Turfe Brasil, da época de 1930 a 1960 (Milton Lodi)
Os textos referentes ao turfe brasileiro, referências desde cerca do ano de 1900, não são precisos, exatos. A falta de informações fidedignas e de material de pesquisa obriga a uma análise supérflua, mas naturalmente dentro das verdades do conhecimento geral. Assim, as datas não são exatas, mas indicam as épocas em que os fatos ocorreram.
No final da década de 20, a inauguração do Hipódromo de Cidade Jardim e da Gávea deu início a um novo comportamento. O dinheiro dos paulistas e dos cariocas começaram a ser dirigidos para uma atividade seminova no Brasil, que passou a amparar-se nos grandes hipódromos europeus, principalmente da Inglaterra e da França, e embora no princípio de forma pálida, dava início a uma nova fase. O Rio Grande do Sul continuava como o maior produtor de cavalos de corrida, enquanto que, no Paraná, houve um detalhe da maior importância.
Com a ascensão do poder da República do estadista Getúlio Vargas, um inteligente plano de administração geral ocorreu no Brasil. Foi nomeado para Interventor no Estado do Paraná um homem de larga visão de nome Manoel Ribas. Amante dos cavalos e de corridas, e ante a precariedade da criação paranaense de então, determinou que, nas propriedades, rurais ou não, onde houvesse éguas de cria da raça puro sangue inglês de corridas, os impostos teriam benefícios com um bom desconto. Isso teve um efeito enorme, a procura por éguas de cria foi muito grande, e com isso a produção de potros cresceu muito, naturalmente com reflexo nas então incipientes corridas. Como incremento, instalou em Curitiba um posto de excelência, isto é, com o que havia de melhor a época para que os criadores aprendessem o que havia então de moderno. O chefe naquele núcleo de melhorias chamava-se Heitor Berleze, e que, quando do posterior encerramento das atividades do núcleo instrutor, foi contratado pelo Haras Paraná, agregando-se a excelência das terras do Haras, como um dos maiores responsáveis pelos bons resultados.
Enquanto isso, em São Paulo, a época o grupo que mais ganhava dinheiro no Brasil, os chamados “Barões do Café”, que eram chamados de “guru” do Brasil, abriram espaço em suas grandes áreas produtoras de café para a implantação de haras pretensiosos, que dessem condição de vitórias importantes. Vaidade e amor transformaram a criação paulista, onde já havia alguns fazendeiros ricaços que dominavam o setor, alguns deles das tradicionais famílias paulistas Lara e Assumpção.
Com a inauguração dos dois grandes Jockeys Clubs, o interesse foi tão grande que o empresário Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, então detentor por concessão do Governo Federal, da Loteria Federal, lançou o famoso Sweepstake, uma rica premiação associando as corridas de cavalo com o sorteio da Loteria Federal. O prêmio maior era descomunal para a época, 300 contos de réis, e vieram para o Grande Prêmio Brasil de 1933 cavalos de quase todos os cantos do mundo, e a vitória de Mossoró-foto, um cavalo pernambucano, deflagrou uma grande onda de evolução no setor. Até por volta de 1940, foram surgindo haras movidos pelo entusiasmo. Mas foi entre 1940 e 1950 que os paulistas, à custa de muito entusiasmado e dinheiro, construíram um núcleo de altíssimo padrão. Aos Haras São José e Expedictus, Mondesir e mais uns poucos, vieram a se juntar os Haras São Quirino, Bela Esperança, Patente, Faxina, Terra Branca, Bela Vista, Ipiranga, Guanabara, Santa Anitta, Calunga, Castelo, Eduardo Guilherme, Jahú e Rio das Pedras, e muitos outros, que deram a São Paulo a liderança nacional tanto no setor criação como no das corridas.
Naquela fase, o mais destacado haras gaúcho era o Haras do Arado, do empresário Breno Caldas, que em lugar de ficar atrelado às sobras argentinas, o que era até natural porque a Argentina era a líder destacada na América do Sul, pela quantidade de sua produção mas também pela supremacia quase absoluta nas pistas do continente, consequência de sistemáticas boas importações, chegando ao ponto de levar para a criação Argentina, se não me falhe a memória, quatro ganhadores do Derby de Epsom. Mas o haras de Breno Caldas, que contava com o apoio técnico de Luiz Fernando Cirne Lima e de Nestor Magalhães, trouxe Dark Warrior (Derby da Irlanda), Estoc e outros também de pontos altos da criação europeia. O Paraná criava bem mas com maior modéstia, e São Paulo disparando à frente, com os melhores animais, as melhores técnicas internacionais de criação, os melhores pedigrees já de padrão internacional, e com isso passando a representar, no Brasil, o que havia de melhor internacionalmente. Naturalmente, esse enorme sucesso refletia em boa parte a visão dos seus líderes, que comandavam o JCSP.
O ano de 1960 marcou época internacional quando, sob os auspícios de Luiz de Oliveira Barros, então Presidente do JCSP, bancou a ida de 8 animais paulistas para participar da semana do Grande Prêmio 25 de Mayo, na Argentina, para participarem das 4 principais provas da semana. O absoluto sucesso, com 4 vitórias nos 4 páreos, evidenciou a enorme evolução da criação nacional. Os oito animais eram todos paulistas, de nascimento e criação, evidenciando uma qualidade indiscutível. No primeiro dos 4 páreos, em 1º Elizabeth (Hs. Ipiranga), com Excentria (Hs. Guanabara) em 4º. No 2º dos 4 páreos, em 1º Major’s Dilemma (Hs. Terra Branca), em 6º Lohengrin (Hs. Guanabara). No 3º dos 4, em 1º Derah (Hs. Ipiranga). No 4º dos 4, em 1º Escorial (Hs. Guanabara), em 2º Farwell (Hs. Jahú e Rio das Pedras) em 5º Marvin (Hs. Faxina). Foi na verdade um arraso, e provocou uma verdadeira revolução turfistica na Argentina. O Presidente Luiz de Oliveira Barros foi substituído pelo criador e banqueiro João Adhemar de Almeida Prado, que colocou em ordem o entusiasmo anterior, e que foi substituído pelo empresário Hernani de Azevedo Silva, que com maestria empresarial fez investimentos e preparou o clube, para um futuro ainda melhor. Época de ouro do turfe paulista. Um detalhe que não parece importante, mas que na verdade foi muito especial, foi a ida do então Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, que em atitude de larga sabedoria, foi de Brasília para São Paulo homenagear, na semana seguinte àquele feito extraordinário, a Diretoria do JCSP e os participantes do grande sucesso, criadores e proprietários, assistindo a um galope triunfal dos oito corredores paulistas. O ano de 1960 encerrou o período 1930/1960.
