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Curiosidades 8 (Milton Lodi)

               Naquele tempo, os produtos da nova geração só podiam entram no hipódromo da Gávea depois da semana do Grande Premio Brasil, que era na primeira semana de agosto. Assim, os novatos corredores chegavam de um modo geral em agosto e em setembro, e os respectivos leilões ocorriam em outubro e novembro. Ainda no mês de setembro, com todos os produtos chucros, eram realizadas as Exposições de Potros e Potrancas, e os cinco primeiros de cada ala recebiam medalhas. Era um acontecimento importante, e no sábado de manhã, às 10 horas, havia um desfile especial de apresentação dos dez machos e das dez fêmeas, com a presença dos juízes, então mais uma vez todos os produtos eram examinados, em função das suas desejadas perfeições físicas e belezas, para a grande premiação no domingo durante as corridas, em um intervalo entre dois páreos. Era uma tradição, e sem quaisquer enfeites, o evento causava muito interesse do público. Em sua época de Presidente da República, o Dr. Getúlio Vargas ia aos sábados de manhã para ver os animais. Nomes importantes das sociedades turfística e política iam no sábado de manhã, como por exemplo, o Ministro Oswaldo Aranha, dentre outros. Em 1956, o Haras Ipiranga, ainda em sua terceira fornada, não tinha o hábito de vendas em leilão, as suas primeiras gerações não costumavam participar com toda produção nos leilões. Não tinha ainda tradição no mercado.

Em 18 de janeiro de 1956 eu havia perdido o meu pai que com os seus investimentos havia construído um forte haras, com ótimas importações da Europa, e a cada um dos primeiros anos o lote de potros aumentava. Naquele 1956, eram, cerca de 35 produtos, número muito grande para mim, que tinha que vender para poder fazer o haras funcionar. Entendi que havia que selecionar as potrancas que seriam no futuro o grupo de elite das éguas mães, principalmente quando aparecia a primeira geração do garanhão francês Flamboyant de Fresnay, uma enorme esperança que o tempo mostrou ser uma ótima realidade. Separei umas 10 potrancas e mais uns cincos potros, e tracei um plano para as vendas dos outros cerca de 20.

Formei um grupo de quase 10 turfistas de escol, preparei uma relação por ordem alfabética dos garanhões com os produtos separados, machos e fêmeas por data de nascimentos, e fomos para o haras em Jaguariúna, SP. No dia marcado o grupo saiu cedo de avião para voo direto Rio-Campinas, para volta no meio da tarde. Com tudo preparado, iniciou-se o desfile pouco antes das 10 horas, seguindo o roteiro, do qual eu havia preparado copias para todos. Os potros e as potrancas vinham um a um para serem examinados, depois voltavam para os seus boxes, e de acordo com o que estava determinado e escrito vinha o seguinte. De repente um potro alazão filho de Flamboyant de Fresnay em filha de King Salmon furou a fila, veio fora da ordem prevista. Mandei que ele voltasse para retornar no momento devido. Mas um dos visitantes, um dos mais ilustres, se manifestou. Era um prestigiado médico carioca Reynato Sodré Borges, que disse para o potro ficar, aquele era o que ele iria comprar. Eu insisti para que o potro voltasse para o seu lugar na fila para retornar depois, pela ordem. Mas o Dr. Reynato disse que era aquele que ele queria, o potro poderia voltar depois, mas que ficasse mais um pouco, queria vê-lo por mais tempo. O potro ficou mais um pouco e posteriormente se reapresentou de novo. Compra fechada, definitiva, o Cochise já era dele. Tudo correu muito bem, e o resultado foi uma venda de uns 10 potros. Roberto Gabizo de Faria e Francisco de Paula Pinto, em sociedade, ficaram com dois machos, e outros importantes proprietários deixaram para o leilão no JCB cerca de 15 potros, que também foram vendidos conforme a previsão.

Com a liberação da entrada dos animais, os produtos vendidos foram os primeiros a serem entregues, para dar logo lugar para aqueles que iam a leilão. O Dr. Reynato disse que fazia questão que o seu Cochise fosse o primeiro a chegar, e ao descer lá estaria um empregado para levá-lo diretamente para as cocheiras do novo proprietário. De fato, ainda muito cedo, quando o Cochise chegou, lá estava o empregado esperando. Dois dias depois, o Dr. Reynato me telefonou. Não queria mais o Cochise, que eu mandasse buscar o potro. Eu disse a ele que não havia problema, apenas eu não dispunha de box enquanto não tivessem chegados todos. Ele insistiu, eu ponderei que em menos de 15 dias eu iria mandar pegar o potro. E assim foi, tive que mandar o Cochise de volta para o haras por absoluta falta de acomodação. O meu leilão foi de acordo com as minhas expectativas. E depois que eu fiz as contas, eu já estava em condições de manter o haras sem problemas até as vendas da geração seguinte. Resolvi então não mais vender Cochise, que voltou à Gávea com os produtos então reservados. Os comentários sobre a devolução do Cochise ficaram do conhecimento de muitos turfistas, afinal eram pessoas muito conhecidas e respeitadas. O tempo se passou, e a casa vitória do Cochise, o Dr. Reynato era alvo de muitas brincadeiras, e ele as recebia com muita educação e bom humor. Até que, em uma ensolarada tarde, quando o Cochise entrou na reta final em 3º e logo mostrou que seria o ganhador, em sua mesa no alto da arquibancada social, ouviu-se um grito do Dr. Reynato, que, de pé, disse em alto e bom som, “essa eu não vou ver”, e virou-se de costas para a pista. Era a 7ª vitória de Cochise até então, depois vieram outras.

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