A Criação Brasileira através dos tempos (Milton Lodi)
Tive a ventura de conhecer o final da então criação líder nacional da época, e o início da progressista criação paulista. Entre 1940 e 1950, a criação gaúcha era ao sabor da liberdade total, isto é, depois de desmamados os potros e potrancas eram soltos em definitivo, ao sabor da Natureza. Como as terras gaúchas eram e são muito adequadas para a criação dos cavalos de corrida, a rusticidade vinha com o sol, as chuvas, os ventos, as frias madrugadas, tudo isso ao comando da Natureza. A criação gaúcha copiava a criação argentina, só que os argentinos importavam para a reprodução cavalos até ganhadores do Derby de Epsom e de outras grandes provas nobres européias, e a criação gaúcha não ia tão longe, utilizando-se de cavalos e éguas nacionais, uruguaias e argentinas. Isso resultava cada vez mais em uma grande superioridade sul-americana a favor dos argentinos, que já àquela época, copiando os hábitos argentinos, após uma bárbara doma, iniciaram os trabalhos de pista com a ajuda de drogas, no entendimento de quem não recebe o auxílio de remédios não ganha corridas. Chegou-se ao absurdo de corredores em oferta de vendas serem super medicados quando faziam trabalhos de distancia e de partidas curtas para impressionarem eventuais compradores.
Mas aos poucos tudo foi mudando. Atitudes deploráveis de criadores sofreram muito quando Hernani Azevedo Silva assumiu a Presidência da Associação Brasileira. Fiscais foram mandados de São Paulo para examinar os registros das datas de coberturas, muitas delas falsas, com produtos nascendo meses antes das datas previstas. Um baluarte da criação gaúcha era o Haras do Arado, que importava ótimos sangues da Inglaterra e da França, como por exemplo Elpenor e Estoc, e que representava já de algum tempo a verdadeira criação gaúcha. O turfe brasileiro deve muito ao saudoso Breno Caldas. Mas não foi só no Rio Grande do Sul que a ação de Hernani Azevedo Silva corrigiu problemas. No Paraná, logo na primeira ida de veterinários fiscais da Associação Brasileira, logo no primeiro haras, de propriedade de um Senador da República e um dos Diretores da gestão de Hernani Azevedo Silva, foram encontrados cinco ou seis produtos que só deveriam nascer após 1º de julho. Eles efetivamente haviam nascido de março a junho. É claro que, dentro da desastrosa realidade encontrada, o que ocorreu também em vários outros haras paranaenses, entre desqualificar todos os produtos nascidos antes de 1º de julho, a Associação Brasileira registrou os produtos nas verdadeiras datas de nascimento, e corrigiu as mentirosas informações. Foi na verdade um escândalo. Mas os corredores paranaenses tinham uma boa média de qualidade, e despontava como líder o Haras Valente, de Luiz Gurgel do Amaral Valente, símbolo da qualidade da criação do Paraná. O seu haras tinha um eficientíssimo veterinário da escola francesa, o Professor Heliodoro Duboc, e entre os seus melhores momentos Luiz Valente tinha em seu haras a colaboração de modernidade de um sobrinho de nome Paulo Soledade.
Em São Paulo, entre 1940 e 1945, houve uma verdadeira transformação. Criadores antigos, representantes de famílias tradicionais como Assumpção e Lara foram dando lugar à entrada em cena de outros valores maiores. Na época antiga, a família Assumpção, havia entre outros os Haras Jaçatuba e Itatinga. O Jaçatuba fechou as suas porteiras, e descendentes de Erasmo Assumpção e do irmão Antonio Álvaro Assumpção surgiram com o Haras Castelo. Houve para a época um surto da então modernidade, com até a troca de dois reprodutores por dois anos, indo o inglês Paradiso para o Haras Ipiranga, que veio a compor o pedigree de Gourmet, ganhador do Grande Premio Brasil, em troca de um francês Fairy King, um filho de Vatellor em filha de Pharis. Mas o Haras Castelo foi posteriormente vendido para a família Artmann, com a liderança de Pedro Artmann, que depois se transferiu para Bagé,RS. Da família Lara dois descendentes de Antenor Lara Campos, de nomes Paulo e Theotônio, durante muitos anos mantiveram a família Lara em evidência.
Mas tudo isso passou, pois entre 1940 e 1945 foram implantados Haras como o Faxina, Bela Esperança, São Quirino, o Guanabara, o Patente, o Ipiranga, o São Bernardo, o Jahú e posteriormente o Rio da Pedras, entre outros que tomaram conta da criação paulista indo até 1960 com um sucesso espetacular, produzindo todos os corredores da maravilhosa excursão em fins de maio de 1960. Escorial, Elizabeth, Major’s Dilemma, Derah, Farwell, Excêntrica, Narvik e Lohengrin eram todos nascidos e criados em São Paulo.
Quanto à criação fluminense, apesar de meritórios esforços, só viveu durante 20 anos, com três grandes destaques, que foram durante os dez primeiros anos com o Haras Vale da Boa Esperança, de Júlio Cápua, depois mais dez anos com o Haras Santa Maria de Araras, de Júlio Bozano, e o cavalo Daião, que venceu o G.P Brasil. Hoje, e já de algum tempo, a força da criação brasileira está em Bagé,RS, com os grandes investimentos de criadores domiciliados no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também o Paraná teve o seu brilho aumentado com a implantação dos Haras Santa Rita da Serra e o São José da Serra, ambos também de criadores domiciliados no Rio de Janeiro, e um genuinamente paranaense, o Santarém.
O tema é vasto e o espaço para escrever curto. Por isso, hoje ficamos por aqui.
