Curiosidades 5 (Milton Lodi)
A – Naquela época, o meu pai era o comprador preferencial dos potros do Haras Bela Esperança, do mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira. O Dr. Paulino não dava palpites nem sugestões, deixava as escolhas livres para os compradores. O meu pai escolheu cinco potros, que para ele se apresentaram trabalhando soltos em um amplo picadeiro. De volta à sede, o Dr. Paulino sugeriu que o meu pai levasse mais um, para completar a carga de um vagão de trem. Naquela época, com as estradas ruins e de terra, os transportes eram feitos em um trem de bitola estreita de Campinas a São Paulo, havia uma baldeação para outro trem de bitola larga, e na chegada ao Rio os animais iam para o Hipódromo da Gávea em caminhões do JCB, que dispunha de uma quantidade de caminhões para a realização de todos os transportes que dissessem respeito ao Clube. O Dr. Paulino lembrou que a capacidade de cada vagão era de 6 animais, por isso a sugestão de mais um, para completar a carga. O meu pai concordou desde que o Dr. Paulino indicasse o sexto potro. O indicado foi um pretinho dos menos brilhantes, visivelmente ainda em fase inicial de desenvolvimento. Mas era aquele mesmo o indicado, um filho de Eboo e Etincelante, por British Empire. Ao completarem 2 anos e meio hípicos, o pretinho, de nome Morumbi, já se destacava. Muito veloz e precoce, passou logo à liderança de sua geração na Gávea. Quando da primeira prova da tríplice coroa, montado por Luiz Rigoni, era o provável vencedor. Mas ele negou-se a entrar no box, não houve jeito dele se entregar, e acabou sendo retirado. Daí por diante, o seu comportamento mudou. Em uma manhã nos trabalhos, jogou no chão o seu galopador, e para espanto geral pulou a cerca interna da pista menor onde galopava, disparou solto pelo pião do prado, e atirou-se no pequeno lago que até hoje ainda lá está. Para tirá-lo de dentro do lago tiveram que improvisar uma subida, com a colocação de sacos de serragem. Com um gênio muitas vezes insuportável, o jeito foi enviá-lo para a Sociedade Hípica Paulista, onde havia um domador, adestrador, de reconhecida alta técnica. Morumbi ficou por lá mais de meio ano, e montado diariamente pelo eficiente adestrador, voltou à Gávea para continuar a sua campanha. Voltou a correr bem, ganhou mais um Grande Premio importante, em 1.000 metros, mais a sua campanha nas pistas foi abreviada. Vendido para um criador paulista, teve vários filhos com comportamento muito difícil, que até negavam-se a correr. O pai dele, Eboo, era um cavalo inglês de um pedigree à época considerado de altíssima qualidade, mas que, soube-se depois, que os ingleses só o haviam vendido pelo temperamento insuportável. Apenas um dos muitos exemplos que poderiam ser lembrados, um filho de Eboo foi Zaluar, ótimo corredor mas que, ao passar pela linha de chegadas, diminuía muito e parava, não havia jeito dele continuar. Só por isso a sua campanha ficou limitada em 2.000 metros. Mas do que isso, teria que passar duas vezes pela linha de chegada, e isso ele não fazia, passava a primeira vez e parava.

B – José Paulino Nogueira era grande admirador, assim como os irmãos Seabra, do uruguaio Haras Casupá e do seu criador Juan Amoroso, considerado o Tesio sul americano. Houve época em que o Haras Casupá importou da Inglaterra o cavalo Stayer, que teve papel muito importante na criação uruguaia. O meu pai, através do turfista José Buarque de Macedo, comprou de José Paulino Nogueira uma filha de Seventh Wonder e Palmron, essa uma filha de Stayer de nome Jocosa-foto. Égua grande, feminina, muito forte e líder de turma no Brasil, grande ganhadora clássica e mãe clássica (Fiorellina, Seleção de Potrancas em Cidade Jardim) e terceira mãe de Gourmet, ganhador do GP Brasil. Jocosa era na verdade uma égua maravilhosa, venceu até o GP São Paulo. Dois bons filhos de Stayer, da melhor geração, vieram para o Brasil, o tordilho Lunar e o castanho Latero. No Uruguai Lunar era melhor, no Brasil Latero foi o melhor.
