ESCADARIA – Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

ESCADARIA – Milton Lodi

ESCADARIA – Milton Lodi

            O ritmo e sua intensidade são detalhes preciosos, fundamentais, principalmente, em páreos de distâncias maiores. Ignora-los quase sempre representa derrota, fracasso.

            Lembro-me de um Bento, cuja maior atração era o especialíssimo Irineo Leguisamo, que apesar da idade e com sua inteligência e sensibilidade, dela tirando o proveito da experiência, ia montar o argentino Vizcaino. Um consagrado e excelente jóquei, com um bom cavalo, era esse o competidor a ser batido por Estupenda, égua gaúcha de muito boa qualidade, de grande poderio locomotor, que ia montada por um dos melhores jóqueis do Cristal, sem maiores pretensões no eixo Rio-São Paulo, mas um dos bons valores locais.

            No Rio Grande do Sul, à época, de um modo geral, quem podia já corria “na carreira”, isto é, nada de ficar de propósito entre os últimos, era largar e correr “perto”.

            Embora já se tenham passado muitos anos, recordo-me perfeitamente que, dada a largada dos 3000 metros, Estupenda foi acelerada enquanto Vizcaino se colocava no bloco intermediário, em ritmo cadenciado. Quando o jóquei da gaúcha viu que o seu competidor principal não havia acelerado no princípio, e daí haver naquele momento uma boa diferença entre os dois, sofreou a sua excelente égua, fez com que ela diminuísse a velocidade, permitindo melhor aproximação de Vizcaino, que seguia imperturbável no mesmo ritmo inicial (respiração compassada).

            Lá pelo meio do percurso, Leguisamo deu um leve toque nas rédias de Vizcaino, a fim de melhorar o seu posicionamento, evitar eventuais futuros embaraços. Foi o suficiente para que Estupenda fosse novamente instigada e a qualidade dela levou-a outra vez para as primeiras colocações, e de novo longe do pilotado de Leguisamo, que se mantinha sempre na cadência inicial. Repetiu-se a ocorrência anterior, Leguisamo foi procurado, foi encontrado longe, e lá foi novamente sofreada a coitada da Estupenda.

            Na entrada da última reta, então, entendendo que não havia mais o que esperar, Estupenda foi exigida ao máximo. Ao tomar a dianteira ante o delírio da multidão, eis que apareceu Vizcaino pelo centro da pista, livre e desembaraçado, então exigido e ajustado sem pressa por Leguisamo, aumentando a cada galão a intensidade de sua atropelada, assumiu a liderança sem luta, ganhando com autoridade e firmeza, com boa vantagem sobre a exausta e heroica Estupenda.

            O que daí se pode apreender? Alguém conhece algum animal com condições de dar três partidas, três aceleradas e duas diminuídas no mesmo páreo, no mesmo percurso, e ainda assim ganhar? Há algum pulmão que aguente cinco intensidades, repetidamente, aumentando e diminuindo em termos de competição, e ainda assim, resistir a outro que se manteve sempre compassado, ritmado, sereno e levado por um perfeccionista de classe internacional?

            Não tenho dúvidas, se Leguisamo tivesse montado Estupenda e o outro jóquei fizesse com Vizcaino o absurdo do percurso “ioiô”, certamente, a égua teria ganho o Bento.

            Mas será que isso é tão importante assim?

            Vamos imaginar uma extensa e íngreme escadaria, e três homens de poderios físicos semelhantes competindo para ver quem chegaria primeiro lá no alto. Um deles sobe em ritmo acelerado, sem respiração ritmada, outro sobe em ritmo lento, também sem respiração ritmada, o terceiro mantém um ritmo regular, comedido, firme, igual, sem aumentar nem diminuir, compassadamente inspirando a cada quatro ou três degraus, depois expirando também em quatro ou três degraus, e assim, sucessivamente, e com a chegada do cansaço manter o ritmo passando a inspirar e expirar a cada dois ou mesmo a cada um degrau, sempre com a meta de manter o ritmo, o compasso. Qual será o ganhador da escalada?

Não é difícil a resposta, quem menos alterar o ritmo adequado não só vai ganhar como também vai conseguir normalizar a respiração antes e em melhores condições. Os dois outros competidores, aqueles de respirações e ritmos descompassados, de esforços desordenados, não só perderão, como ainda, sofrerão mais com os esforços, chegarão mais ofegantes.

