo de volta pois ele iria preparar o cavalo para eu montar e vencer. Esse cavalo me proporcionou o momento e a situação mais emocionantes que vivi até hoje no JCB. O momento sem dúvida foi o da minha primeira vitória, o fato do meu avô preparar o cavalo, meus pais estarem ali juntos, minha estreia… a situação é que depois que eu ganhei três corridas com ele, o Pedro Lima o comprou.
 
Eu não tinha uma boa relação com ele e cavalo correu três vezes na farda dele e outros jóqueis que montaram. O cavalo fracassou nessas oportunidades e o Reisinho (treinador) convenceu o Pedro a me dar a montaria do cavalo novamente. Montei e chegamos em quarto lugar. Fui até o Pedro com a chamada dos páreos em mãos e pedi para que ele o inscrevesse em determinado páreo, ele me ouviu e ganhamos a corrida.
 
Após o páreo, bati o peso, fomos para o winner´s circle e na volta para a repesagem, o Pedro veio ao meu encontro e me entregou um papel. Era a transferência de treinador e de propriedade do cavalo. Ele me deu o Afetuoso. No dia seguinte cheguei em casa de surpresa com o cavalo e entreguei ele ao meu avô. Ganhamos mais quatro corridas juntos, foram oito no total! 
 
CLIQUE AQUI e veja as oito vitórias da parceria Victoria Mota e Afetuoso
 
Já aposentado das corridas, levamos ele para um haras, mas eu não tenho o contato da moça que ficou com ele. Me arrependo de não ter pego o telefone dela, mas hoje, prefiro não correr atrás disso. Tenho medo de saber o que pode ter acontecido com ele. Falar do Afetuoso me emociona e aquece o meu coração.”
 
O ponto comum entre esses assuntos é ir de encontro ao principal sentimento que norteia essa série de entrevistas, a paixão pelo turfe e pelos cavalos.
 
“Não me arrependo do caminho que venho trilhando, mas se eu pudesse chegar no ouvido daquela Victoria de 16 anos e falar alguma coisa para ela, eu diria para ela ir com calma em algumas situações, manter os pés no chão e ter paciência para resolver os pepinos que viessem a surgir no meio do caminho. O meu maior desejo é de um dia, assim como pessoas daqui do Brasil chegam para mim e me perguntam se eu conheço a joqueta Hollie Doyle, é um dia eu chegar em um hipódromo fora do Brasil e ouvir as pessoas falando: Sabem quem vem montar aqui? A Victoria Mota. 
 
Quando eu fui montar lá na Suécia, eu cheguei e era só mais uma, ninguém sabia quem eu era. Depois dos páreos, as pessoas vinham falar comigo e pedir para tirar fotos, eu passei a ser alguém também. Esse reconhecimento pelo nosso trabalho, não tem preço. O meu sonho é esse, ter meu nome no mundo, por causa do meu trabalho.  
 
Quem sabe num futuro não muito distante nossa conversa seja para você nos contar que conseguiu?! 
 
Voe alto e coragem! 
 
Texto e Imagens por João Cotta
Foto Suécia: Arquivo Pessoal
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