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Milheiros e Meio-Fundistas (Milton Lodi)

quartier latin post              Um dos milheiros brasileiros de maior sucesso nas pistas foi Quartier Latin(FOTO1), de criação e propriedade do Haras São Bernardo, da Baronesa Marie Blanche Rotschild Von Leithner. O jóquei oficial da coudelaria era Gastão Massoli, de superior educação sempre bem vestido e atencioso com todos. Acontecia que com Massoli, sempre com boas direções o Quartier Latin corria com facilidade entre os ponteiros, e na reta final não correspondia. A Baronesa então resolveu entregar a direção de Quartier Latin a Luiz Rigoni, para muitos com destaque o melhor jóquei brasileiro de todos os tempos. Rigoni montava no regime de freio, e com um suave toque nas rédeas dominava por completo os corredores mais voluntariosos e com serenidade instigava os mais preguiçosos. Com Rigoni, Quartier Latin ficou outro, Rigoni o fazia ficar em último, em galope tranqüilo e ritmado, e quando no inicio da última reta por ele procurava, Quartier Latin acelerava rapidamente e sempre vencia com folga. Foi assim que Quartier Latin, com Luiz Rigoni, venceu em um ano o Grande Premio Presidente da República, Grupo I, em Cidade Jardim a milha internacional da semana do Grande Premio São Paulo, e no mesmo ano, venceu a mesma prova no Jockey Club Brasileiro. E mais ainda, a mesma dobradinha repetida no ano seguinte. Os menos detalhistas entenderam que ali estava um futuro garanhão de sucesso.

gaudeamusMas na prática sucedeu diferente, Quartier Latin não alcançou o êxito esperado. Mas por quê? Resposta simples, o bom milheiro, o realmente bom, tem que mandar na corrida desde o principio, não pode ser, digamos assim, um bom aproveitador do ritmo imposto por outros. Não é ter a obrigação de correr na ponta, é fazer parte de um bom ritmo desde o inicio, na ponta ou perto, e ainda aumentar a velocidade na última reta. A perspicácia de Luiz Rigoni logo percebeu que Quartier Latin era muito bom, mas não tinha a fundamental característica dos grandes milheiros, velocidade inicial, ritmo forte, e ainda uma brilhante reta final. Essa soma de características é privilégio de poucos. O maior milheiro brasileiro de todos os tempos seria provavelmente Gaudeamus(FOTO2), também de criação de propriedade do Haras São Bernardo, que tinha tanta qualidade que ultrapassava os seus naturais limites, e para derrotá-lo o Haras Guanabara colocava três corredores para enfrentá-lo, em época em que os regulamentos permitiam, nos páreos nobres, mais do que uma parelha, uma trinca. Assim, por mais de uma vez, com Massoli, jóquei de muito boa qualidade, enfrentava Emocion (ganhadora do Diana) montada por Luiz Rigoni, Lohengrin (clássico recordista dos 2.400 metros) com Luiz Diaz, e Escorial (tríplice coroado) com Francisco Irigoyen. Gaudeamus, em lugar de ficar especializado em 1.600 metros, corria grandes prêmios até 2.400 metros. Era muito forte, brigador, e Massoli o conhecia muito bem. Gaudeamus, ótimo milheiro clássico, teve curta campanha no haras, e logo na sua primeira geração, produziu uma potranca líder de turma.

Eu me lembro que certa vez o criador e proprietário Abelardo Acetta, intimo amigo do Roberto Seabra e também meu amigo, veio em nome do Roberto me oferecer para reprodução o cavalo Gavarni. Ele era um cavalo muito bonito, encorpado, que era um milheiro que corria para uma atropelada na reta final. Não era um ótimo corredor, mas freqüentava a primeira turma dos milheiros, e tinha um importante pedigree, um filho de Royal Forest em boa linha feminina inglesa. Eu agradeci a oferta, mas sem a velocidade inicial para ditar o ritmo da corrida, e mesmo guardado para um ataque final nem sempre obtinha sucesso, era desinteressante. Expliquei isso ao Abelardo, e agradeci a oferta.

Alguns anos depois, conversando com o ótimo veterinário Homero de Assis Brasil, ele me disse que o mesmo Gavarni havia sido comprado por um haras gaúcho, e tinha fracassado por completo, não havia dado nada que prestasse. Os melhores cavalos para a reprodução mostram-se os bons corredores de 1.600 a 2.400 metros, naturalmente melhores ganhadores de Grupo. Manguari, ganhador da 1ª prova da tríplice coroa, 1.600 metros e também da então 2ª prova da tríplice em 2.400 metros o Derby, e por duas vezes recordista dos 2.000 metros, foi um ótimo garanhão, com a filha Happy como a melhor velocista de sua época, de Domage ganhadora do Diana e de Interlagos clássico com cerca de 2.000 metros entre outros ganhadores de realce, é a prova da correção da teoria.

               Manguari corria sempre bem colocado, nunca diminuía sempre correu na 1ª turma mantinha um ritmo forte, e na última reta era um grande lutador. Um dos motivos do seu sucesso em suportar esforços maiores era o fato de que tinha maior capacidade pulmonar do que o normal, com suas costelas largas que indicavam um grande pulmão.

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