Muito trabalho, total dedicação, permanente estudo dos detalhes e sensibilidade comandando com calma, sem pressa, cada um dos seus pensionistas, isso tudo com honestidade e experiência, levaram sucesso ao treinador Emérito Alcides Molares a conquista de 2.964 vitórias, conquistadas em grande parte no Hipódromo da Gávea e em número bem menor em Cidade Jardim. Essas vitórias em São Paulo foram decorrentes de cerca de quatro anos treinando como contratado do Haras Santa Terezinha e as várias incursões da Gávea para Cidade Jardim com corredores clássicos do Haras Santa Ana do Rio Grande. Por falar no Santa Ana, o treinador Emérito venceu o Grande Premio Brasil por duas vezes, com Anilité e Bowling. Anilité era uma linda tordilha, montada pelo ótimo freio Adail Oliveira, tinha ido correr em maio o Grande Premio São Paulo, experimentando um rotundo fracasso. Inteligentemente, o titular do Santa Ana, José Carlos Fragoso Pires, entendeu de encerrar nas pistas a campanha de Anilité, que de São Paulo deveria seguir para Bagé, então iniciando-se na reprodução.
Alcides Morales então pediu ao Dr. José Carlos um voto de confiança, permitindo que a égua permanecesse com ele por mais três meses, alegando que o fracasso tinha que ser atribuído aos 700 metros de altitude de São Paulo, com a excelente égua tendo ido da altitude zero do Rio de Janeiro, argumentando que, embora Anilité tivesse se apresentando em perfeitas condições, havia chegado da corrida com as mucosas arroxeadas, típico índice de falta de uma adequada oxigenação.
A total confiança no Treinador Emérito resultou em natural concordância. Alcides deixou Anilité se reequilibrar nas três semanas que ainda faltavam para o término mês de maio, e a partir do inicio de junho iniciou a preparação para correr no primeiro domingo de agosto o Grande Premio Brasil. O trabalho preparatório baseou-se em, em dias alternados, galopes suaves e natação na adequada piscina dos cavalos. A vigilância diária determinava a sequencia dos trabalhos. Em meados de julho, havia na Gávea dois Grandes Premios preparatórios, o 11 de julho para éguas em 2.000 metros para o OSAF, e o 16 de julho para produtos em 2.400 metros para o Brasil. Quando Anilité foi inscrita no 16 de julho contra os machos, naturalmente houve algumas críticas, mas quem conhecia Alcides Morales confiava no talento do Mestre. Anilité ganhou o 16 de julho e foi para o Grande Premio Brasil, com intervalo de três semanas, com um único trabalho importante, um 1.200 metros a meio correr. Indagado por muitos o porque daquele procedimento, Alcides declarou que a égua já estava pronta, não havia porque desgastá-la em esforços maiores.
Naturalmente Anilité veio a vencer o Brasil. Três anos depois, com o também tordilho Bowling, outra vitória no Brasil para o Santa Ana, sob a experiência do Mestre, e pilotado por Juvenal Machado da Silva. Mas àquela época floresceram na serra de Petrópolis e Teresópolis os grandes centros de treinamentos, apresentando ótimos resultados, e as cocheiras de Alcides Morales foram se esvaziando. O padrão técnico de Alcides Morales continuou muito alto, mas disseminou-se no turfe carioca a superioridade dos centros de treinamento em relação ao hipódromo da Gávea, e hoje e desde há muito tempo há mais animais alojados nos centros que nos hipódromos.
Os melhores corredores cariocas, de um modo geral, estão alojados nos centros. O treinador Emérito continuou treinando com a eficiência de sempre, mas com muito menos qualidade em suas mãos. O tempo foi se passando, e Alcides Morales terminou seus dias com apenas seis cavalos em seus boxes. Um potro a estrear em 2017, dois corredores de recursos limitados mas sempre se colocando, uma égua de 4 anos ganhadora mas de padrão claiming, uma de 3 anos que veio de um centro de treinamento com duas descolocações mas que revigorava pela suavidade nos treinamentos e pela experiência do Mestre preparava-se para voltar às pistas com pretensões bem melhores, e uma égua de padrão regular para bom com 5 anos e 3 vitórias.
Alcides Morales chegava diariamente ao local matinal dos trabalhos às 4:50 horas, assim como o bom treinador O.J.M.Dias, o Cai Cai, a tempo de olhar os seus animais e providenciar jóqueis e/ou aprendizes e/ou redeadores para os exercícios de pista, que se iniciavam à luz dos refletores às 5 horas de todas as manhãs, quando a pista era aberta aos trabalhos. Alcides Morales deixa viúva, uma filha, um filho e 4 netos. Os dois filhos formaram-se em escolas superiores e Economia, a moça é alta executiva na área de investimentos, e o filho Vice-Presidente de um importante Grupo Empresarial. Casou-se apenas uma vez, e aos vinte e poucos anos, casamento que durou 60 e tantos anos. A sua bondade não lhe permitia eventuais desafetos. Ajudou a muitos na sua profissão. O campeão Jorge Ricardo muitas vezes referiu-se a ele como um segundo pai. Muitos profissionais receberam o apoio dele, mais recentemente W.S Cardoso e a joqueta Lu Andrade.
Alcides Morales começou no turfe como cavalariço. Naquela época de poucos recursos, ia diariamente tomar café da manhã com o maior treinador da época, Ernani de Freitas, que além de ficar um bom amigo dele, foi o seu primeiro professor. De cavalariço foi a redeador, muitas vezes trabalhando animais do Haras Guanabara. Naquela época trabalhava com o grande treinador Gonçalino Feijó, já como 2º gerente. Foi quando o JCB promoveu uma Escola para Treinadores, com o que havia de melhor à época. Alcides Morales formou-se treinador na primeira turma daquela Escola. O extraordinário sucesso em sua vida profissional só pode ser equiparado pelas suas condições humanas, como chefe de família, de integro caráter, de coração aberto para todos.
Deixou empregados que o acompanharam com dedicação e respeito por muitos anos. O seu último 2º gerente e o encarregado de encilhar os seus animais ficaram com ele por 20 anos cada, e dele só fazem elogios e agradecimentos. Alcides Molares faleceu às 7 horas da manhã de um sábado de corridas, em um hospital, vítima de complicações posteriores à uma operação na coluna.
Tinha 88 anos. Além de inúmeras vitórias em provas comuns, em provas especiais, em clássicos e em grandes prêmios de grupo III e II , Alcides Morales ganhou para o Santa Ana do Rio Grande inúmeras provas de Grupo I, com Valka, Asola (double de DIANA, SP e RJ), Unbeaten, Vargedo, Vistoria (double de OSAF 1984-1985), Anilite (GP Brasil 1984), Bowling (GP Brasil 1987), Belle Valley, Bat Masterson, Lavaggio, Anis, Mensageiro Alado, entre outros.
O corredor preferido do treinador Emérito era Bat Masterson.
A primeira vitória para o Santa Ana do Rio Grande foi com Noscado em 1977.