Vamos admitir um páreo de distância grande, de 3000 metros ou mais, disputado por cavalos de, teoricamente, o mesmo poderio, a mesma capacidade locomotora, bem treinados adequadamente cada um de acordo com as suas características individuais. Como escolher o provável vencedor entre competidores de chances teoricamente iguais? Nada mais fácil, escolher aquele que vai montado pelo jóquei que tem a melhor noção de velocidade e de ritmo. No turfe antigo, Rigoni, no moderno, Juvenal. Isso pode parecer errôneo ou semelhante, mas não é. O ritmo, a respiração, a cadência, isso tem uma enorme parcela nos resultados das corridas, principalmente, nas de fundo e é necessária a sensibilidade da velocidade e do ritmo, isso é atributo apenas dos melhores jóqueis (que são melhores justamente por isso).

Pobre Estupenda chegou num 2º honroso, mas “aos pedaços”, enquanto Vizcaino venceu e terminou em melhores condições físicas.

Mas as ditas “gloriosas incertezas do turfe” são na verdade extraordinárias.

Quantas vezes um competidor de menores possibilidades toma a frente na largada, imprime um ritmo que lhe é conveniente, como não tem aparentemente maiores chances não é incomodado. Enquanto as forças do páreo, os melhores são corridos “tecnicamente”, como gostam como costumam apresentar melhores rendimentos, por exemplo, entre os últimos para só acelerar na reta final. E quando chega o disco os melhores não alcançaram o pior, que imprimiu um ritmo “falso”, suave, menos cansativo, mais adequado ao seu menor poderio. E, assim, o azarão resiste, o pior ganha dos melhores, pois o ritmo da corrida foi adequado a ele e não aos ditos melhores (olha o ritmo aí outra vez).

O cavalo melhor deve sempre procurar “mandar” na corrida, isto é, fazer com que o ritmo do páreo lhe seja conveniente. Daí a vantagem das parelhas, um sempre na frente ou entre os primeiros, outro mais atrás; se o ritmo for suave, melhor para o que corre “perto”, se forte melhor para o outro, que vai aguardando o natural maior desgaste dos ponteiros para só acelerar na parte final da corrida.

Para ter uma ideia da importância de uma parelha bem “afinada”, vou lembrar um páreo, corrido em Cidade Jardim em 2200 metros, um “pesos especiais” com quatro concorrentes. Coincidentemente todos de minha criação e dos quais dois também de propriedade. Correriam Interlagos (o melhor, bom corredor clássico, com 65kg) King Lawrence (o pior de todos, aparentemente sem chance, com 52kg) e a parelha King Scotch (o único que poderia aviltar ganhar de Interlagos, um bom cavalo, com 56kg) e King Sun (o “faixa” com 53kg). Partindo-se do princípio de que King Lawrence não merecia cuidados, o único problema era Interlagos, o melhor. King Sun foi mandado logo para frente, abrindo uma vantagem boa, e então imprimindo um ritmo adequado a ele; o parelha King Scotch, com o jóquei preferencial, ficou para último, bem contido. Interlagos teve que optar entre correr “perto” do faixa King Sun, e em função do seu alto peso, eventualmente, não resistir à atropelada do seu aparente único rival, King Scotch, que iria fazer todo o percurso até a entrada da reta bem poupado ou acompanhar o tipo de corrida de King Scotch, esperando.

A opção foi à segunda, King Sun na frente correndo no ritmo que lhe interessava, e os dois melhores do páreo em ritmo aquém dos seus poderios. King Sun virou a reta com boa vantagem, inteiro, bem, com suas energias em ordem em função do ritmo da corrida ter sido ditado por ele, adequado aos seus interesses, ao seu poderio individual, e disparou para o disco, vencendo com folga e em tempo record. Interlagos e King Scotch, em tardios esforços, lutaram na última reta, em função da boa vantagem de peso vingou a “dobradinha”.

Sob o ponto de vista teórico, as condições da prova eram muito ingratas para Interlagos, e bastaria a parelha se desempenhar bem para um deles ganhar, ou um ou outro, mas certamente um da parelha. O que aconteceu na prática? Simples, o ritmo do páreo decidiu o resultado.

Ritmo, intensidade, cadência, respiração.

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